patologia do acaso, diário, 121: Nem toda a solidão é feita de solidão

2018, Setembro, 20. Nem toda a solidão é feita de solidão. A mais ressequida de todas as formas de solidão é a que se vai transformando na personagem de uma personagem, numa existência construída que é uma das muitas faces do poliedro da soberba. A seiva da solidão – lucidez e pormenor – é a dolorosa crueza de não se encerrar às coisas do mundo. Aquela solidão que não é feita de solidão, é narcísica e ressentida, cederá sem reservas à vanidade que jurou odiar, e descerá à personagem como tantos e esquecidos cenários parados de grandiosas operetas que o tempo desfez. A máscara da sua altura. A nossa equação é com as coisas do mundo e com os outros, e nessa condição, no movimento das qualidades do tempo, a solidão acaba  por ascender à firmeza de uma aferição, não à pobreza de um resultado.

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Todas as minhas noites

todas as minhas noites começam aqui,
em pétalas de rosas, no sangue de tudo o que perdi.

salva-me. por esta vez. de novo, de novo.
de novo, raízes da terra que beijo e não amovo.

todas as minhas noites começam aqui
nos espinhos das rosas, no primeiro sangue em que te ouvi.

17 de Setembro de 2018

 

Cansaço (Luís de Macedo / Joaquim Campos), com José Fontes Rocha e Carlos Gonçalves (guitarras), Francisco Perez-Andión (viola) e Joel Pina (viola-baixo), Paris, Olympia, Maio de 1975.

Cartas, R.V. Um ensaio

[ quarta carta ]

