patologia do acaso, diário, 113

2018, Agosto, 18. Existe um relevo secreto, suave ou anguloso, esplendoroso e vivo como a pele ou áspero e morto como a ferrugem, de natureza indomável e de caos sentido, no som da palavra falada, e não estamos defesos dessa nudez; é por isso preferível, com frequência, o silêncio, não pela nudez, mas pela sua invisibilidade na linguagem em que não se coincide.

( A vida é um processo estratigráfico de sofrimento e aquilo a que chamamos felicidade é a rocha mais alta do imponderado movimento da lava vulcânica. )

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patologia do acaso, diário, 112

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2018, Agosto, 10. Esqueço-me de colocar pedaços de pão sobre o murete da varanda. Há pouco, um pássaro pousou à beira da janela aberta, durante uns segundos, mirou o interior onde escrevo e logo voou e se confundiu com a luz do sol.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 10 de Agosto de 2018

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão

DESENHO 011

 

6.
Não há um verso nem uma barca que ressaltem de todo aquele ouro convencional e anacrónico

 

O cansaço funde-se com o ritmo da respiração ou a desvitalização do cansaço e o harpejo da respiração tornam-se numa coisa só e uma névoa venenosa de inação desce, informe, lenta, clara e bela, pela laringe e pela traqueia, uma névoa enganosa de amanhecimento que não vem desafiar a escuridão, mas torná-la ainda mais espessa na mesma infinidade do movimento da respiração. «Luta, filho», diz-me ao telefone, e eu quero e eu faço, todavia, parece-me colossal, primeiro a descoincidência irrecuperável da linguagem e depois as coisas da realidade, e por fim a falta de meios e, ainda mais por fim, o silêncio e a indiferença seguros e privilegiados que aguardam a minha queda ou a julgam apenas uma questão de tempo. Entre mim e esse silêncio indiferente existe uma vida incompatível: não há um verso nem uma barca que ressaltem de todo aquele ouro convencional e anacrónico. Penso nisso em algumas ocasiões – numas agrava-se o desespero por antecipar a derrota da batalha, noutras confere-me a esperança de vencer a guerra. A última pena, no extremo da asa que toca, plena de doçura, a pele da minha face. Fecho por instantes os olhos, sinto nos lábios secos a distensão mínima, o esboço, de um sorriso. São as minhas batalhas vitais no campo de despojos do cansaço varrido pela obscuridade quando o crepúsculo já venceu e não é passível de ser juramentado o regresso do dia. Porque se persiste em face da derrota que se afigura iminente? Pelo verso que vence o ouro convencional e anacrónico. E quem te assegura que a face que vês é a da derrota? Quem ta confirma iminente? Pensa que te rodeia o acusador, o consequente silêncio indiferente de desprezares o ouro e os anéis e correres à procura de um verso, de uma palavra, por escavar com os dedos.

7 de Agosto de 2018

 

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro«Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa,Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. cix v.º [109 verso] – cx v.º [110 verso].

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Caderno de apontamentos, 1991

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 5

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5.

 

