o absoluto desse desespero belo e completo

os momentos a pique e a sós que me dou, sem lugar
verosímil no tempo incessante, são risco de momentos de absoluto no espelho
da noite,
um tapete de fibras entrelaçadas comido aos poucos, uma solidão,
uma casa,
onde existo por empréstimo do acaso. e livros, todos sagrados
por hereges.
em certos e raros dias, quando a banalidade me alcança o pescoço e quero
respirar, com espaço circum-navegante para o tórax, largo
para o parque a observar a arqueologia visível das raízes
das árvores.

uma vaga luz de piano, a acidez do vinho na carne. e vence a letra
da noite.

retrocedemos, deveríamos quebrar o copo na mão, porque era suposto
que a civilização nos salvasse da aridez remanescente – todavia,
o medo ao sangue submerge o método e o futuro, a fome
muda-se irreconhecível, perde o rosto e os cabelos

é noite, é tarde, e basta-me
o absoluto desse desespero belo e completo

 

All-focus
Jorge Muchagato, 19 de Fevereiro de 2018
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demando o impossível e todo o impossível

demando o impossível e todo o impossível de mente se afigura
tão grande tempo, tão fluída luz e tão vasto gosto na púrpura breve
do vinho na língua quando a noite é o barro vagaroso da escultura
eterna da cabeça e da linguagem onde a vida inteira prescreve

na água das horas, na mó interior do torso, nas partículas suspensas
do absoluto revelado pela declinação do sol, pelo gongorismo do fumo
do cigarro sob a lâmpada. fragmentos respiráveis de coisas imensas
mineradas da banalidade entrementes do dia ou da noite a prumo.

demando o impossível e todo o impossível no confronto da taça,
bebendo-a de um único trago, decidido num relâmpago de hausto.
e todavia, abertos os meus braços e os caminhos, feita a devassa…
da averiguação fica a sombra desse impossível demandado e exausto.

 

All-focus
Jorge Muchagato, 19 de Fevereiro de 2018

 

patologia do acaso, diário, 75: Dias recíprocos, terra, corpo e respiração

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Fotografia: Ana Horta

2018, Fevereiro 18. Os dias principiam, recíprocos, com a terra, com o meu corpo e a sua respiração; é o regresso da luz e do calor; os gestos libertam-se do frio. A nudez das árvores torna-se magnífica: de vencida a expectante; chegam os primeiros laivos de fogo ao céu no ocaso todos os dias mais tardio; imperscrutáveis segundos de tempo abertos a buril de luz na atmosfera. O diafragma, o tórax, mineram palavras deste recomeço da vida. Da expectativa dos braços das árvores à suma da noite, a vida reflore, o sangue expande desejo e vontade, a manhã abre o movimento, e tudo, da ínfima descoberta das pálpebras à luz do dia e ao cheiro de ti que ficou na minha pele, me chama em comoção, em dádiva insondável mas existente.

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Fotografia: Ana Horta

Fevereiro, 9. No regresso do sol, a alba me desperta na memória da tua voz livre, certa, grande e doce; da tua voz de braços que me convexam nuca e ombros, entre sorrisos escritos no umbral indefeso da voz, depois da roda do sono que me deste. Um dia límpido com as veias e as artérias das árvores unindo o azul da justificação da atmosfera a que por desespero chamamos céu. [A fotografia das árvores que vês da tua janela.] Fevereiro, 10. Ontem já hoje, quando me deitei, senti diferente o conforto e o calor da cama até agora indistintos na passagem das noites e uma impressão de coincidência com o infinitesimal do universo envolveu o meu corpo protegido do frio e senti leve o diafragma, perfeita a respiração. Fiquei algum tempo acordado ainda na luz vulgar do candeeiro, fora da antiga decisão de ligar a telefonia para adormecer o mais depressa que soubesse. E adormeci com uma ligeireza inesperada, sedento do dia.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 17 de Fevereiro de 2018

do sono é agora e para sempre certa a roda

Ana

 

do sono é agora e para sempre certa a roda e não morrerei
na travessia: cheguei a casa. da respiração convexa dos braços,
do corpo das bocas, dos fluídos da noite rubra e violenta, eu sei,
na pele, na indefensão da voz, que o dia redimirá todos os cansaços

comuns; na víscida união das veias e das artérias, nos olhos do lume
que afundam as unhas no dorso e nos ombros, não morreremos de jura
inerme, antes do abandono inteiro de dormir; o regresso do sol ressume
na rotação do sangue, na explicação do tempo, no cabo da procura.

do sono é agora e para sempre certa a roda: coincidimos na poeira
estelar do universo, na razão nova do infinito encontrado no precipício
da voragem recíproca das mãos, da posse falta de toda a meeira.
sofreria de saudades se algum medo; mas não: és o princípio.

