patologia do acaso, diário, 84: «Entre o passado e o futuro»

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Fotografia: Jorge Muchagato, 20 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 20. «Entre o passado e o futuro». O A. seguiu para a escola pelo pedaço restante do carreiro arenoso, e eu alcancei o alcatrão em direcção ao café. É cada vez maior a distância que percorre sozinho até à entrada da escola e isso é bom, a sua cabeça adensa-se e sugere-me a distância devida a essa solidão, sabe que nunca estará sozinho, eu sei que ele sabe, mas está a sedimentar-se mais e a ser construída a estrada que aguarda a decisão dos seus passos.

Tomo o café e enquanto fumo o cigarro sinto a luz e o calor do sol na pele do rosto e das mãos. À medida que descemos em direcção ao leito do mar, a água exerce maior pressão, arrefece e predomina a escuridão; se nos elevarmos, o oxigénio rareia até deixar de existir, o ar arrefece e achamo-nos na escuridão; mas é generosa a Terra e a existência o Bem. Retiro o livro e faço no texto os sublinhados necessários com este lápis que a M.T. me trouxe da Casa-Museu Amália Rodrigues.

Tudo isto adquiriu no meu pensar uma representação bela e boa, fixei a imagem e escrevo, «entre o passado e o futuro»*.

 

*. Entre o Passado e o Futuro, título do livro de Hannah Arendt a que pertence a página fotografada.

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“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 4

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Fotografia: Jorge Muchagato, 19 de Abril de 2018

 

 

4.


O resplendor de ervas selvagens, sólidos malmequeres brancos e amarelos, papoilas de sangue puro e silencioso decifra a luz que regressa ao mundo. As árvores exalam silêncio. Estou dentro de uma linguagem determinada no exterior do mundo comum. Não sei se é importante, ou se vale a pena, a pena de descobrir onde ocorreu o sismo. É certo que o sismo ocorreu, mas não sei se o sismo ocorreu em mim ou se sou eu inteiro o sismo. Depois do sismo não há regresso e tudo o que pereceu não volta, ainda que se cultive a ilusão de construir o mesmo. O sismo é uma morte descoincidente toda feita de silêncio e de equilíbrio; de um estranho equilíbrio vagante traduzido numa forma tranquila de desespero abandonado de tentativas e de gritos, de lágrimas e de dor plausível. A sabedoria da recusa e da terra erma toma o lugar da anuência que paga o código e a legibilidade. É verdade que se adquire o poder terrífico de conseguir decifrar – num universo mental e material densamente povoado de símbolos que são com efeito símbolos e não-símbolos, impera o silêncio mau e o medo anti-criador, o assentimento e a superstição: conseguir decifrar é, de facto, deter um certo poder; mas esse poder carece da sabedoria de o localizar dentro do sismo que ocorreu. A depressão é também uma questão de linguagem. Ser-se só não significa necessariamente estar-se só; significa que se estilhaçou o limite do chapéu e das botas. «Morro com aquele que vai morrer e nasço com aquele que está a nascer, não estou contido entre o meu chapéu e as minhas botas, / E examino os mais variados objectos, nenhum igual ao outro e todos bons, / Boa a Terra e boas as estrelas e bons os seus complementos.» [1] Mas o mundo que resplende em vegetação e flores, senti-lhe hoje o cheiro e o calor. Ao cabo da manhã, a terra exalava silêncio e tudo era bom. Na depressão solar da tarde, lágrimas secas, luz rasante sobre a mesa, queda. Queda, sem explicação; um minúsculo estímulo exterior qualquer e. William Styron abriu o seu escrito sobre a depressão por que passou com o lamento de Job (Jb 3, 25-26): «Todos os meus temores caíram sobre mim / e aquilo que eu temia veio atingir-me. / Não tenho paz nem descanso, / os tormentos impedem-me o repouso.» O pobre Job: «Por fim, Job abriu a boca / e amaldiçoou o dia do seu nascimento. / Tomou a palavra e disse: / “Desapareça o dia em que nasci / e a noite em que foi dito: / ‘Foi concebido um varão!’ / Converta-se esse dia em trevas!» (Jb 3, 1-4). Mas não é inteiramente deste modo, pois na depressão não existem deuses nem tormentos de fora; tudo é dentro, como se fora condição e matéria das veias. «O dia em que nasci moura e pereça, / Não o queira jamais o tempo dar; / Não torne mais ao Mundo, e, se tornar, / Eclipse nesse passo o Sol padeça.» [2] Outro universo, outra linguagem, alguns símbolos comuns. «The walking wounded»: «Na depressão, esta fé na libertação, na recuperação final, está ausente. A dor não dá tréguas e o que torna essa situação intolerável é o prévio conhecimento que não haverá remédio – daí a um dia, a uma hora, a um mês, ou a um minuto. Se houver um vago alívio, sabemos que é apenas temporário; mais dores virão. É bem mais a desesperança do que a dor aquilo que esmaga a alma. Portanto, a tomada quotidiana de decisões não envolve, como nos assuntos normais, o passar de uma situação aborrecida para outra menos aborrecida – ou do mal-estar para o relativo bem-estar – mas o mover-se da dor para a dor. Não se abandona, nem por um só instante, o leito do suplício, antes se vive agarrado a ele aonde quer que se vá. E isto resulta numa experiência espantosa à qual eu chamei, aproveitando a terminologia militar, a situação dos feridos em marcha [the walking wounded], pois em praticamente qualquer outro caso de doença grave, um doente que sentisse dor semelhante estaria estendido na cama, possivelmente sob sedativos e ligado a tubos e cabos de sistemas de manutenção das funções vitais ou, pelo menos, numa postura de repouso e [n]um local isolado. A sua validez seria necessária, inquestionada e honradamente obtida. Contudo, a vítima de depressão não tem essa opção e encontra-se, portanto, tal como uma vítima de guerra, atirada para as situações sociais e familiares mais intoleráveis. Aí, apesar da angústia que lhe devora o cérebro, deve mostrar uma cara semelhante à que se associa com os acontecimentos e a sociabilidade habituais. Deve tentar fazer conversa e responder a perguntas, acenar com a cabeça ou franzir o sobrolho e, Deus lhe valha, até sorrir. Mas é um terrível desafio tentar dizer mesmo poucas palavras simples.» [3] Mas o resplendor de ervas selvagens que me despiu e o odor da terra que me tocou a pele. As árvores exalam silêncio.

