patologia do acaso, diário, 106: A terra

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2018, Julho, 16. A terra. Existe uma dignidade incomparável no esforço dos trabalhos que a terra exige; uma dignidade atávica eivada do mesmo enigma que qualifica a obscuridade labiríntica do ser, as profundidades do sentido da vida humana, que é o eterno retorno de cada manhã – sofrer, realizar, descansar; uma dignidade humana e terrena única, avessa ao trauma e à disciplina de qualquer ligação religiosa. Na sexta-feira e no sábado, estive a limpar das plantas daninhas a terra que foi do meu pai. Em certas partes, ainda tinha os sinais de ter sido esterroada uma última vez por ele. Eu estive-lhe semelhante, em certos movimentos, quando descansava por uns instantes e assentava os pulsos no topo do cabo da enxada. Tenho uma fotografia em que o meu pai está assim, no terreno que agora limpei, defronte da casa. E é apenas isto, a consciência desta dignidade incomparável que nos reúne à terra e que eu tenho, para mim, como um dos matizes do sentido e da agudeza do conhecimento na parcela do tempo que nos é dada.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 13 de Julho de 2018

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patologia do acaso, diário, 105: A arte, visibilidade de um exemplo

2018, Julho, 12. A arte, visibilidade de um exemplo. Na Idade Média, quando o tempo constituía uma das propriedades de Deus, a arte era uma linguagem da verosimilhança de um invisível existente até ao fim da história, até à última vinda de Jesus, o Cristo, o filho de Deus, à Terra, e ao triunfo definitivo do Espírito Santo. A arte era, assim, a visibilidade constante do exemplo numa história que existia porque tinha um sentido, para uma humanidade que prosseguia porque a salvação era o objectivo e transcendia todas as intencionalidades e acções da vida humana. A arte era a materialização de um invisível actualizado pelo intelecto e pela evolução da sensibilidade relacional com esse sobrenatural que, não estando dependente do tempo, tinha o devir na sua natureza. Esse devir era também humano, porque o humano fora criado à imagem e semelhança desse sobrenatural. O próprio corpo humano denuncia o imperativo do devir. No fim dos tempos, o criador reivindicará e julgará a sua criação. Sendo uma realidade denunciada pelo corpo, o devir é uno enquanto paradigma, mas nunca o mesmo enquanto expressão. A arte é a visibilidade de um exemplo.

 

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Imagens: Artista desconhecido, Retábulo  da Igreja de Orchaise, O Juízo Final (face) e Calvário com os doadores (reverso), óleo sobre madeira de carvalho, 90 x 142 cm., Musée du Château de Blois, ca. 1495-1500.
Fotografias: orchaise.fr

 

patologia do acaso, diário, 104

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2018, Julho, 10. Não há pessoas nem acontecimentos nem coisas isoladas; nada está restrito ao que apenas é; tudo tem razões, naturezas e sentidos invisíveis que carecem de procura para serem conhecidos o bastante. Não basta esperar que os pássaros venham buscar os pedaços de pão alinhados no murete da varanda; é mais interessante procurar saber porque não vêm logo, por onde voam e pousam e porquê, qual a dinâmica do seu instinto de sobrevivência. A “mecânica invisível” da realidade requer muito tempo de observação, de pensamento, de método, e não se compadece, na sua dádiva ao entendimento, com evidências, mais ou menos exactas, mais ou menos poéticas. As estruturas de pensamento são o “subsolo” da consciência que mais lentamente muda ou evolui. As perguntas sobre o que não vemos são muito mais numerosas e complexas do que aquelas que incidem sobre o visível e o material – precisam de ser adequadamente formuladas e muitas acabarão por se revelar inúteis, pueris, patéticas até, algumas; mas foi necessário fazê-las. Carecemos de um sentido narrativo porque fazemos parte de uma intriga, de factos, de pensamentos e de circunstâncias que se sucedem, se confundem, se relacionam a diversos níveis. Dizer o que foi é uma constatação; explicar porque foi, para que foi, e como gerou vestígios que permaneceram e porque razão vingaram esses e não outros testemunhos, tendo em conta o inapelável do acaso é procurar um acesso a essa “mecânica do invisível”; e esse acesso será mais tarde substituído por outro mais seguro, mais pertinente, melhor fundamentado. É preciso procurar e conhecer, muito e diversamente, para a firmeza do sentido de uma pequena explicação. A excessiva especialização em história conduz à fantasia, e a fantasia é, como sabemos, um reduto inexpugnável à realidade do ser e das coisas. Até agora, a manhã está fusca, nenhum pássaro veio à conta dos pedacitos de pão.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 10 de Julho de 2018