Setembro, 9.
Era vidro frágil a partir-se dentro de mim e uma proporção igualmente ansiosa, subindo de um chão de terror nervoso, de levas de pânico, fechado a todo o pensar, mas sequioso de todo o movimento que o alimentasse. Nesta perturbação, depois do pequeno-almoço, do café e dos primeiros cigarros, de alguns medicamentos, pois bebera vinho durante e depois do jantar na noite anterior, passei imediatamente à arrumação dos livros para a mudança. Uma gritaria, na minha cabeça, picava-me que não haveria tempo suficiente para a quantidade de livros, dossiês e pastas a embalar, verificações, limpeza geral da casa antes de sair. E é, de facto, escasso o tempo. Toda a manhã assim até pouco antes do almoço quando tomei o primeiro tranquilizante do dia e um segundo depois da refeição. Mas essa gritaria na minha cabeça não cessa; umas vezes é o zumbido auditivo que se amplia, outras, os pesadelos recorrentes. Isto passou-se há dias, mas na noite de ontem para hoje tive o sono tomado por dois pesadelos, ansiando por despertar e todas as vezes sem o conseguir, a cair de novo na travessia. Não deixaram fio de lã e em momentos já não havia retorno, nada lembro. Está a ficar adiantada a arrumação dos livros, é uma tarefa que quero concluir o quanto antes, não apenas pelo tempo, mas, como sabe, porque me macero a discorrer sobre os significados de quanto vivo agora, e sobre estes significados, outros e outros até perder, por exaustão, todo o tino de sentidos, ou de um único sentido das coisas, até me encontrar, de novo, no sopé da montanha. É provável que esteja numa fundura de cansaço maior do que sei avaliar. Não questiono essa aptidão, muito menos agora, não posso, não quero, não devo sentar-me a pensar nisso, não há tempo. Ontem à noite, depois do jantar, sentei-me aqui ainda cedo, tentei escrever, mas fui incapaz. Achei-me, de modo tão opaco, dentro do silêncio, nestas cartas que resumem um exercício de silêncio, que as considerei inúteis, tão patéticas como uma orgulhosa soberba assente nos seus princípios contrários. Mas que importa saber o que isto é… Tomei um tranquilizante e decidi-me a dormir. Enquanto não acudiam ao meu espírito os primeiros efeitos de sedação –– parece-me, na verdade, que lhes corresponde o desenvolvimento de uma insensibilidade, ou, dito com mais acerto, que desejo comprimidos de maior gramagem, que o meu corpo reclama essa sedação de um modo mais rápido e capaz de aniquilar as usuais lucubrações nocturnas –– olhei para as caixas de papelão que se amontoavam, esculpidas apenas pela luz do candeeiro de mesa, à frente da secretária, com as rugas das tiras castanhas de fita adesiva a reflectirem pontos de claridade, e aquilo, logo a seguir aos discos da Amália que deixei por embalar, era uma parte pesada do meu cansaço, da minha vida, em suma. Fiz uma fotografia com o telemóvel, fui buscar o pormenor de uma gravura que fizera há muitos anos e publiquei as duas imagens na rede com as palavras «cansaço» e «pão». O pormenor é o da célebre passagem dos moinhos de vento por Don Quijote, cavaleiro de La Mancha. O pão está no moinho das penas. O moinho das asas pode voar no estrondo de um instante imprevisível. Envio-lhe as imagens aqui. Penso que talvez a minha história nesta casa esteja completa, a casa se tenha tornado demasiado grande e eu precise de ainda mais despojamento; de nesse despojamento me aproximar um pouco mais da terra e dos Elementos. Tenho a impressão de as circunstâncias da vida me terem feito chegar a este estádio de ser tempo de me desapossar dos sonhos mortos dentro desta casa. Quero significar, também, avançar na realidade. Sou um historiador, tenho a obrigação de estar precavido para a falta de sentido da história e daquilo a que usualmente chamamos, enganando-nos, coisas. Mas existe sempre a ferida insarável do sentido e esta ferida come aquilo a que Amália chamava um «estar fora da razão dos outros»; e depois o célebre aforismo de Tolstoi, na sua Ma Confession, a que tantas vezes se aludia: «Pendant que je cherchais la réponse à la question de la vie, j’éprouvais tout à fait le même sentiment qu’éprouve l’homme qui s’est égaré dans la forêt». Mas Tolstoi, que escreveu tal consideração aos 52 anos, prossegue: «Ayant débouché sur une clairière, il grimpa sur un arbre et vit clairement des espaces illimités, mais pas une seule maison; et il comprit qu’il ne pouvait s’en trouver. Il alla alors dans l’épaisseur du bois, dans les ténèbres ; mais, là encore, nulle trace de refuge! J’errais ainsi dans la forêt des connaissances humaines, parmi les lueurs des sciences mathématiques et expérimentales, qui, tout en me découvrant des horizons lumineux, ne pouvaient me fournir aucun abri. Je vaguais au milieu de l’obscurité des connaissances théoriques, toujours plus sombres à mesure que je m’y enfonçais, jusqu’à ce que je fusse enfin persuadé qu’il n’y avait et qu’il ne pouvait pas y avoir d’issue.» Sucede que nas arrumações de ontem peguei neste livro de Tolstoi, numa tradução portuguesa, e logo neste início do capítulo VI o abri ao acaso. (Cito em francês porque, depois de ter sido censurado pela Igreja Ortodoxa Russa em 1882, na páginas do periódico Pensamento Russo, foi publicado em Genebra, em 1884.) Avançar na realidade; e ainda ontem, enquanto caminhava na rua onde habito e depois metia a chave à porta de entrada no prédio, concluía, como em várias ocasiões você me tem ouvido, «Deve existir algum problema entre a minha cabeça e a realidade, porque cada vez consigo medir pior o tempo, calcular pior as coisas, ter uma noção dos trabalhos da existência completamente fora da realidade…» Você sabe, naturalmente, traduzir esta minha questão com a realidade; eu, ao mesmo tempo, penso se não será um desespero inteiro sob a forma de abandono; como aquele homem, bem vestido nos termos do final do século XVIII, que caminha para a guilhotina. Ou aqueloutro eu, agora, usando uns sapatos pretos, bem polidos e de sola grossa, que caminha seguro numa estrada repleta de fragmentos de vidro pontiagudos, como aqueles que era uso colocar no topo dos muros das propriedades, quando o cimento ainda estava fresco, e é surpreendido, quase no cabo do pesadelo, com o sangue a escorrer de dentro do calçado que considerara seguro. A realidade, o que é.

 

esperançoso, um abraço do
R.V.
até breve.

 

 

[ em actualização ]

 

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Ah, quando for nas arribas de Setembro

Ah, quando for nas arribas de Setembro,
e o vento trouxer à lavra do meu rosto,
no sal do mar por fim o que não entendo!
Em cada risco do arado no meu desgosto
está o frio de rubras manhãs alvorecendo

nos meus olhos, abertos à névoa do oceano,
na praia desfazendo os castelos da infância.
Quando for nas frias arribas de Setembro,
hão-de queimar-se na queda, ano após ano,
sem que me lembre do fogo da sua instância,

sonhos, sonhos; esperanças, sonhos e gritos;
duras côdeas do pão de que não me arrependo,
nem nos vidros das janelas dos breves escritos.
A maré guardará: o que lembro e não lembro…
Ah, quando for nas arribas de Setembro!