*

[1]. Walt Whitman [1819-1892], Canto de Mim Mesmo, edição bilingue, tradução de José Agosstinho Baptista, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 22 e 23.

[2]. Luís de Camões [ca.1524-1580], Lírica, fixação do texto de Ernâni Cidade, ilustrações de Lima de Freitas, s.l., Círculo de Leitores, 1984, p. 244.

[3]. William Styron [1925-2006], Visível escuridão. Memórias da loucura, tradução de Maria Filomena Andrade e Sousa, Venda Nova, Bertrand Editora, 1990, p. 70. [Edição original: Darkness Visible. A memoir of Madness, New York, Random House, 1990.]

*

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro, «Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa,Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. cix v.º [109 verso] – cx v.º [110 verso].

corremos no absoluto destino do nada

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Fotografia: Jorge Muchagato, 18 de Abril de 2018

 

 

corremos no absoluto destino do nada, arbitrário, fremente corcel
que sulca de fogo a terra e de rios a fende, que nos ravina o ar na boca
e a chuva na pele sob o desoriginário deus único, esse deus cego e revel,
guardião incônscio do tempo onde somos numerados, batéis de fraca estopa;

esse deus verdadeiro de ferro feito, sito no antro dos pólos, espera de bisel
e fatal centrípeto que nos aguarda, ausente de forma e face, fora do sentido;
completo nada ardente em cinco mil milhões de anos, nem piedoso nem cruel;
apenas o que é desde o princípio do nada que ao nada conduz o coligido.

corremos no absoluto destino do nada, sob a condição desse deus de fogo
e de falsas gelosias à vez para a verdade e para a mentira; e no seu corpo
abraçando a terra, a história se consumará, e nós, seu esquecido e vão rogo.

