anamnese

absoluto algum a terra exala ou dos matizes do céu descende.
o granito imóvel da manhã e da noite a fala púrpura do erro.
não compreendo a sombra a esta escala, respiro um desterro.
no movimento de levar o cigarro aos lábios, a escuridão fende
os longos relapsos certos do dia, a espera disforme que não vende
a verdade nem o tempo nem a memória a troco da gala do ferro.
e porque eu não sei polir nem desfalar a minha fala, guardo o erro,
a obscuridade da anamnese, a praia que a minha pena chora, acende.

 

 

 

Cópia de 15-01-2011 034a
Fotografia: Jorge Muchagato, Estoril, Fevereiro de 2011
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desenho

All-focus

 

 

um longo tronco de risco irregular desenhado a negro da china contra o céu.
(saturada elipse escorrente sobre os nocturnos pormenores acesos da cidade.)
e depois, ínfimos, lentos, caudais de ramo-rio, irregulares de acaso,
dessa tinta negra soprados de morte,
tocam o vértice do canavial bravio que desafia o veneno quando arde
no movimento do esplendor solar para a contraluz, fora de tudo.

 

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Lisboa, 8 de Março de 2019

tarde

é tarde. as raízes dos pinheiros
torcidos pelo vento de naufrágios
e afogados,
crescem nas últimas areias da praia.
à vista, tudo é silêncio e tarde.
promontório, ondas e névoa.
uma ceifa de palavras tardias.

madrugada de 9 de Março de 2019

 

 

Julho 049
Fotografia: Jorge Muchagato, Julho de 2014

Tempo

All-focus

 

Tão diversos e imperscrutáveis tempos se perderam para o tempo que foi escrito. Tanta existência vencida para a história que, escrita, venceu. Nada realmente se compreende sem o tempo que lhe for necessário. Por motivo da morte, o tempo tem uma razão. «De tudo quanto gastamos, o mais caro é o tempo», escreveu Antifone, no século V antes da era cristã*. E com frequência verificamos, na escrita da história, que fazemos erradas as contas do tempo e, portanto, as do existente, pois também o que somos hoje é aí. Séneca abriu as suas cartas a Lucílio dizendo-lhe: «Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte! […] Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. […] mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir.»** O primeiro objecto do método, que define a sua qualidade e a sua natureza, é o tempo e a predisposição para as suas idades, antigas e actuais. Na escrita da história, os fundamentos culturais, a cultura enfim, define o método pois ao historiador se exige que tenha sobre as coisas um olhar filosófico. Ninguém lhe fornecerá os princípios desse olhar filosófico, ele próprio os esculpirá, ele mesmo os contruirá a partir de si. Eis uma das razões porque se tornou necessário enclausurar a história na lógica das ciências físicas e naturais. Que vá respirando, é o que se decreta. Mas não é o necessário, nem o exigível – temos essa obrigação.

 

«Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens.
às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço
faz nascer outras, quando sobrevém a estação da primavera:
assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.»
– Homero, Ilíada, VI, 146-149, tradução de Frederico Lourenço, 4.ª edição, Lisboa, Livros Cotovia, 2015, p. 136

 

* Hélade. Antologia da Cultura Grega, organização e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, 10.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 2009, Antifonte, Atenas, século V a.C., (frg. 77 Diels-Kranz), p. 293.

** Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, Livro I, Carta 1, 2-3, tradução, prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 1-2.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Lisboa, 7 de Março de 2019

“e eu mal auenturado mourome andando assi ante cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 7

7

Aumentei a dosagem do tranquilizante da manhã para mais meio comprimido. Na maior parte das manhãs acordo exaltado por um pânico interior que me inunda a mente de confusão, acelera a respiração e não dá destino aos meus gestos. Consigo preparar o pequeno-almoço, bebo o café e fumo o primeiro cigarro. Tomo a medicação, entre a qual o tranquilizante. Mas não acordo tranquilo para o dia, sereno, quero dizer, com um ainda que ínfimo sentimento de equilíbrio e de potência que deveria existir na parcela de tempo em que do sono recobramos o entendimento e a consciência clara dos sentidos para o pensamento e a acção. A dor psíquica é semelhante à fome, a partir de uma dada fronteira já não se sente, já não se luta, espera-se, espera-se e não se sabe o quê, porque a morte é sempre uma distância terrível. As qualidades da dor psíquica agravam-se com o envelhecimento, uma vez que o discernimento das coisas todos os dias se amplia. E assim a descoincidência da dor, e a própria dor, suponho, ou pelo menos assim o entendo, transforma-se numa linguagem. É possível que algum dia consiga falar com a minha dor dentro do silêncio do discernimento. Tenho medo de envelhecer, admito essa verdade, porque o corpo cede, e o juízo alonga-se do mundo. Ora, o mundo é movimento constante, transformação, avanço e recuo, tradição e inovação. E vão existindo cada vez mais coisas, de maior ou de menor importância, que carecem, pela sua agressividade disfarçada de novidade, que nos alonguemos delas, porque se vislumbram, sem acentuada dúvida, as mais diversas formas de manipulação a que a maior parte abre os braços como a uma dádiva da vida contemporânea, e são apenas lixo das mais diferentes naturezas. O estigma claro que existe em relação às doenças mentais é um sinal da invisibilidade em que se induz a vida. Porque, ao contrário do que possa julgar-se, tornámo-nos invisíveis, por meio do excesso, da saturação e da rapidez. O estigma associado às doenças do foro mental reflecte esta complexidade e outra da maior importância: a relação de uma sociedade com a memória – a memória quotidiana, a memória de grupo, a memória colectiva. Então há que destruir a força estruturadora da história, fazer definhar o seu ensino, menorizar a potencialidade dos seus métodos, “falar” para todos para que não se “fale” para nenhum. O envelhecimento é isto o que nos traz: a necessidade imperiosa de nos alongarmos do mundo presente e activo nos ecrãs. E compreendermos, por fim, que apesar dos mesmos vocábulos se deixou de falar a mesma linguagem. Não se está nos ecrãs, está-se doente. E é assim que me apareço ao espelho que existe no ascensor do prédio quando me acontece olhá-lo por alguns segundos. Então faço um esforço por conseguir concluir que não estou doente, mas um pouco mais lúcido hoje do que ontem.