 

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Jorge Muchagato, 8 de Fevereiro de 2018

desço a escultura casual da geometria

desço a escultura casual da geometria, uma ténue vereda
nas paredes irregulares da pedreira, minúsculas arroteias
abertas carne a carne, sulco a sulco; o côncavo me segreda
a passagem sob a abóbada dos dentes brancos das alcateias

que se esfacelam no vazio nocturno do álcool, dos pesadelos,
do silêncio que arremato, grito a grito de som desprovido,
sabedor da clínica fissura no mito do retorno, acenando anelos
sem medo, sem culpa, nu da expectativa de ser absolvido.

desço a escultura casual da geometria, é a verdade a perspectiva
que afunda as linhas na sombra, caídas, sob a velocidade da luz
no infinito do desenho sem princípio. e deponho a púrpura votiva.
a ara virgem, incolor por excesso, e pura. o coração a morte seduz.

 

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Jorge Muchagato, 29 de Janeiro de 2018

 

 

patologia do acaso, diário, 74: Luz calor olhar voz

2018, Fevereiro, 1. Luz calor olhar voz. Tenho para meu uso o ano começar em Abril, é a minha invenção, fora da invenção geral, o meu particular calendário, nem solar nem lunar. O calendário da minha invenção, que estuda o sentido da obscuridade e segue o seu caudal imprevisível, afluente do Hades, como um destino natural inelutável, é marcado pela luz e pelo calor do Sol na pele. Dias e noites, decerto, semanas, meses e anos, mas esse hôrologion, que é oráculo do Tempo, é exterior a mim, ordena o mundo, mas não me ordena o ser. [ sinto o frio da manhã nas mãos enquanto escrevo, mas abri a janela, a luz começa a regressar ]. «Em todo o caos existe um cosmos, em toda a desordem uma secreta ordem»*. O que existe e é certo é apenas a primeira consciência, o destino natural da duração da existência biológica, nascer e morrer. O uso que tenho para mim de o ano começar em Abril é a medida do meu calendário decidido: a luz e o calor do Sol. O Inverno é-me estranho e as suas noites longas tormentosas. Os marcos miliários do meu Tempo decidido são as modulações-uno da luz calor e do olhar e da voz dos tão raros outros recíprocos em mim.

para E. S.

*. Carl Gustav Jung.

 

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Jorge Vieira [1922-1998], «Homem Sol», escultura para a Expo 98, Parque das Nações, 1998. Fotografia: Jorge Muchagato, 19 de Novembro de 2017

patologia do acaso, diário, 73: poesia

2018, Janeiro, madrugada de 31. A poesia é um súbito corpo vivo, lento labiríntico como o percurso das folhas que o vento decepa das árvores, repentino como um relâmpago sem movente; um corpo vivo, pensante, intencional – é a verdade, mesmo quando é um intervalo de mentira entre os actos do simulacro; a poesia é sempre a verdade porque acaba no passado, a última parede depois de terem sido depostos todos os cenários, expostos degraus da escada. O tempo e o riso da degradação hão-de rarear os simulacros e a distância entre os cenários e a parede onde termina o vértice da lâmina do passado e do fim. A poesia – uma dada verdade que sabe a sangue. Toca-a, para descobrires se o gosto que te chega dos dedos à língua é uma boa tinta de cor vermelha-sangria ou se é sangue. Há um certo gosto a metal no sangue: é da morte, o aço das palavras depois da tela.

 

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Jorge Muchagato, Tela, ca.1995

da travessia, reencontro a consciência

da travessia, reencontro a consciência da consciência:
os olhos abrem o entendimento da manhã, a espessura
de um silêncio rochoso, raros cristais de sal e anuência.
subir a pedra, lançar a cabeça enquanto a manhã perdura.

a sabedoria da morte nos levanta para a ígnea impotência
de lançar a cabeça ao dia, corredor obscuro de promessas
de salvação enquanto não chega a noite e a coincidência
do abismo logo após as vistas pintadas, négligé e burgessas.

da travessia, reencontro a consciência; anseia-me a noite a boca,
do mundo inferior a voz, do mundo dos vivos o sangue e as veias;
mas não trago sombra nem me afogo: dos navios aprendi a estopa,
do precipício da mudez o fogo e os frutos, da lisura as ameias.