é possível não encontrar a noite

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Fotografia: Jorge Muchagato, 2018, Abril

 

 

é possível não encontrar a noite, nem as estrelas, nem o ribeiro,
de canas marginado, onde corre dilacerada a poeira invisível
do cosmos contrário ao simulado verbo do princípio verdadeiro;
mas acontecendo assim, todo o sagrado cairia, por inverosímil,

no cansaço estéril de não ter havido o fogo do acaso, o sol na rama.
na saliva que fundeia a doce ilha da bactérica língua cresce a explicação
e novamente de cansaço e pó silente se adensa a espécie, a lama,
a púrpura ardente que a ferida golpeia aspergindo-lhe a razão…

é possível não encontrar a noite… mas que morte pode assim viver-se,
que rumor de deificação da pele pode de tal ordem pelas mãos beber-se?

Poeira

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Fotografia: Jorge Muchagato, 11 de Abril de 2018

 

 

O Princípio sabe-se a si mesmo e tudo o mais está fora desse saber-se, ignoto. Da poeira do Inúmero chegámos à Razão e descortinamos os paralelos do Tempo, a História. Celebrar os deuses é domar-lhes a divindade, pois entre os homens e os deuses nada mais existe do que uma terra de ninguém feita toda de silêncio eterno.

Primavera

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Fotografia: Jorge Muchagato, 7 de Abril de 2018

 

para Amália

 

Das árvores as rasas sombras esguias
sobre a terra verde parecem correr…
Mas o seu traço mudo, acima dos dias,
no esplendor da luz, grita que hão-de morrer…

Absurda roda sem fortuna nem quimeras
que a metafísica da longa sombra deslizante
destina à repetição eufórica das Primaveras,
no esterroar da noite que se nega na vazante.

Das árvores a sombra a realidade devagar recusa
as pequenas e quebradiças flores na espera
de um vencimento que a vida humana já não usa
e negando a morte, morre a cada Primavera.

patologia do acaso, diário, 83

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Fotografia: Jorge Muchagato, 7 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 7. … mas a realidade, o que é: um erro desoriginado; e a vida, um imenso esforço, um temeroso precipício no gume luminoso do vão a um passo descarnado, sob o simulacro da verdade inútil de uma tomada de perspectiva; um cansaço sem génese nem fim que nos salva da loucura completa. Concedo-me uma falsa suspensão do movimento antes de descer o que falta das escadas e quando alcanço a rua já não encontro a chuva nem a abóbada plúmbea que existiam à chegada. Caminho devagar sobre o passeio calcetado, com algum esforço, o pensar está longo e denso para se acordar com qualquer movimento e o diafragma pesa-me de surda ansiedade, de histeria venosa, de angústia a latejar um sentido de depressão geográfica; precipício sob uma revolta embrutecida a toda a justificação. A sonolência procede de ter levado a cabeça até uma dada fronteira e de me ter profetizado a enlouquecer aí. A explicação desta sonolência que me enevoa o cérebro e confere força de gravidade ao pensamento, que me implode a percepção enquanto caminho pelas ruas da cidade, posso atribuí-la também à metade do tranquilizante que todos os dias tomo de manhã, mas não é a verdade. A indiferença sonolenta que atribui peso às pálpebras, à cabeça enfim, é uma depressão da linguagem, uma descoincidência com a realidade que a um tempo me guarda do mundo e impele a continuar fingindo uma ausência de destino. Passeio pelo parque, fixo a sombra esguia e bela das árvores sobre o relvado e a fragilidade da Primavera que se eleva da terra. Também esses indefesos pontos brancos fixo. Por nenhuma razão que me dê à energia de indagar, o desenho das sombras e os malmequeres pequeninos ainda rasando a terra, são belos. Também a copa das árvores começa a rebentar, mas logo o olhar embate no céu claro. Estou na minha linguagem, longe e sem remédio por novo desespero, porque não é mais possível ver e falar como antes, pois algumas veias foram cauterizadas, algumas feridas que já não amo como antes, e assim o pensar é uma outra coisa, uma realidade descoincidente que decifra de modo implacável, é a única maneira possível, uma tomada de perspectiva mais decidida porque fora de todas as feridas com a excepção da primeira – o vazio, o nada e a destruição, os números crípticos, indecifráveis, do acaso de um espasmo e, depois, da prosseguição no calor amniótico dentro de uma fronteira frágil e dolorosa. Não consigo pensar enquanto olho as lombadas e as capas dos livros, nem creio que descubra alguma frase, alguma palavra, é quase tudo absurdamente vulgar e expectável e, nos raros casos em que não é assim, para quê. Para uma história basta entrar na rede ou sair à rua. É preciso muito mais do que contar, o entretenimento é excedentário e vai cumprindo à medida que a selva se expande. Aqui é imperativo encontrar as devidas aspas para a existência e, por conseguinte – mas a realidade, o que é.

