patologia do acaso, diário, 127: Não é bom que sejamos livres, é bom que sejamos conformes

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2018, Dezembro, 7. Sermos vistos não é o bastante para a visibilidade consequente de existirmos. A vida é desejo, e assim, fazer viver para além de. Lutar, sangrar. Sermos vistos não é bastante; quando não se resume a simplesmente não sermos vistos. Existir é um feito notável: trabalhos e dias erguendo a liberdade. Não é bom que sejamos livres, é bom que sejamos conformes. O nosso tempo – vivemos numa longa Era da Invisibilidade cujo objectivo material e ideológico é uma espécie de apocalipse social anti-histórico, um novo tempo desprovido de tudo o que é o tempo; uma nova ordem fundamentada no totalitarismo da engenharia genética. O futuro é a genética, não a política e muito menos a cultura. A economia é insignificante, se fosse um detalhe seria demasiado importante. O fascismo não regressará, apesar dos incautos profetas da repetição da história. É necessário compreender que a história não se repete e retirar desse entendimento a devida consequência em termos de sistema de pensamento. O problema já não é político, mas social. A nossa invisibilidade é já o resultado de totalitarismos instalados. Dos interstícios respiráveis do quotidiano entendido como antes assim que pior, consegue, assim se queira, vislumbrar o que nos é roubado, de facto ou por omissão. Quanto à metodologia e à epistemologia desse esbulho é dada como segura a nossa incapacidade de decifração. O que se move entre nós, sugando o ar respirável dos interstícios do quotidiano, são formas pequenas, mas terrivelmente eficazes, de totalitarismo. Não é por estar disponível mais informação que sabemos mais. O óleo do sistema é mais informação e menos saber. Uma ilusão instituída, em suma. A violência, então, não apenas se torna legítima como é a única resposta ao paraíso de sermos conformes. Todavia, a revolução não é mais possível, o seu paradigma passou, foi aniquilado pela instalação tranquila dos diversos totalitarismos que paradoxalmente pagamos para não sentirmos a cabeça e para nos sabermos protegidos. Nada mais pagamos do que a repetição indefinida depois do jantar. A sociedade actual apodrece lentamente para que o novo totalitarismo genético seja possível. Nada significamos, pouco somos. A Era da Invisibilidade que atravessamos é uma crise civilizacional assente na diluição das forças naturais de cada nova geração cujo conflito com o sistema instituído faz avançar o conhecimento, proporciona a renovação dos conceitos e dos paradigmas culturais. É necessário que nos desconheçamos e tudo em nosso redor no-lo induz enquanto coisa natural. As pessoas começam a desconhecer-se a si mesmas pela linguagem.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Lisboa, Novembro de 2018.

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Cartas, R.V. Um ensaio

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[ sexta carta ]