 

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Jorge Muchagato, Caderno de apontamentos, 1990

mil passos

[ a luz começa a regressar mas o frio ainda cinge o mundo; a noite, porém, é a mesma sempre – um limbo de cabotagem, à vista de palavras, onde conjecturas a salvação do dia antes da passagem pelo sono, travessia indefesa e não ajuramentada. o dia e a noite lado a lado duma origem distante, parabolê; analogia do que realizaste, do que deverias ter feito, do que não alcançaste, até te achares à beira do marco miliário que nenhum caminho te indica, nada te diz a não ser constituir-se, sem piedade, na marca do que passou, mas te reclama contas, só tu sabes que te são pedidas, e que tu és a testemunha de ti mesmo, que nesse limbo de fronteira estás só perante a incerteza e o vazio; é verdade que desejas, crês e te projectas, mas estás à face do nada. podes desenterrar as moedas, mas estás à face do nada; as palavras que procuras para a redenção do dia advêm igualmente dessa fronteira onde te encontras e tal como por ti, também por elas nada poderás a não ser entregares-te ao primitivo desejo da manhã, oriundo do imemorial. ] A maneira e forma como percepcionamos, entendemos, vivemos e moldamos a inexorabilidade que é o tempo é talvez o espelho mais fiel do que somos; [ o tempo é tão pele e vísceras como o ser ] porque estas duas realidades inelutáveis, tempo e ser, se aliam e confrontam, contemporizam e reprimem, permitem e recusam [ o tempo nada decide, mas o ser ] a ambas é comum, ao tempo por espelho, ao ser por acção, a expectativa, o desejo e a vontade, para que não sejas, sempre e por sua vez, nem Sísifo nem Prometeu, considerando, todavia, que é algumas vezes necessário, por aquilo a que chamamos circunstâncias, ou pelos erros, ser um ou ser outro. [ definir o tempo é definir o ser, dar destino a um é dar destino ao outro; e uma enorme rede, verdadeira e alegórica, envenenando-te o tempo envenena-te o ser ] decide a tua liberdade, ousa o teu pensamento – é a primeira vitória do teu futuro.

 

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 26 de Janeiro de 2018

1945, Janeiro, 27: Auschwitz

Janeiro, 27: International Holocaust Remembrance Day

«Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito.»

«Se fôssemos capazes de raciocinar, deveríamos resignar-nos a esta evidência, de que o nosso destino é perfeitamente impossível de conhecer, de que qualquer conjectura é arbitrária e perfeitamente carente de qualquer fundamento real. Mas os homens só muito raramente são capazes de raciocinar, quando o que está em jogo é o seu próprio destino; preferem em todos os casos as posições extremas; por isso, conforme os seus caracteres, entre nós uns convenceram-se imediatamente de que tudo está perdido, que aqui não é possível viver e que o fim é inevitável e próximo; outros convenceram-se de que, apesar da extrema dureza da vida que nos espera, a salvação é provável e não está longe e, se tivermos fé e força, voltaremos a ver as nossas casas e as pessoas amadas. As duas classes, dos pessimistas e dos optimistas, não são porém tão distintas: não porque os agnósticos sejam muitos, mas porque a maioria, sem memória nem coerência, oscila entre as duas posições-limites, conforme o interlocutor e o momento.
Toquei o fundo. Apagar o passado e o futuro aprende-se muito rapidamente, se a necessidade empurra. Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar, a fome crónica desconhecida dos homens livres, que provoca sonhos de noite e se espalha em todos os membros dos nossos corpos; já aprendi a não me deixar roubar, pelo contrário, se encontro algures uma colher, um cordel, um botão que possa apanhar sem perigo de punição, ponho-os no bolso e passo a considerá-los meus de pleno direito. Já apareceram, na sola dos meus pés, as chagas que não saram. Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence: tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite; alguns entre nós têm a pele amarela, outros cinzenta; quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldade em reconhecer-nos.
Tínhamos decidido encontrar-nos, os italianos, todos os domingos à noite num canto do Lager; mas desistimos imediatamente, porque era demasiado triste voltarmos a encontrar-nos cada vez menos numerosos, mais deformados, mais macilentos. E era tão cansativo dar aqueles poucos passos; e, para além disso, reencontrar-nos significaria recordar e pensar, e era melhor não o fazer.»

«Então pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva.»

Primo Levi, Se Isto é um Homem, tradução de Simonetta Cabrita Neto, Lisboa, Teorema, s.d. [2001], pp. 15, 35-36 e 25-26, respectivamente.

 

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«Former prisoners of the “little camp” in Buchenwald», H. Miller / Getty Images.