patologia do acaso, diário, 103

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2018, Julho, 8. Almocei cedo, tomo o café, fumo um cigarro; recupero de uma das noites infernais que ciclicamente me acometem. Respiro a tranquilidade que se segue às tormentas, sinto o alívio de ter sobrevivido a uma parte de mim que me puxou para uma noite profunda e perturbada, onde a minha razão, nos piores momentos da sua descoincidência depressiva, não conseguia saber-se; era eu na minha razão e eu fora-de-mim, tive medo, senti-me dominado por uma insegurança volátil. Jantei cedo e deitei-me cedo também. Demorei várias horas a adormecer sem conseguir discernir com a devida acuidade o sono e a vigília. Aguento-me, tenho medo, mas aguento-me; deito-me, concentro-me no desejo e na necessidade de dormir, e a tormenta vai enfraquecendo. Consegui, por fim, dormir algumas poucas horas. Hoje é o domingo da feira das velharias no Parque; tinha decidido não ir, mas contrariei-me. Tomei o pequeno almoço e saí, pouco passava das oito horas e meia da manhã. Encontrei o R., demos uma volta pelas bancas dos livros, depois tomámos café e conversámos. R. é excepcionalmente culto para a sua idade, tem pelo saber um interesse genuíno e humilde e é um prazer conversar com ele, pois sempre aprendo. Chegaram, entretanto, a mulher e a filha. Conheço-os há muitos anos, exalam uma tranquilidade natural e feliz. Regressei a casa ao final da manhã e daqui a pouco vou retomar o trabalho. É dia, está luz, olho pela janela e vejo os pedaços de pão que ontem deixei no mármore do murete da varanda para um pássaro que ali pousa com frequência. Os pedacitos de pão estão mais dispersos, se não foi o vento fraco que os afastou, talvez o pássaro os tenha debicado. Espero que o trabalho avance, não tenho que me preocupar com o jantar, está feito.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Parque, 7 de Abril de 2018

Uma consideração breve sobre a escrita da história

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«Quem tem pressa beba vinho novo; para mim, que faça escorrer um velho vinho a ânfora arrecadada desde o tempo de antigos cônsules.»

Ovídio, Arte de Amar, tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André, Lisboa, Edições Cotovia, 2006, Livro II, 695-696, p. 75.

 

 

Escrever melhor a história é ter conseguido elaborar conceitos novos. É difícil, e sobretudo moroso, construir um novo conceito ou reelaborar conceitos antigos que permaneçam, no todo ou em parte, válidos. E é difícil e moroso, porque um historiador experiente contra si próprio deve avaliar a verosimilhança e a plausibilidade dos conceitos desde a procura; é uma questão dolorosa de lucidez e de saber colocar-se fora-de-si. Escrever melhor a história não é, assim, um triunfo, mas uma libertação; os triunfos rápido se dissolvem, o seu estado de grande agitação e perturbação desmorona-se com a mesma rapidez fulminante com que surgiu. O triunfo é o reconhecimento da conquista, mas a liberdade, sendo sempre consequente, é a própria matéria da conquista, é a conquista ela mesma, sem retorno. Ora, o historiador serve a história, não se serve da história. O historiador tem, pois, uma espécie de existência suficiente que, em certos momentos do seu ofício, pode ser mesmo uma espécie de não-existência, para que a história possa “falar” e assim possa incidir, sobre a intenção dos testemunhos para o devir, alguma luz. Nada é apenas o que é, existe sempre uma razão presa ao seu tempo, uma intenção. Trabalhando com diversos níveis da existência, o historiador deve conceder-lhes o espaço necessário para ler e compreender a sua linguagem. A qualidade da aproximação à verdade histórica exige de um historiador o devido pudor, porquanto a sabedoria de viver define a oportunidade do pudor. E do silêncio.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Julho de 2017

O CRIME DA RUA DAS MONTRAS | Capítulo II

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CAPÍTULO II
UM EQUÍVOCO GEOGRÁFICO

 