Novembro, 26.
O meu filho toca o Nocturno opus 9, número 2 de Chopin, numa gravação que ele mesmo fez e a mãe me enviou pela rede. Ouço-o, enquanto procuro as primeiras palavras para o que tenciono escrever-lhe e não pode ser escrito numa outra forma que não seja esta, porque me é inconcebível, o que pretendo e preciso de escrever, abandonar ao acaso do tempo, à alienação do infindo, à morte sem face nem pintura do natural. Nada conseguiria escrever que fosse de outra forma que não a de carta. Um dia, há muitos anos, pedi ao meu pai que plantasse uma videira, pois tinha o desejo que da terra subisse uma latada e toda a frontaria da casa fosse por ela abençoada nos reflexos do sol. Essa latada não chegou a ser erguida e entrançada, mas o meu pai plantou a videira e a videira ainda dá uvas. Podou-a, ao longo desses muitos anos em que a viu frutificar. Tudo passa. Santo Agostinho, nas suas Confissões, enunciou a teoria de um triplo presente, o presente do passado, o presente do futuro e o presente do presente. Eu, você sabe, não me perco em crença de deuses e isso complica-me. Escrever, quero dizer; e o tempo. O dia 12 de Novembro calhou, há um ano, em um domingo, o meu pai agonizava, sem dar acordo de si, respirando com dificuldade, o ar suspenso, o tórax quieto durante alguns segundos. Não conseguia comer nem beber. Para mim, foi uma vida inteira naquelas duas semanas, e depois tudo sossegou, tudo desabou no vazio do passar, da imperfeição e do perdão. O meu pai construiu uma casa, aquela em que vivíamos. A meio da tarde desse domingo encontrámo-nos perdidos, sem saber, de qualquer modo, o que fazer, ou o que deveria ser feito. Vieram os para-médicos, fizeram a reanimação; não compreendo os termos técnicos. Deitado na maca, enquanto aguardava a entrada para a consulta, já consciente, falou, sorriu de leve. Lembro o seu rosto ao ínfimo dos pormenores, nessa ocasião e depois, no ataúde, no último beijo para a Boa viagem adiante da face gelada. Pai. Sou eu, agora, que fico no cais a acenar para o meu filho, no autocarro. Sorriu um pouco, não lhe senti nem vi medo. Algumas vezes, à noite, antes de adormecer, confuso, palavras desligadas, delirando a intervalos breves com gestos para o seu visível. Eu sentia a ronda ondulada da morte na obscuridade do quarto, mas não tinha medo, segurava a mão do meu pai, chamava-o, aproximava a minha cabeça da sua para me certificar da respiração. Por fim, ia dormir e esperava. Disseram-nos, à minha mãe, ao meu sobrinho e a mim, que ficaria internado pelo menos até ao dia seguinte. Foi a última vez que vi o meu pai com vida, tranquilo, creio, pelo regresso da consciência, a sorrir um pouco, sem lhe ver nem sentir medo. Os pormenores de quanto já lhe contei guardo agora para mim. Você sabe, não os quero escritos, apenas não quero que o nome do meu pai passe. O meu filho, que ouço ainda, em repetição, num excerto do Nocturno de Chopin, escreveu ao meu pai no dia da viagem:
«Querido avô, já não estás mais aqui,para vir buscar a mim e ao pai quando saímos do comboio na estação do Estoril. Já não vais estar mais aqui para me abraçar e dizer ” Estás grande!” . Já não vais estar mais aqui para eu te ver assar o frango. Já não vais estar mais aqui para encher as rodas da minha bicicleta.
Sei que não passei muito tempo aí em Pau Gordo, mas as férias que passei, foram as melhores que eu podia ter. Lembro-me de um dia, já o sol se punha, tu e o pai me ensinavam a andar sem rodinhas na bicicleta azul que tenho em vossa casa. Lembro-me de alimentares a Violeta, a tua cadela.Lembro-me de brincares com ela. Lembro-me de quando ia contigo a parte onde plantavas legumes. Estava sempre a perguntar como se fazia aquilo, como se plantava tal, como se usava tal ferramenta. Lembro-me de todos os dias, quando o sol já se punha, ias regar as couves que tinhas, ao lado do portão branco que fechavas para a Violeta estar solta.
Esperava fazer mais memórias contigo, mas estou feliz da maneira como me vou recordar de ti para o resto da minha vida.
Até um dia, querido Álvaro.»
O meu pai.

 

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Até breve,
R.V.

num lastro de prisma

A.

Na semelhança incognoscível da água que abre das rochas
vive a obscuridade da linguagem, a alba eterna do fonema.
Colheremos o musgo das idades, a história da lavoura do rosto,
num riso ao sal do mar, à noite que verte incólume do oedema

as palavras puras na mão que deslaça os cabelos no movimento do silêncio,
num lastro de prisma.