A noite tornou-se-me insuportável, eu que tanto amo o seu silêncio e um único prazer tinha em escrever enquanto bebia, devagar, uma taça de vinho, e sentia a libertação das ideias e das palavras da profunda tristeza e do cansaço sanguíneo que vulgarmente as remetia para o pó indefeso do desinteresse. Havia uma forma de vitória em escrever durante a noite, uma vitória sobre a velha companhia suicidária, uma vitória sobre os estados psíquicos e as obrigações do dia. A noite era-me a liberdade que redimia a inevitabilidade do dia; a morte possível e um limite criador, em suma. Essa liberdade da noite mudou-se num sofrimento atroz, pois foi contaminada pelo desespero do dia e o silêncio foi-se transformando num vazio puro e terrível para o qual apenas se afigura a resposta de uma saída. Esse gosto quase mágico da escrita e da degustação do vinho desapareceu de repente. E assim um instinto de sobrevivência reorganizou o cabo dos meus dias dado que se formou em mim um medo pânico de me aproximar da enorme ravina. Janto muito cedo, tomo um tranquilizante antes e depois da refeição e deito-me ainda sol pleno. Ao princípio, isto é, durante primeira semana, esta fuga da noite pareceu-me uma deslumbrante vitória disciplinadora, pois retomava muito cedo, na manhã, o imenso trabalho que agora me ocupa. Convenci-me disso mas, ao contrário do que escrevi no diário, é muito provável que, afinal, eu não tenha esquecido algures em mim as coordenadas geográficas da fronteira que ergui às agressões da realidade – só a loucura consegue construir tais muros e não sabe que os constrói, tijolo a tijolo. Ora, sucede que eu não estou louco e, por conseguinte, estou encharcado de realidade, não posso sair da realidade, não posso matar a realidade; posso defender-me o necessário para continuar vivendo. Nada disto, que agora penso, eu vejo ou é visto. O instinto de sobrevivência revelou-me o sono como atenuante para a dor psíquica e o cansaço físico, assim como para o veneno da impotência face aos dias que decorrem, face às coisas que ainda não consigo mudar. Em certos dias, se permanecer acordado, tenho medo de um lapso da razão, tudo em mim, pensamento e corpo, é um pânico umas vezes lentou outras vezes vertiginoso e é, neste termos, impossível encontrar um objecto de interesse no qual a minha atenção se foque; esse objecto é inevitavelmente o trabalho; poderia pensar em pintar ou desenhar, mas fico submerso numa culpa terrível por desviar assim o tempo. Tenho pensado em voltar a pintar ou desenhar, mas esta monstruosidade da culpa não mo permite e tenho, para além de tudo isto, que voltar a empacotar milhares de livros, o meu único bem, até ao final do mês. Não, deitar-me desta maneira tão cedo não correspondia a disciplina mas a medo, a terror, à única forma de sobrevivência a que podia recorrer. Depois, nem os dias. Em certos dias é-me tão doloroso estar acordado que os comprimidos se sucedem para que durma até ao final da tarde, jante tome mais comprimidos e regresse ao sono. Não choro, é raro, e tenho pesadelos. Vejo-me bem ataviado, com luxo, num trajo do século XVIII, a caminhar pelo meu pé para a guilhotina, mas em nenhum dos sonhos assisti à minha execução, ao voo direito da lâmina. De outros pesadelos lembro resquícios ou partes consideráveis quando acordo e alguns minutos depois, mas esqueço. Admira-me que consiga agora escrever, não sei a que corresponde, não sei o que significa. Quando me acho numa tranquilidade elementar para conseguir escrever, sei que não alcancei nada, é apenas um intervalo de insensibilidade no terror e no pânico. Hoje dormi doze horas, tomei o pequeno almoço, o café, fumei o primeiro cigarro, mas não consegui, deitei-me de novo e dormi mais cerca de duas horas. Antes de começar a escrever tomei outro tranquilizante. Nada do que escrevo é visível aos outros, difícil para mim de saber, mas é um cansaço imenso que nunca, absolutamente nunca, cessa. E o único instante, primeiro, o único momento, depois, em que se torna visível, já não é possível, já tudo acabou.

5 de Agosto de 2017, manhã

 

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro, «Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa,Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. cix v.º [109 verso] – cx v.º [110 verso].

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Caldas da Rainha, Casa da Cultura, Parque D. Carlos I, 15 de Junho de 2018

 

patologia do acaso, diário, 111: A fronteira

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2018, Agosto, 3. A fronteira. No relâmpago de um momento, a noite tornou-se-me insuportável, não alcanço, não descortino, na minha geografia descendente, onde ficou estabelecida a marca da fronteira com a agressão da realidade. Mas sei que ficou estabelecida algures numa depressão terrosa que foi transposta na força do meu devir único. Mas não encontrar agora o lugar dessa fronteira não equivale, em termos absolutos, a estar perdido. Nunca me encontrei como agora. Tomo o tranquilizante antes do jantar, que fica cada vez mais cedo, e depois mais uma metade para adormecer antes de ser noite. Ou, então, também é possível que nunca antes me tenha desencontrado como agora e por isso não aguente a noite e por isso me encontre na direcção do despojamento completo, preso apenas a este trabalho a que dedico toda a minha energia, com excepção destes escritos. São precisos muitos anos para construir uma fronteira com a realidade. Talvez não esteja longe da verdade se concluir pela minha vida inteira. Entretanto, a idade vai tornando cada vez mais instável o equilíbrio possível entre as imposições e as cedências à realidade; ou vai adquirindo cada vez mais plausibilidade o abandono radical desse equilíbrio no sentido da liberdade enquanto desinteresse de tudo, enquanto abandono completo ao mais lúcido e real despojamento possível. E entrar dentro do silêncio. Se a fronteira com a realidade ficou assinalada num algures do esquecimento, a existência já está no interior do silêncio. Gostos que se perderam, expectativas que se destruíram, impossíveis de exigências demasiado indignas que não se está disposto a pagar, um vazio ante-final para mais uma ou outra realização e depois então a descida ao despojamento completo. Existir dentro do silêncio significa a descoincidência conceptual absoluta da linguagem. E deste lugar já não se vê a fronteira ainda que subamos ao topo, ou apenas nos ponhamos, de pé, em cima de um banco, como na infância. Neste lugar estão profundamente esquecidas as coordenadas da fronteira.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Caldas da Rainha, Casa da Cultura, Parque D. Carlos I, 15 de Junho de 2018

Nós, os Portugueses: “Mísera sorte! Estranha condição!”

