Estrada da Luz, 1

A.

 

O conhecimento, sedimentado no ser e no tempo por um movimento semelhante ao do assoreamento da foz dos rios quando encontram o mar, que lhe permite transformar-se em saber fundamentado e, por fim, em sabedoria, é a causa mais remota da felicidade, o seu mineral mais rico, o sal da vida, o ser anímico que descobre opções e caminhos, veredas, e os conquista. Um movimento cadenciado ou incerto, intuído por indícios ou de súbito descoberto. A felicidade é um saber que se encontra, assim se saiba decifrar, no movimento do ser e do tempo. Existimos, somos, movemo-nos no tempo e no espaço, tal como todo o universo se move, de uma forma radical, quer dizer, a idiossincrasia da nossa condição não incide sobre a natureza dessas categorias puras, todavia, existindo nelas, também nelas nos revelamos e a partir do que somos as revelamos realizando. Por conseguinte, a felicidade, ser-se em reciprocidade, carece do mesmo cuidado que faz da terra erguer-se a vida, num equilíbrio entre o cultivo e as estações do ano. Assim, a perfeição é apenas saber o ser e o estar, como fim da matéria do conhecimento para aí existir, moldando de forma adequada a imperfeição. Em tudo está o tempo, dádiva bruta ao ser, conquista anímica, realização de um penhor.

22 e 23 de Outubro de 2018.

 

 

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Jorge Muchagato, 21 de Outubro de 2018

 

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patologia do acaso, diário, 125

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2018, Outubro, 17. Compreendi hoje que tinha saudades dos matizes da luz em Lisboa; que nunca esqueci, mas os julgava em mim perdidos.

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Fotografias: Lisboa, Rua de Santa Apolónia e Largo dos Caminhos de Ferro, portal do Museu Militar [pormenor], 17 de Outubro de 2018

patologia do acaso, diário, 124: O silêncio e a gelosia ou a escrita da história enquanto resistência e a única revolução ainda possível

2018, Outubro, 14. Sob o azul atmosférico dos comprimidos, existe uma gelosia na rocha negra onde o movimento a tempos desigual da lava incandescente me dá por vivo. Nessa passagem constante de lava-sangue, o tempo molda e esquece o meu ser e assim canso-me, mas na verdade não envelheço. Descendo a gelosia, como rasgando a gelada pressão do oceano, não há o medo da fervência do sangue, nem o temor da escuridão, nem a fragilidade limítrofe do corpo. O meu envelhecimento é um pensar, uma obscuridade conquistada, uma ferida que decifra e dá a ver – compreendo que a medida de todas as coisas foi extinta e que é preciso prosseguir para além dessa medida abolida, sendo que a nova medida de todas as coisas pressupõe a invisibilidade do ser enquanto garantia da sua funcionalidade, enquanto tributo para sentir uma felicidade possível. Nada que seja apenas possível, permitido ou tolerado é inteiro e absoluto. O ser é radical, deseja o impossível.
Passamos na Era da Invisibilidade, não existimos nela numa radicalidade inteira, a revolução é impossível pois o seu conceito pereceu no umbral do vazio onde nos entretemos. O fanatismo desconhece o medo e por consequência o instinto de sobrevivência. Resta um derradeiro reduto, uma vez que a linguagem decai: o silêncio e a sua absoluta e lúcida descoincidência. Acreditar que a história se repete é legitimar o engano que nos propõem: é reescrever o passado enchendo-o de um não-acontecido que torça o sentido da verdade. Mas se a verdade pode ser torcida, ela jamais pode ser quebrada; sucede é que são muitos, os ignorantes, os trepadores, os embusteiros que, pobres, nem se apercebem de que o são. A história não se repete, decifra, e por essa razão, propõe ver mais longe. Quem souber ver, vê. É por isto que a escrita da história é, hoje, uma forma radical de resistência; provavelmente a única revolução ainda possível. Depende do silêncio e da gelosia de cada um sobre si mesmo.

 

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Jorge Muchagato, Janeiro de 2015

patologia do acaso, diário, 123

2018, Outubro, 2. Sou um historiador, o discurso multiforme da actualidade interessa-me; mas na sequência desse sentido gregário de ofício, a actualidade afigura-se-me, tal como as livrarias, pouco mais do que obscena, pouco mais do que um denso monturo adentro das muralhas, onde a cidade inteira esgravata para encontrar todos os dias a mesma coisa, para gastar sempre o mesmo tempo, para concluir invariavelmente o mesmo. Então, é preciso procurar saber o que é a realidade, o que é a verdade e que relação existe entre ambas. Não se trata de uma questão de caos ou de ordem; mas de histerismo e de ansiedade histriónica no interior ruidoso, industrial, da maior parte das pessoas, esperando por uma Pandora de qualquer categoria.