 

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 18 de Outubro de 2018.

patologia do acaso, diário, 126

2018, Novembro, 3. Perdurar é o primeiro desejo que se sucede à consciência da morte, um desespero profundo, inato à dita consciência, que faz do estar-se vivo uma potência indómita da vontade. Permanecer depois de, realizar as multiformidades do ser enquanto, no tempo incerto. Perdurar significa a existência do problema dentro do ser-se, na sua natureza e nas suas qualidades, ou seja, o lugar concedido à força diversa e enigmática do pormenor. A exigência colocada no pormenor é a mais irredutível força de viver, pois a unicidade do pormenor ilumina o que está destinado a passar, suspendendo-lhe esse vencimento. Esta suspensão pode permanecer, numa potência que se oferece às mais diversas decifrações e interpretações durante séculos, milénios. É o tempo do pormenor que constrói essa suspensão, mais ou menos densa ao longo das idades, no tempo que sem remissão se consuma. Tudo acabará num tempo incalculável, numa agonia mais do que certa quando o Sol se extinguir numa escuridão ou num excesso de luz de não-saber. Na duração que nos é concedida e não tem razão nem tem sentido, é a prova da força do pormenor que consegue, entretanto, por assim dizer, salvar-nos. A força do pormenor agoniza, pois o tempo de que carece tornou-se uma impossibilidade na pragmática da Era da Invisibilidade e do fim do Humanismo em que vivemos. Porque há-de complicar-se aquilo que pode ser fácil, aquilo que deve ser fácil, tal como a contemporaneidade que nada consegue fixar, nem uma dada vereda no sentido da verdade. Tudo consegue ser porque já não é enquanto princípio de ser. Mas o pormenor é um reduto do ser; o pormenor é um reduto do pensamento complexo, um reduto do trabalho da linguagem. A força do pormenor resulta das qualidades do problema no interior do ser-se, que pode encontrar semelhanças, mas nunca é igual. Essas semelhanças, todavia, podem ser apenas uma fachada de enganos, um cenário. A primeira natureza de um problema é a sua identidade; colocamo-nos no problema e existimos a partir do problema. A Era da Invisibilidade não traz questões, traz uma indistinção do ser. Consumir é existir. Consumir não coloca problemas, apela ao desejo, que só a capacidade económica pode refrear. Ainda não estamos onde será suposto estarmos: a Era da Invisibilidade é uma longa era de transição para uma nova ordem política e social definida pelas potencialidades (directas e indirectas) da genética.

 

 

«Thereza – Why didn’t you let me die?
Calvero – What’s your hurry? Are you in pain?
[Thereza acena com a cabeça que não]
Calvero – That’s all that matters. The rest is fantasy. Billions of years it’s taken to evolve human consciousness and you want to wipe it out. Wipe out the miracle of all existence. More important than anything in th whole universe! What can the stars do? Nothing… but sit in their axis! And the sun, shooting flames 280,000 miles high… So what? Wasting all its natural resources. Can the sun think? Is it conscious? No, but you are!

[…]

[no dia seguinte]
Calvero – Tell me, what it just ill health that made you do what you did?
Thereza – That and…
Calvero – And what?
Thereza – The utter futility of everything. I see it even in the flowers, hear it in music. All life aimless, without meaning.
Calvero – What do you want a meaning for? Life is a desire, not a meaning. Desire is the theme of all life. It makes a rose want to be a rose, and want to grow like that. And a rock want to contain itself and remain like that. […]. However, the meaning of anything is merely other words for the same thing. After all a rose is a rose. Not bad, should be quoted.»

Charles Chaplin, Limelight, 1951.
Charles Chaplin (Calvero) e Claire Bloom (Thereza).

 

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Charles Chaplin em Limelight. Fotografia [a partir do filme]: Jorge Muchagato

le premier jour du monde, le rouge cœur du mythe

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A.