A nossa maior tristeza, a mais vera e enraizada tristeza enquanto pátria «que está metida / No gosto da cubiça & na rudeza / Dhũa austèra, apagada & vil tristeza»; a nossa mais espinhosa dor, que a um longínquo e à força esquecido requiem nos soa, hoje, enquanto povo perante a sua história feita, é termos de reconhecer a razão ao tão censurado e vilipendiado Velho do Restelo – saímos pobres e vencidos, por culpas próprias e tão parco saber, dos dois paraísos de cobiça e fama que julgávamos, pueris, todavia espertos, não terem no seu reverso os nossos defeitos, como se tudo fosse ouro sem suor: o Império e a União Europeia. E ontem como hoje, povo, «Chamante Fama, & Gloria soberana, / Nomes com que se o pouo nescio engana.» «Misera sorte! Estranha condição!»

 

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Citações: Luís de Camões, Os Lusíadas, Lisboa, em casa de Antonio Gõçalues Impressor, 1572, respectivamente: Canto X, p. 184 v.º e Canto IV, p. 79. Edição disponível para consulta na  Biblioteca Nacional Digital .

patologia do acaso, diário, 110

01_Brueghel

 

2018, Julho, 31. Somos frágeis, o acaso de um gesto irreflectido e rasgamos a pele, vertemos sangue, mas não estamos nesse pensar; são frágeis os andaimes da realidade sobre o impensável da Natureza, mas não estamos nesse olhar, ainda que choremos. Viver rodeados de fragilidade num contraste com a potência de cada dia – é essa a força de toda a existência e o poder da sua realização. E se a rotação dos dias e das noites vai diminuindo o devir da existência, a arte da nossa fragilidade amplia-o.

 

08_Brueghel

 

Imagens: Peter Brueghel, o Velho [1526/1530-1569], A Torre de Babel, óleo sobre madeira, 1140 mm. x 1550 mm., 1563. Áustria, Viena, Kunsthistorisches Museum. Fotografias: commons.wikipedia.org

patologia do acaso, diário, 109: Barbárie

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2018, Julho, 29. Barbárie. A cidade é a doença; o silêncio na cidade, quando um pouco se verifica, é vazio e nauseante, a naturalidade da sua existência é falsa. O silêncio na cidade é fúnebre, é um simulacro de ausência, um estar de mortos que não estão mortos e que na voragem de um qualquer instante se decidem pela violência de existir como se estivessem sozinhos no mundo. A cidade é uma selva de patologias humanas recalcadas que afloram em pequenos gestos bárbaros tidos como a consequência natural de uma certa necessidade, de um dado movimento. A cidade disciplina por uma violência invisível que não pode ser contida. Não há sossego na cidade, apenas intervalos de uma loucura tida como aceitável e confundida com a imperfeição natural do ser. O silêncio urbano é estéril, nada dele floresce, a todo o momento pode ceifá-lo a agressão dos ruídos da selvajaria individual de portas fechadas com violência, de estores soltos num barulho que ecoa por todo o quarteirão, do ladrar dos cães fechados em varandas. Não existe Natureza na cidade; um parque torna a vida urbana um pouco tolerável, mas é mentira, depois vem o regresso às celas de onde não se consegue vislumbrar o céu, nem sombra de árvores, e as únicas aves que aparecem são bandos de gaivotas, com os seus guinchos tenebrosos, porque os contentores do lixo ficam abertos. A cidade é um instrumento do Poder e essa dialéctica disciplinante e manipuladora está interiorizada na existência urbana. Tornada a pessoa invisível, reduzida a número, a consumidor compulsivo, enfim a objecto orgânico destituído de segredos de vontade, a liberdade mudou-se numa anarquia na expressão e por fim a expressão perdeu o veio do sentido; tornado tudo como expressão, toda a linguagem se mudou em insignificante e tornou-se possível dizer o que não é plausível de ser dito, fazer-se o que não é admissível de ser feito. Tudo é expressão da liberdade de afirmação do ser-se desde a infância, sobretudo na infância, porque a primeira educação se transformou na causa de todos os traumas futuros. A cidade transforma-se, então, numa nova forma de barbárie; numa barbárie bem vestida e mal educada. A civilização decompõe-se nos seus bastidores enquanto se dança em redor da fogueira. A verdade mais relevante desta nova forma de barbárie é a de não sabermos onde estamos, dado que ainda conseguimos escrever o nosso nome, numa caligrafia quase indecifrável, mas ainda sabemos.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Fevereiro de 2018