5 de Março de 2019

 

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Jorge Muchagato, sem título, colagem e acrílico, dos diários gráficos, 2010

 

*

Citação no título: Bernardim Ribeiro,«Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução fac-similada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. Cix.

sofrer a passagem da claridade

hoje acordei à meia-noite, quando o veneno da gravidade sanguínea
e o seu cansaço próprio cessaram sobre os tecidos do cérebro e do coração.
comi pão e bebi um copo octogonal de vinho. eu sei que tenho a pele ígnea
da sedução da morte; e tanto o sei que me canso para não lhe largar o fogo
e concedo ao corpo a ânsia artificial do peso do sono – sofrer a passagem da claridade,
quebrar com as mãos sobre o rosto, sobre os olhos fechados, o parir do dia.

e encontrei no meu corpo, ao modo dos pestíferos de antanho, as crateras da lua.
todavia, ao contrário, à semelhança do negativo da película, não tive medo.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Lisboa, 2 de Março de 2019

patologia do acaso, diário, 137: Escrever, sobreviver

2019, Março, 2. Tenho dado conta da fronteira da luz que avança pelos dias, entardecendo a noite, mas nada, no movimento da minha respiração, na visibilidade das coisas e do mundo, tenho, eu só, o que a saúde e acolha. A ordem natural do Universo é assim, a realidade como se pense. Prefiro a escuridão enquanto trabalho, das cinco horas da tarde às dez horas da noite; assim, enquanto ali estou, na sucessão de números telefónicos destinados a preencher os dados das sondagens, nada de fora me chama ou diz seja o que for. Do cubículo onde estou, nunca olho para as janelas, tudo é noite. E nada mais consigo saber, nessas horas, a não ser que tudo é noite e que talvez por tudo ser noite, tudo seja inexistente, desprovido de ser e resumido a estar. A noite de centenas de pessoas com a indiferença indolor desenhada de forma única na carne do rosto. Mas pode suceder que eu ainda não esteja habituado a um quotidiano súbito e incontornável. Depois, na rua, o vento frio da noite na face consola-me, liberta-me. Caminho devagar até casa e a frequência do trânsito, já diminuta, o seu ruído atenuado, faz-me sentir da cidade a sua violência e o seu veneno, a doença que o sono ignora, mas nunca abandona o intelecto. Ontem, foi dia de folga, apenas um amargo passeio no pátio, um pesadelo que os tranquilizantes seguraram e adormeceram. Foi o meu primeiro dia de folga. Comi duas maçãs e fui deitar-me muito cedo. Sentia-me cansado, adormecei rapidamente. Hoje acordei cedo, mas apesar das horas de sono, o cansaço fez-me adormecer depois de tomado o pequeno almoço, no pequeno sofá da sala. Quase tudo chegou tarde à minha vida, só um acontecimento na hora precisa. É esse único acontecimento que me salva de ser um erro inteiro; que me salva, e é tudo.
Quando de novo acordei, ao final da manhã, saí para cigarros e algumas coisas do supermercado. Tomei o tranquilizante do almoço antes da refeição, bebo café, escrevo. Conseguir esta clareira de escrita é bom. É um feito de sobrevivência; com o tempo – tanta coisa esperamos do tempo! – talvez consiga, nestas horas que o cansaço me permite e o entendimento me acicata, prosseguir sem angústias de vária ordem o trabalho que me ocupa há vários anos. Nada do que escrevi tem importância e é vulgar, apenas o conseguir escrever, um tímido sinal de sobrevivência que represo com quanta força tenho, em razão do acontecimento que me salva de ser um erro inteiro, que me resgata de um antigo fascínio do fim.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Lisboa, 24 de Fevereiro de 2019

a linha do mar na areia, dentro do sono

 

 

todo o existente é o ser absoluto de si, elevado ao nada, a fronteira
ineludível do óxido. não receio a descoincidência da razão – perdi-lhe o terror,
a dúvida e a pena. ninguém sabe. a bruma densa que antecede a madrugada e o deus sol
de nada darão conta, na semelhança inerte de todas as manhãs sobre a praia.

todo o existente é uma certeza histriónica na busca das fissuras da casa. não,
não há, nunca houve uma casa.                                                                 só a terra,
as ervas, os cardos selvagens que ensanguentei e a beira de um caminho na ideia,
sem fim nem circunstâncias. até à linha do mar na areia, dentro do sono.

 

 

peito aberto. cicatriz

escalo em silêncio sísifo
a montanha de pedras redondas e de seixos do mar
que é na minha laringe a respiração da manhã –
uma tormenta de mudez.
e no sopé da noite, a praia e o cometimento
desejado de um naufrágio lento,
sozinho e longínquo, dentro
do sono.

não é por esse naufrágio que eu sofro e choro,
mas pelos gritos.

e assim me prometo, indolor e sísifo.
peito aberto.
cicatriz.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Lisboa, 21 de Fevereiro de 2019