Despertei para o novo dia com a esperança erecta, se bem que, ao de leve me pareceu, com alguma temperatura, constatação que não considerei, com a gravidade que talvez devesse, para a devida verificação e, motivado pela impostergável e esplendorosa invectiva da luz solar, com As Mamas de Tirésias não já entre as mãos mas sob o rosto ruborizado –  pois fora surpreendido, indefeso nas lucubrações em que mergulhara, pelo poder inapelável de Morfeus, o que contribuiu ainda mais para a minha acentuada perturbação – e realizei, com o sentimento de alguma pueril revolta, devo admiti-lo, que não podia continuar desta maneira retido em casa, defeso, em suma, e sem uma razão que se apresentasse ao meu lúcido juízo, como suficientemente avassaladora. Larguei, assim, por momentos, As Mamas de Tirésias e, movido por uma revigorante – e, porque não dizê-lo – penetrante vontade de viver sob a luz benfazeja do Astro-rei, admitindo, até, logo às primeiras cálidas horas da claridade matinal, proceder a uma inspiradora divagação pelas majestosas áleas do centenário Parque D. Carlos I, ambiência que decerto faria despertar no meu intelecto, sob a acção de tão densa fotossíntese vegetal, as tão perseguidas linhas destinadas à função oratória que nessa noite desempenharia na apresentação da candidatura presidencial do Benvindo Guerra, perante, muito provável seria dada a envergadura da ocasião, os mais prestigiados representantes da política e da Imprensa pátria!
Largadas portanto As Mamas de Tirésias, acantonei-me no quarto de banho para as imprescindíveis purificações matinais. Preocupadíssimo, ainda – queimado pelo metal abrasador de alguma angústia, confesso-o – com o perturbador transtorno que involuntariamente causara, na véspera, ao espírito delicado e desprevenido, pelo menos àquelas horas desusadas, da minha jovem vizinha, o banho retemperador e relaxante prolongou-se por mais tempo do que o habitual; por mais tempo ainda do que eu suspeitara, assim que deparara, instantes antes, com a erecção esperançosa. O facto é que não conseguia deixar de pensar na matulona – masoquismos próprios de um duro espírito filantrópico, admito-o, hélas! – o que me provocou algumas dificuldades com o manuseamento adequado do sabonete e com a dosagem correcta do champoo, uma vez que a embalagem plástica se mostrava refractária – apesar do seu contemporâneo design – a deixar-se manipular e, por conseguinte, a permitir a fluência do perfumado composto químico destinado ao tratamento higiénico e profiláctico do que resta, com aceitável robustez, não me inibo de o dizer, da sedosa pujança capital de outrora. A água quente provou, como antevia, um agradável relaxamento muscular, apesar de uma localizada indisciplina carnal e muscular previsível, e levei a bom termo, depois de aplacar, com a dureza requerida, a indisciplina mencionada acima, o imperativo higiénico de todo o homem civilizado que sabe reconhecer a importância incontornável de uma esmagadora first impression. Assim estimulado, decidi, pois, investir sem mais delongas sobre a latagona que habitava sozinha (mas não abandonada) a parcela inferior, e enfrentar, com a devida dureza, a manipulação de que estava a ser objecto desde a tempestuosa véspera. Resolvi-me, até, antes do inspirador passeio pelo parque, a tomar confiante o pequeno-almoço numa das mais prestigiadas pastelarias de Caldas da Rainha, numa resolução contrária à minha frugalidade, dado que se impunha abreviar a desassossegada tensão latente, resultante, afinal, de uma preocupação absolutamente altruísta e motivada pela ciclópica adversidade causada pelo furioso estado do tempo que a todos na véspera fustigara. Altruísmo, devo acrescentar, não isento de perigos eventualmente fatais, uma vez que o ar, no espaço comum da escada que proporciona o acesso às diferentes parcelas particulares do edifício, é gélido em tais horas e, além do mais, não é de todo agradável ser-se encontrado, desprevenido e indefeso, protegido apenas por um frágil pijama de flanela na intimidade de um roupão, decente mas, voilà! sempre um roupão, a premir a campainha da porta de uma solitária (mas não abandonada) jovem vizinha e, sabe-se lá, exposto a um inoportuno e comprometedor flagrante fotográfico concretizado por um qualquer vizinho ordinário (que os há) desejoso de tirar futuros proveitos de uma acção inteiramente altruísta e de todo caracterizada por um destemor desinteressado.
De modo que hoje, antes de transpor o umbral da minha habitação, certifiquei-me de estarem apagadas as luzes da escada comum e de que não se verificavam sinais, pelos menos audíveis, de movimentações vizinhas. Compreendi, afinal, a inutilidade de tais preocupações porque, meia-dúzia de degraus mais tarde, todas as luzes da caixa da escada se acenderam e os meus sentidos despertaram com alguma violência ao ouvir a voz da inebriante e castigadora latagona residente no andar de baixo. Precavi-me, de imediato – estaquei por alguns segundos tendo até sustido a respiração – no sentido de não correr o risco terrível de introduzir, na obrigatória saudação à minha jovem, sedosa e corada vizinha, referências bibliográficas de qualquer tipo, pois dava-se a infelicidade de me ter esquecido de tomar o devido comprimido para a tensão arterial, o que deveria ter feito, mesmo ainda antes do revigorante e indisciplinado banho a que acima aludo. Mas o esquecimento afigurava-se, no fundo, até natural, pois foi com bastante resistência que acedi ao