 

a nos yeux, à l’universel de notre regard
: chemin et horizon de conquête, nos mains porsuivant
toujours l’être et la chair de l’amor sur notre peau,
(le sol de l’avenir)
dans nos bras, rond, sous le ciel des mots regardés
amande de chaque geste au son de nos voix, dans l’invisible
d’une seule souffle,
chaque jour
est le premier jour du monde

la seule chair des dieux, sa fonction
– le rouge cœur du mythe, le début pour toujours

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Lisboa, 1 de Novembro de 2018

Estrada da Luz, 1

A.

 

O conhecimento, sedimentado no ser e no tempo por um movimento semelhante ao do assoreamento da foz dos rios quando encontram o mar, que lhe permite transformar-se em saber fundamentado e, por fim, em sabedoria, é a causa mais remota da felicidade, o seu mineral mais rico, o sal da vida, o ser anímico que descobre opções e caminhos, veredas, e os conquista. Um movimento cadenciado ou incerto, intuído por indícios ou de súbito descoberto. A felicidade é um saber que se encontra, assim se saiba decifrar, no movimento do ser e do tempo. Existimos, somos, movemo-nos no tempo e no espaço, tal como todo o universo se move, de uma forma radical, quer dizer, a idiossincrasia da nossa condição não incide sobre a natureza dessas categorias puras, todavia, existindo nelas, também nelas nos revelamos e a partir do que somos as revelamos realizando. Por conseguinte, a felicidade, ser-se em reciprocidade, carece do mesmo cuidado que faz da terra erguer-se a vida, num equilíbrio entre o cultivo e as estações do ano. Assim, a perfeição é apenas saber o ser e o estar, como fim da matéria do conhecimento para aí existir, moldando de forma adequada a imperfeição. Em tudo está o tempo, dádiva bruta ao ser, conquista anímica, realização de um penhor.

22 e 23 de Outubro de 2018.

 

 

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Jorge Muchagato, 21 de Outubro de 2018

 

patologia do acaso, diário, 124: O silêncio e a gelosia ou a escrita da história enquanto resistência e a única revolução ainda possível

2018, Outubro, 14. Sob o azul atmosférico dos comprimidos, existe uma gelosia na rocha negra onde o movimento a tempos desigual da lava incandescente me dá por vivo. Nessa passagem constante de lava-sangue, o tempo molda e esquece o meu ser e assim canso-me, mas na verdade não envelheço. Descendo a gelosia, como rasgando a gelada pressão do oceano, não há o medo da fervência do sangue, nem o temor da escuridão, nem a fragilidade limítrofe do corpo. O meu envelhecimento é um pensar, uma obscuridade conquistada, uma ferida que decifra e dá a ver – compreendo que a medida de todas as coisas foi extinta e que é preciso prosseguir para além dessa medida abolida, sendo que a nova medida de todas as coisas pressupõe a invisibilidade do ser enquanto garantia da sua funcionalidade, enquanto tributo para sentir uma felicidade possível. Nada que seja apenas possível, permitido ou tolerado é inteiro e absoluto. O ser é radical, deseja o impossível.
Passamos na Era da Invisibilidade, não existimos nela numa radicalidade inteira, a revolução é impossível pois o seu conceito pereceu no umbral do vazio onde nos entretemos. O fanatismo desconhece o medo e por consequência o instinto de sobrevivência. Resta um derradeiro reduto, uma vez que a linguagem decai: o silêncio e a sua absoluta e lúcida descoincidência. Acreditar que a história se repete é legitimar o engano que nos propõem: é reescrever o passado enchendo-o de um não-acontecido que torça o sentido da verdade. Mas se a verdade pode ser torcida, ela jamais pode ser quebrada; sucede é que são muitos, os ignorantes, os trepadores, os embusteiros que, pobres, nem se apercebem de que o são. A história não se repete, decifra, e por essa razão, propõe ver mais longe. Quem souber ver, vê. É por isto que a escrita da história é, hoje, uma forma radical de resistência; provavelmente a única revolução ainda possível. Depende do silêncio e da gelosia de cada um sobre si mesmo.

 

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Jorge Muchagato, Janeiro de 2015