Actualidade é o reflexo da luz solar nas folhas das árvores.

patologia do acaso, diário, 122: Os ramos da névoa

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2018, Setembro, 30. Nas árvores, eclodem os ramos da névoa. Nas manhãs dos primeiros dias já é legível a sombra do frio, a noite próxima. Mas, ainda, um derradeiro fogo celeste habitará, esplendoroso, as folhas das árvores antes da sua dança fatal na direcção do íman do mundo. Nada morre; a vida sempre regressa, sempre. A terra é pródiga de verdade. Na ilha de Chipre, do cadáver de um homem, que minutos antes de ser executado comera de um figo uma semente, cresceu uma figueira que lhe denunciou a morte e o nome. Nada morre; mas tudo é acaso. Este acaso da vida geral age por insondáveis razões que não nos são dadas saber; basta sabermos que nada morre. Que nada se perde e tudo se transforma; que nada na Natureza é vão? Sim, todavia, mais. Por nenhuma razão física unicamente, apenas por uma simples razão poética. As árvores estão sós no resumido planalto, esperam, aos meus olhos se transformam consoante a intensidade da luz que as revela e qualifica. As coisas tornaram-se tão iguais na vida comum. Até os gestos, vistos ou pressupostos, carecem de dissemelhança. As palavras vão morrendo porque os seus significados recuam para a obscuridade do ser igual. A cada vez menor densidade legível dos significados coarcta a liberdade. Somos menos livres sem disso nos apercebermos, porque também não o sabemos. A qualidade e a força da decisão e da luta advém do conhecimento. Mas saber parece não ser condição necessária para a felicidade, para a vida. Basta estar ligado, mas… é isso tão pouco, dado que somos linguagem, labirintos férteis de significados, aventurosos de escolhas e de riscos, ou seja, de projecção e de esperança. A liberdade do juízo não cessou, mas o insignificante e o de-significante contaminaram-no, dado que era, pela sua natureza, consequente e, assim, culminava numa responsabilidade de tipo identitário. O gosto é insensível a estes princípios do ser-se, e sendo em extremo volátil, não implica necessariamente um sofrimento moral significativo. Penso que é onde estamos hoje, seduzidos como fomos, e continuamos sendo, para os trilhos onde nos encarreiraram: nesse estado semi-existencial que é, utilizando as palavras de Hannah Arendt sob propósito distinto, o «nível mais baixo de todas as sensações, a do gosto. O nosso vocabulário testemunha de forma significativa essa degradação»*.

*. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro. Oito exercícios sobre o pensamento político, tradução de José Miguel Silva, Lisboa, Relógio d’Água Editores, 2006, p. 67.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 28 de Setembro de 2018.

patologia do acaso, diário, 121: Nem toda a solidão é feita de solidão

2018, Setembro, 20. Nem toda a solidão é feita de solidão. A mais ressequida de todas as formas de solidão é a que se vai transformando na personagem de uma personagem, numa existência construída que é uma das muitas faces do poliedro da soberba. A seiva da solidão – lucidez e pormenor – é a dolorosa crueza de não se encerrar às coisas do mundo. Aquela solidão que não é feita de solidão, é narcísica e ressentida, cederá sem reservas à vanidade que jurou odiar, e descerá à personagem como tantos e esquecidos cenários parados de grandiosas operetas que o tempo desfez. A máscara da sua altura. A nossa equação é com as coisas do mundo e com os outros, e nessa condição, no movimento das qualidades do tempo, a solidão acaba  por ascender à firmeza de uma aferição, não à pobreza de um resultado.

Todas as minhas noites

todas as minhas noites começam aqui,
em pétalas de rosas, no sangue de tudo o que perdi.

salva-me. por esta vez. de novo, de novo.
de novo, raízes da terra que beijo e não amovo.

todas as minhas noites começam aqui
nos espinhos das rosas, no primeiro sangue em que te ouvi.

17 de Setembro de 2018

 

Cansaço (Luís de Macedo / Joaquim Campos), com José Fontes Rocha e Carlos Gonçalves (guitarras), Francisco Perez-Andión (viola) e Joel Pina (viola-baixo), Paris, Olympia, Maio de 1975.