imperativo médico há algum tempo formulado em mera consulta de rotina. No entanto, mudei a evidência de tal fraqueza obliteradora, na saudável constatação de uma condição física que me permitia residir, sem preocupações assinaláveis, no último andar do prédio inibindo-me, com frequência, de utilizar o ascensor. Encontrei pois a poderosa matulona no patamar da sua habitação a retirar, com despreocupada e inocente languidez, as necessárias chaves para a entrada na sua parcela, do centro furiosamente carnudo do seu tomara-que-caia, o que naturalmente não contribuiu para o imprescindível alinhamento cauteloso das palavras a utilizar na breve troca de saudações quase fini-matinais, e que não incluiriam, sob pretexto algum, repito, qualquer referência bibliográfica. Admito que o primeiro cumprimento – o delicadíssimo «Bom dia, menina» – tenha sido caracterizado por alguma vacilante insegurança, mas, recomposto com a exigível rapidez, introduzi-me: «A menina permita-me esclarecer que esta madrugada proporcionou um…» Não pude terminar a frase pacificadora porque a minha latejante vizinha, na despreocupação própria das almas bondosas e altruístas, quiçá perturbada, admito-o, pelo impacto inesperado da minha voz ecoando na caixa da escada, deixou cair as chaves – «Oh, porra!», exclamou, num tropel de ingenuidade e plena da graciosidade inata que a caracteriza. O movimento de procurar as chaves e de as apanhar do chão frio, fez-me realizar, afinal, que não só deveria ter tomado o profiláctico comprimido para a loucura sanguínea, como, convenci-me, ter aguardado mais tempo antes de sair de casa e, mesmo, ter-me detido com maior delonga no banho matinal. Era tarde, agora, para tais considerações, e nada mais havia a fazer senão enfrentar, com a possível presença de espírito, periclitante mas possível, a perturbadora e carnal realidade em movimento, proporcionadora das mais esconsas e tumultuosas perspectivas íntimas, que ameaçava, uma vez mais, fazer cair sobre mim um inesperado e injusto opróbrio, até porque a Adelaide, do andar imediato na ordem descendente, abrira a porta da sua habitação, fazendo rodar clamorosamente as dez ou quinze fechaduras que a protegiam do exterior. A acrescer a toda esta tensão, estava a linda saia da rapariga que acusava já os mais quentes e suados prelúdios da eminente Primavera. Quem sabe se por expiação dos meus pecados, abeirava-se agora da escaldante latagona, para catástrofe das minhas contas pessoais, carregado de sacos de onde transbordava uma vetusta vegetação hortícola, o Adérito, não sei precisar se o mesmo desvalido amigo da véspera, se outro. O certo é que, apanhadas as chaves do chão e metidas à porta, e sem uma palavra, ambos entraram para a calorosa habitação enquanto trocavam, em voz muito baixa, algumas impressões difíceis de compreender, mas das quais consegui discernir, no som da voz do aproveitador das intenções de tão ingénua moça, as palavras «porco» e «tarado» e, por fim, a expressão algo indelicada «Fecha a porta, Tânia, anda p’ra dentro!» Todavia, como seria de esperar entre criaturas civilizadas, a minha madura vizinha não despira de si a imprescindível gentileza e ouvi, dos seus carnudos e vermelhos lábios capazes de recuperar um gaseado da Primeira Guerra Mundial (estamos no Centenário, tenho que lho referir, assim se me vislumbre a oportunidade, pois as almas simples vivem, ainda que o não admitam, sequiosas de conhecimento), um escaldante «Bom dia, doutor». A tão formal saudação pareceram-me assim desfeitos, sem piedade, sem a benevolente esperança de um apelo, todos os esforços que no tempo devido empreendera no sentido de uma próxima e boa vizinhança. Mas um misericordioso estoque final me aguardava ainda, pois a latagona deixou a porta da habitação aberta enquanto se inclinava para pegar nos sacos que o energúmeno ajudante deixara no hall de entrada, ao mesmo tempo que deles se baldava toda a hortaliça. Refiz-me, conhecedor como sou, da complexidade da psiché humana; compreendi, com dor, que não seria viável assisti-la no desregramento da hortaliça, sob pena de um escândalo sem nenhum proveito, quem sabe se na iminência de ferimentos nasais perpetrados pelo bruto que já devia estar a retirar cervejas do frigorífico, e preparei-me para descer ao patamar seguinte onde, com toda a certeza, me aguardava, provocadora, num dos seus dias de «comunicação humana», a Adelaide, dado que o neto viera tomar com ela um oportuno chá de «erva». Dois ou três degraus no sentido descendente, à semelhança do que sucedera na passada madrugada, fui de novo alvejado pela consideração da carnuda rapariga que habitava em solidão (mas não em abandono), a habitação do patamar que acabara de deixar. «Com licença, doutor, tenha um bom dia e um bom trabalho!» Não pude deixar cair no silêncio, nem na distância dos dois ou três degraus que descera, tão sensível gentileza, e ripostei de imediato: «Muita gentileza sua, menina, muito obrigado… Estou até neste momento ocupado com a deliciosa exploração de uma das fossas Mariana!»
Esqueci o pequeno-almoço numa das mais finas pastelarias de Caldas da Rainha, o passeio inspirador na álea de árvores do parque centenário, recolhi de imediato, ruborizado e em sobreaquecimento, à minha habitação, estou letargicamente sentado num dos sofás da sala de reflexão e trabalho e estão cada vez mais periclitantes os dois ou três parágrafos dedicados à apresentação da candidatura presidencial do Guerra hoje à noite.

