pai

o frio morto na minha face quando no ataúde
te beijei por fim e disse boa viagem querido pai, eu
que no meu entendimento tudo humano creio,
olhei a oliveira na fronteira da casa funerária, de noite envolta,
e disse-me, na estranheza da morte, mas eu quero,
irracional, eu quero que haja depois

chamava-te, como por uma primeira vez, da agonia te chamava
: pai, pai

 

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Jorge Muchagato, diafragma nocturno, 9 de Novembro de 2017
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é estrangeira a morte quando na carne ceifa perto

é estrangeira a morte quando na carne ceifa perto
beijo a corola do vinho, cuido na volta do pescoço
sem nunca me ter ferido no espinho vão da coragem
do baixo céu firme à boca esventrada do poço
o imerso incerto
dado que me confundi na ondulação solar da folhagem
e assim à morte voltei o rosto para a sombra no chão
das árvores e das artérias da sua verdadeira ramagem
tendo-me perdido vivo nos meandros da decisão

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 19 de Outubro de 2017

 

patologia do acaso, diário, 55

2017, Novembro, 14. Ainda que possam mutuamente adjectivar-se, desespero e amor não são a mesma coisa, nem têm a mesma existência; o medo confunde-os, o sofrimento define-os; o medo apela à misericórdia de nacos indistintos de desespero e de amor, o sofrimento confere-lhe belezas diferentes e intransmissíveis, a capacidade da rejeição ou da aceitação e, por fim, a força da vingança criadora que permite o esquecimento, a transfiguração ou o recomeço.

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Fotografias: [ diafragma nocturno ], Jorge Muchagato, 9 de Novembro de 2017

patologia do acaso, diário, 54: No barulho das luzes

2017, Novembro, 7. No barulho das luzes. Era costume dizer-se, talvez ainda se diga, quando alguém inquiria acerca deste ou daquele pormenor mais imperfeito da roupa, «isso com o barulho das luzes nem se nota». A modernidade portuguesa é, a um tempo, particular e estranha, sendo e não sendo, ladrando muito e pouco mordendo, tendo em si profundamente entranhada uma concepção paternalista do Poder que explica muitas das idiossincrasias do ser português. Esta modernidade vai dos abraços do Presidente da República ao barulho das luzes da Web Summit. Nos intervalos que medeiam a euforia e a depressão, quando damos dois passos para a frente e um para trás, acedemos a comer «espírito de equipa» com batatas.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 26 de Novembro de 2016

nuvens

… uma constelação de acrobacias poéticas, firmes certezas
que nunca foram verdades
quando a condenação a que chamamos vida é a verdade estilhaçada
de certezas pequenas por esculpir;
poetas endeusados por lobos prontos
a roubar-lhes a divindade sob o ingresso da adulação, de molde
feito para a posteridade, essa pécora que involuntariamente a todos masturba mas a ninguém consente
que a foda
perícias poéticas de lama seca, perícias de barro mal amassado sob uma ficção
azul onde não conta o imensurável eflúvio das nuvens,
agilidades de metafísica lacrimosa que todos os dias perdem
uma nuvem iluminada

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 2 de Novembro de 2017

 

 

exílio

vê se respiras enfim, sem medo nem expectativa, que estás absolutamente só
e te decides, de uma vez por todas as vezes, sem rancores nem arrependimentos,
tu, que conheces a essência da história como as linhas inexplicáveis das tuas mãos,
pelo exílio real de que não és culpado mas onde desde o princípio vives

quando tiveres umas moedas mete-te no autocarro e vai à foz
descalça-te, caminha na areia, molha os pés no mar frio e contempla a explicação azul da atmosfera
quando voltares para a casa onde agora estudas e dormes
terás esquecido, sem sofrimento, os interstícios verdadeiros que acinzentam as palavras

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 21 de Setembro de 2017

 

carta última do naufrágio

na face da noite, nos olhos da face fria da noite, sangra o que não há,
o que não pode ser salvo, nem pela tesoura dos filósofos nem pelo absoluto;
sangram as palavras nuas, a mentira dos silêncios e das omissões; o que nunca virá
no devir mais justo, mais merecido, mais alvo, certo e resoluto

na face da noite, em sombras mudada e lida, queimo os lábios no meu exílio contrário
ao desamor feliz do mundo; queimo as mãos, a pele;
o sofrimento das ilhas perdidas nos mares desconhecidos de um desejo arbitrário.
não me estanco nas facas assassinas, conheço-lhes olhos e as mãos, o que as impele

na face da noite, na verdadeira nudez que revela os ombros, descai o medo,
como um drapeado grego, e cresce em veias a haste; eu sou o que sou e o que me desconheço;
a tectónica violenta da minha solidão, um tão amado naufrágio descendo no mar o degredo,
os milhões de séculos e silêncio da água gélida, onde não chega a luz, lavando-me da inexistência onde me desvaneço

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 29 de Agosto de 2017

 

a anual decisão dos loucos

decidiram os loucos, à beira do estertor
do Verão, ainda o Outono docemente colore com lágrimas as árvores de fogo,
decretar em falsas luzes públicas, a invenção do natal,
que é de facto uma invenção,
ficando todos os anos com dois meses inteiros
para cagarem em cima do natal enquanto
sorriem a sorrisos parecidos ou a desesperos exilados

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Dezembro de 2016

a razão do sol

 

contamina-me a lentidão vermelha da mudança do medo em procura e, por fim, em sedução
mas não consigo da morte, sob o coração, limpar o medo, nem da procura nem da sedução

a razão do sol está longe, não existe ou foi decapitada, mas nas pedras imóveis da aridez
onde o sol morre exangue de razão, chega o reflexo do universo mudado em brilho ou altivez

morre a Terra sobre si mesma, na masturbação dos dias e das noites, todo o ano
enquanto o sol fenece, ardendo curvado entre as árvores, nos lábios do desengano

morreremos, que importa a condenação da vida, na pulmonar poeira cíclica do universo

 

 

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Ilustração: Jorge Muchagato, colagem, papel, diários gráficos, caderno de Setembro de 1998 a Abril de 1999