patologia do acaso, diário, 108

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2018, Julho, 25. Tenho recusado a noite, na maior parte dos dias tomo o tranquilizante e vou dormir bastante cedo. Ainda não sei, com fundamento suficiente, o significado desta desesperança pela noite. Como poderei saber, se nem a razão de prosseguir, aqui, eu vislumbro. Há perdas que ocorrem e de que não damos conta quando acontecem; a sombra de uma certa perda vai aumentando e de súbito, por um motivo, por um estímulo de qualquer ordem, olhamos no sentido de ver e damos, confusos e surpreendidos, pela enorme geografia dessa sombra. Já a sabíamos – é tarde. Ao princípio, quando realmente nos apercebemos, julgamos que o silêncio tem a forma de um cerco; depois, o medo torna-se ineficaz; por fim, a consciência única da linguagem consuma a impossibilidade do retorno. Na verdade, também não demos conta da soma sucessiva da distância – é tarde, de novo. Então o cerco fica para trás, esmaecido; o silêncio, o medo e a linguagem incorporaram-se na mecânica da respiração. Não é tarde, é um novo lugar do ser que durante muito tempo foi sendo desbravado nos bastidores da peça que decorre; nos bastidores onde está a acção verdadeira que num momento indistinto da peça a deporá. Em todo o caso, trata-se de uma sucessão de perdas, descemos à verdade de perda em perda. Nada disto interessa; são coisas de mim para mim; recusada como está a noite, estas coisas abandonarão também a insuportável fraqueza de serem escritas.

Fotografia: Jorge Muchagato, 28 de Abril de 2018

Invisível, indizível e narrativa ou “Nem a todo o homem é dado ir a Corinto”

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«Os grandes feitos, exibir os inimigos capturados aos cidadãos,
eis o que nos aproxima do trono de Júpiter, nos faz tentar os céus:
não é contudo a última das honras agradar aos próceres.
“Nem a todo o homem é dado ir a Corinto.”
Ficou sentado, porém, o que temeu falhar. “Muito bem,
mas quem obteve sucesso, fê-lo como um homem?” É aqui,
e a nenhum lado mais, que queremos chegar. Um teme um peso
demasiado grande para espíritos pequenos e corpos pequenos,
outro o põe às costas e o leva. Ou a virtude é palavra vã,
ou o homem que se põe à prova procura com justeza glória e recompensa.»

Horácio [Quintus Horatius Flaccus] [65-8 a.C.], Epístolas, introdução, tradução e notas de Pedro Braga Falcão, Lisboa, Livros Cotovia / Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2017, Livro I, XVII, 33-42, p. 111.

 

O ofício do historiador é meticuloso e a narrativa que, por fim, elabora, deve ser medida palavra a palavra. Cada palavra é uma carta de significados numa geografia temporal e mental de conceitos. O realizado procede de uma equação entre o idealizado, o pensado e o possível segundo as circunstâncias e o acaso. Tudo procede de uma dada miscelânea de invisível e de indizível. Há o que se idealiza e o inerente desejo de realização, o que efectivamente se realiza e se deseja que seja lido numa determinada ordem funcional de interpretação e de conclusão moral ou política para registo no tempo presente e futuro e, por fim, o que outra ordem de pensamento procura, na distância e na fratura temporal e mental de um outra contemporaneidade; saber o que de facto aconteceu tendo por interposição os resultados direccionados ou aleatórios da realidade intermédia que entretanto existiu, e se consumou em marcas. Marcos miliários de um percurso a ser reconstruído. Nunca se transpõe a condição de uma aproximação à verdade, pois a verdade histórica é numenicamente inapreensível em termos absolutos, dado que está dependente de uma selecção intencional ou casuística dos vestígios. Na escrita da história, o continente do pensado está cercado pelo oceano do possível; não se perder um historiador nesta imensidão, é procurar e estabelecer as rotas que se lhe afigurem mais verosímeis segundo uma lógica invisível, mas passível de alguma decifração. Não se perder um historiador nesta imensidão é procurar e estabelecer as rotas que se lhe afigurem mais verosímeis segundo uma lógica invisível mas passível de alguma decifração. Alcançar no tempo uma proximidade assinalável à verdade do que “de facto” aconteceu, devendo compreender a pressuposição do que, em muitos casos, deveria ter acontecido mas não chegou a acontecer, ou aconteceu apenas numa ou em várias parcelas que acabaram por não constituir o todo resultante desejável, tem quase tanto de imaginação plausível quanto de árdua metodologia. «Nem a todo o homem é dado ir a Corinto».

Fotografia: Jorge Muchagato, Abril de 2018