 

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 7 de Abril de 2018

patologia do acaso, diário, 82: O inúmero

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Fotografia: Jorge Muchagato, 6 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 6. O inúmero. No seguro desespero da respiração, não sei explicar-me a chuva nem a cinza que se interpõe entre a a clareira da minha sede de horizontes oscilantes, a espaços vã ou fora de toda a esperança, e a película azul da atmosfera que antecede o frio e a escuridão. O tempo é o vazio, o nada e a destruição, no mesmo inúmero instante existe e não se encontra nem sente ou desfaz-se dentro, em miríades de pontos luminosos num quê perfeito por excesso depois de um fim. Um Bem eterno onde toda a harmonia cabe dentro do mais puro conceito de silêncio, dentro da palavra silêncio. E a Criação regressa depois, na face ao espelho.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 6 de Abril de 2018

somos na prossecução da água

 

somos na prossecução da água e no conhecimento da pele desfazemos
os cristais do véu de sal no movimento da febre de quanto se desorigina
e retorna do sangue inumerável mudado em clara génese nesta indagação salina
do suor nos lábios, do segredo na língua, da sede nas mãos. e absolvemos

os deuses inertes das estradas feitas. é bem verdade que mortos nos sabemos
nessa viva, translúcida e violenta primícia líquida; que ao espasmo sucede a ravina
da inteira e humana transfiguração da carne e do ser-se, mas acertamos a bolina
à recomposição do sal, à confiante indefensão do sono e cremos. e cremos.

somos na prossecução da água, revogamos as horas na respiração que germina
dos sexos, das salivas e das secreções, dos abraços e do calor das faces concordantes. e cremos.

patologia do acaso, diário, 81: As qualidades do silêncio e o desejo de viver

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Jorge Muchagato, Diário gráfico, escrita com aparo, «vieux-chêne», colagem, 2010.

 

 

2018, Abril, 3. As qualidades do silêncio e o desejo de viver. A nossa primeira realidade é o silêncio e a escuridão; o mundo o oceano materno, o cosmos a placenta. Aporta a respiração da pele, chegam os primeiros sons difusos, a primeira lógica sonora, as palavras. Depois estamos, principiamos a existir nos Elementos, a desbravar a consciência. À realidade do silêncio no novo cosmos acresce a película do silêncio enquanto circunstância. Essa película transforma-se lentamente em terra, num tempo por sedimentação, noutro tempo por assoreamento, algumas vezes por ambos os processos. Essa terra é de uma fertilidade infindável: barro, semeadura, pousio, recomeço. O silêncio é então matéria e a linguagem indestrutível, pois ambos se conquistam num processo de acasos, de caos e de ordem que é o tempo doado. Então o silêncio da Natureza coincide com o nosso e somos obrigados ao acaso injustificado que nos exige o sentido individual. Essa coincidência entre o silêncio sanguíneo e o silêncio natural é o desejo de viver.