patologia do acaso, diário, 102: A dificuldade das coisas não reside nas coisas. A terra nova

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2018, Julho, 5. A dificuldade das coisas não reside nas coisas. A terra nova. A certa altura compreende-se que não é possível, não por não ser possível, é sempre necessário algum movimento no sentido da consumação da possibilidade; também não pela razão de um qualquer preço a pagar, mas isso, cede-se ou não ao exigido. Compreende-se que não é possível devido a uma dada forma de ser-se, a linguagem torna-se estranha, exótica, ilegível. Ainda que se escreva a mesma linguagem, a raiz das palavras e os seus significados não coincidem com a natureza das exigências e dos silêncios em vigor; quero dizer, o espelho das exigências e dos silêncios, igualmente das omissões e das verdades repetidas até à nudez de serem falsas, mentiras a que se verga a cabeça sem saber porquê nem para quê. Códigos, moldes de metal, um mundo imenso entretecido do expectável e do exótico, atitudes de cartão cegas à meteorologia. Não é preciso assomar alguém a dizer «não é possível»; a ferocidade do estabelecido é inequívoca. Digamos que se é morto sem ter havido quem exarasse sentença, quem premisse o gatilho, ou ajeitasse ao pescoço a redondez do baraço. Nada disto carece de indagação nem de magoar os dedos na parede de betão; basta saber ler os diferentes níveis e densidades dos registos para que as perguntas ou as perplexidades sejam respondidas ou esclarecidas. A dificuldade das coisas não reside nas coisas. Resumir-se ao reduto, ao essencial do movimento que faz prosseguir a única verdadeira possibilidade: a existência, a carne, o sangue, as imperfeições da existência ela mesma. Realizar, sem nada mais. É vulgar, mas é imprescindível não alimentar expectativas com fachada para o exterior; para dentro, sim, que é onde tudo existe, sem medidas de excesso nem de falta; sem ferimentos exteriores por sarar. O maior e mais importante trabalho é saber ler e aceitar o tempo de que tal exercício carece. A dificuldade das coisas não reside nas coisas. Cada um é o que exige de si – esse é o mais puro, profícuo e indelével sofrimento; e o mais belo. A terra nova.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Julho de 2017