 

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 6 de Setembro de 2018

patologia do acaso, diário, 119: O que é a “actualidade”?

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2018, Setembro, 6. O que é a actualidade? Muito tempo se consome a pensar naquilo a que usamos chamar actualidade, nessa mais ou menos «espuma dos dias» que não é, sejamos precisos e lúcidos o quanto baste, nem tão leve nem tão passageira conforme a cartilha por onde é desejável que leiamos. Alguma dessa actualidade está, até, bem longe de ser tão porosa como a espuma do mar encapelado, e apresenta-se como referência ideológica de prestígio para os tempos que decorrem e para o futuro. É a máquina destas coisas que escolhe a próxima referência bibliográfica para o alinhamento com o futuro. O apodo de historiador alcançou um prestígio, um glamour, inusitados e, creio, que até insuspeitos. Historiadores ou filósofos, por exemplo, linguistas também, literatos, não alcançam julgamento mais apropriado do que o de serem um coio de gente fora do mundo, condenada, sem apelo nem agravo, a desaparecer na mirabilia técnica e virtual do futuro. Isto é o que toda a gente pensa, mas isto não é bem assim. Com efeito, parece readquirir prestígio a qualificação de historiador. Uma pessoa é isto, isto e mais aquilo e também é historiador. A questão alevanta-se quando se vai ler a coisa mais de perto e nem a estopa é suficiente, nem a calafetagem está bem feita. Uma temporada de sucesso e o assunto, para a máquina, atingiu os objectivos. Meteoritos de muito fulgor, mas pouco ou nenhum minério novo. É o que se quer. Aliás, quem sabe hoje o que é isso de estopa e de calafetagem de navios? Coisas do tempo do Vasco da Gama, coitado, que fez muito, todos sabemos quem foi, mas está.
Estava hoje, bem cedo, a vazar o café na caneca e, nos dois passos de caminho para tomar as pastilhas do receituário médico, ocorreu-me, com a violência de um relâmpago, assim como quem chamasse por mim, não sendo chuva nem sendo gente, e tendo em conta que a chuva não bate assim, esta seguinte conclusão que não sei se poderei elevar à categoria de aforismo, como resposta à pergunta que me tem torturado as roldanas há algum tempo: o que é, e qual poderá ser, o conceito de actualidade?

Aquilo a que vulgarmente chamamos actualidade é, por estes tempos, um conjunto articulado de manobras de diversão a escalas diversas para que não reconheçamos os sinais, visíveis ou em lucubração por particulares sistemas de associação de ideias, de futuros inconfessáveis.
Mas, para pensar nisto com termos é preciso conhecer a estopa e calafetar com engenho e arte, não é assim com duas cantigas.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Caldas da Rainha, 11 de Junho de 2018

Cartas, R.V. Um ensaio

[ terceira carta ]