patologia do acaso, diário, 101: Crítica e escrita da história

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2018, Julho, 3. Crítica e escrita da história. A verdade de um documento escrito ou de uma imagem não é um dado adquirido nem imóvel. Pressupõe intenções intelectuais e objectivos práticos, funcionalidades ideológicas; instrumentos que ainda hoje são utilizados para atingir feitos que, na sua essência, não mudaram senão o absolutamente necessário do devir histórico, das clivagens temporais. Com efeito, «a ilusão de reconstituição integral advém do facto de que os documentos, que nos fornecem as respostas, nos ditam também as perguntas; daí, não somente nos deixam ignorar bastantes coisas, mas ainda nos deixam ignorar que as ignoramos», porque «o conhecimento histórico é traçado sobre o modelo de documentos históricos mutilados; nós não aceitamos passivamente esta mutilação e devemos fazer um esforço para a ver, precisamente porque medimos o que deve ser a história sobre o modelo dos documentos. Nós não abordamos o passado com um questionário preestabelecido […]».

Existiu o idealizado, o respectivo desejo de realização, e o que efectivamente se realizou e se desejou que fosse lido numa determinada ordem funcional de interpretação e de conclusão moral ou política para registo no tempo contemporâneo e no futuro. E existe, depois, o que outra ordem de pensamento crítico procura, na distância temporal e mental de outra contemporaneidade; procurar saber o que de facto aconteceu tendo por interposição os resultados aleatórios ou direccionados da realidade intermédia. Há verdades que vencem e verdades que são esquecidas e se tornam imperscrutáveis, por acção do acaso ou por intenção deliberada. Nunca se transpõe o estádio de uma aproximação à verdade, pois a verdade histórica é numenicamente inapreensível em termos absolutos, uma vez que está dependente de uma selecção casuística ou intencional dos vestígios. Na escrita da história, nada é o tudo que foi, pois o continente do pensado está cercado pelo oceano do possível e do verosímil; não se perder um historiador nesta imensidão é procurar e estabelecer as rotas que se lhe afigurem mais verosímeis segundo uma lógica invisível mas passível, apesar de tudo, de alguma decifração. Alcançar no tempo uma proximidade assinalável ou pelo menos bastante à verdade do que “de facto” aconteceu, devendo compreender a pressuposição do que, em muitos casos, deveria ter acontecido mas não chegou a acontecer, ou aconteceu apenas numa ou em várias parcelas que acabaram por não constituir o todo resultante desejável, tem quase tanto de imaginação plausível quanto de árdua e rigorosa metodologia. Ou seja, a qualidade da crítica e do método, a dificuldade que distingue o historiador perante os vestígios mutilados, porque a questão é esta: «mas como resolver a dificuldade que consiste na existência de aspectos do passado que as fontes nos deixam ignorar e que ignoramos que elas nos deixam ignorar?» Assim, a teoria recua e os escombros do positivismo ressurgem. «A história não comporta o limite de conhecimento nem o mínimo de inteligibilidade e nada do que foi, desde que o foi, é inadmissível. A história não é, portanto, uma ciência; ela não tem por isso menos rigor, mas esse rigor coloca-se ao nível da crítica». Se a verdade não é um dado adquirido, o prazer da crítica é um elogio da lentidão.

 

Citações: Paul VEYNE [n.1930], Como se escreve a história, tradução de António José da Silva Moreira, Lisboa, Edições 70, 1983, pp. 24-25 e 29. [Edição original: Comment on écrit l’histoire, Paris, Éditions du Seuil, 1971.]

 

nada,

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somos o decidido antes
de sermos mais tarde
ferida vertendo instantes
eternidade que nos guarde

está o sol nessa geografia
joga a vida a nosso jeito
e sabemos que morre o dia
coincidindo o sol no peito

em tudo somos mistério
a procura de explicação
é o sangue do eremitério
onde se exangua o coração

todo o tempo é perdido
de razão e circunstância
uma abóbada de sentido
que explicasse a distância

e regressa intacta a manhã
ao espelho lavamos a face
alguma crença lúcida e sã
a salvar-nos do disfarce

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 13 de Junho de 2018