Setembro, 5.
O seu telefonema de ontem foi reconfortante mas temo ter sido, em um ou outro momento da conversa, um pouco ríspido. Você compreenderá que, nesses instantes, não é consigo que falo, é mais comigo, é tudo mais um grito indomável que não fica calado nos tranquilizantes ou, quando tudo atinge um limite que me vence e derruba por inteiro e estou de costas na parede a sentir na nuca a rugosidade do cimento, no álcool. Mas eu tenho a noção disso e firo-me e culpo-me. Vale que são expressões perdidas, ideias feitas de imagens fulminantes oriundas do medo e do desejo. Um turbilhão involuntário que levanta o pó do que quero e do que não quero, por vezes até do que desconheço, um movimento que amalgama a coragem e o desespero de levantar do chão e correr contra os tiros. Este fresco da manhã, agora, permanece até mais tarde, o Verão esmaece, mas a força da luz ainda é a da estação. Daqui a pouco está aí o Outono, a mudança da hora, o Inverno, a escuridão do mundo. Todavia, o esplendor que antecede esse desabamento, é deslumbrante, é quando o reflexo do sol nas folhas das árvores é o mais belo de todo o ano. Nessa altura, as árvores são o resplendor do mundo, como os resplendores que coroam as cabeças das imagens dos santos, mas sem os raios, repletos de árvores a irradiar o reflexo do sol. Gosto deste ar fresco da manhã, chama-me ao movimento. Adiei o mais que pude, mas já subi ao sótão para trazer as caixas de cartão e já comecei a embalar os livros. Os discos de música e os discos de filmes e de documentários já estão. A caixa com os discos da Amália será a última a selar com a fita adesiva, porque preciso de os consultar, sobretudo estas edições recentes da Integral, que mantenho sobre a mesa onde escrevo. Um dia, no Inverno passado, o marido da senhoria veio aqui, com o rapaz que renovou o telhado, por causa de uma inundação e subiu ao sótão, onde viu, arrumadas, as caixas de cartão. Disse-me o «trabalhão» que devia ter sido levar todas aquelas caixas lá para cima. «Não sabemos o dia de amanhã…», respondi-lhe. E não sabemos, ou calculamos por aproximações. Não podemos fazer jura de que acordamos no dia seguinte, abandonamo-nos e confiamos, adormecemos na mais firme esperança e é tudo. E tão pouco, tão frágil. Em certos momentos dou por mim a concluir que devemos ser os seres vivos mais frágeis sobre a Terra. A pele, os músculos, os órgãos, tudo tão frágil, tudo sangue ao primeiro golpe. Mas, enfim, transpus o trauma de começar a empacotar os livros para a mudança, não sei ainda para onde. Começar a encaixotar os livros, de novo, tem para mim o travo de uma derrota, mas decidi-me a beber o fel da circunstância. Apesar de ter adormecido cedo acordei mais tarde do que o habitual e com o corpo dorido, dores nas costas. Tenho ainda algum tempo, não preciso de “correr”, por isso reservo as manhãs e o início da tarde para a escrita e o trabalho na tese. É uma divisão da angústia, que os tranquilizantes vão equilibrando quando se avizinham sentimentos de pânico ou de caos a que preciso de atalhar imediatamente. Tenho tempo, não preciso de “correr”, mas na realidade – temos falado tanto na palavra e no conceito de realidade – não é assim; o tempo escasseia para todas as tarefas em que estou envolvido. Vou encontrando as defesas que consigo, estabelecendo fronteiras ao longo das horas, dos dias. Por enquanto não consigo que a resistência tenha outra forma. Penso, penso no que me diria acerca do que penso e não verbalizo porque não falo sozinho; nesse pensar, como calcula, está a sua voz, estão algumas das expressões do seu rosto. O seu telefonema foi reconfortante. Não é o estar sozinho, nem é o ser entendido no seu sentido mais restrito, é o falar uma idêntica linguagem, é o existir espaço para um sistema de pensamento.

um abraço, até breve,
R.V.

 

 

 

[ em actualização ]

Quando for nas arribas de Setembro

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Quando for nas arribas de Setembro,
os moldes das palavras terão derretido.
Ninguém soube. E eu não quero nem lembro,
antes dos rochedos escapados, as facas
que nos pulsos me abriram um destino sem abrigo

Quando for nas arribas de Setembro,
ouvirei na tua última voz o amor que nunca tive.
Ninguém soube. Mas eu, sim, sei e lembro
essa voz a beijar-me a noite e a face, e nas arribas
de Setembro, lançarei o corpo ao mar que sobrevive.

Quando for nas arribas de Setembro,
a maré viva levará tudo o que sou e lembro.

 

 

 

Fotografia [pormenor]: Augusto Cabrita.

patologia do acaso, diário, 118

62

 

2018, Setembro, 3. Enquanto é gigantesca a cúpula do silêncio, tão vasta que a não vemos e a confundimos com o esplendor equilibrado e azul do céu, a vida que vamos aprendendo a conhecer, a vida que vamos aprendendo a repudiar, entre amores e raivas, ternuras e revoltas, mortes e partos, festas e choros, transcorre; o tempo; mas essa cúpula de silêncio vai minguando, aporta o instante em que compreendemos, de facto, que existe; a vida entretanto transforma-se; por fim, a cúpula desapareceu, e fundiu-se em nós pelos poros da pele e pelo entendimento. Achamo-nos então o próprio silêncio e começa a verdade, a verdade tão desproporcionada, sob a gigantesca cúpula do silêncio, que não a víamos. E erguemos, à altura do olhar, a minúscula chama da candeia para o Nada.

 

 

Fotografia: retirada da rede, sem autor identificado