sótão

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não é possível escrever do lado do verniz
nem manchar a sombra das portas quando a noite adocica o medo

joguei-me ao precipício, joguei aos dados as veias da morte,
as veias da morte e do riso onde apodrecem navios e morrem as raízes do trespasse

os dias apuram a morte de cada vez que há sol e o mar expurga garrafas de vidro
à beira da sombra dos pinheiros bravios torcidos pelo vento na sua direcção contrária
quando o formão corta o ar e abre a morte e o riso revelando o astro secreto
no centro do girassol onde roda o sótão depressivo e um singular vinho rubro

um mapa de sangue, estilhaços da luz, ramos desirmanados da razão
– bebo o declive obscuro das árvores selvagens na areia, antes da indecisão do mar

nesta enseada o mundo se dobra ao gume ensanguentado das palavras
no esmalte dos dentes, no rosto e nas mandíbulas do vermelho da ausência

 

*

Fotografia: Jorge Muchagato, 25 de Setembro de 2017

 

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relâmpago de Verão

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Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.

T. S. Eliot, Quatro Quartetos, 1943*

 

 

por que razão na tua voz, não sei, há um traço
do meu destino; e a noite da mesma forma não me chama
porque a tua voz, lembro-a, me redimiu de um antigo cansaço
e o teu corpo me guardou no abandono da cama

engano-me, e penso, em momentos certos, que voltarás: o teu corpo existe
nos lençóis onde não vingou a intimidade última, indefesa, do sono;
a minha pele persiste
nesse relâmpago de Verão imune a toda a forma de Outono

 

 

* T. S. Eliot (1888-1965), «Quatro Quartetos», (1943), tradução de Gualter Cunha, in Poemas Escolhidos, Lisboa, Relógio d’Água, 2016, p. 151.

 

*

Fotografia: Jorge Muchagato, 2017

eroticon XXIX: em cada manhã vítrea que passa no cânone do mundo

nas singulares albas que a terra consuma no cânone do mundo, em cada noite
que a distância aflige a mútua pele reclamada, a expectante manhã revenida fica
neste viver a par que dobra o tempo – sobrepõem-se as horas
de acordar e de dormir, o chá, as imagens, as espadas de São Jorge, a sua projecção
solar sobre as páginas do caderno-devir, penso
: é bom ter sobrevivido

pormenores possíveis de buril no ácido da longitude,
a utopia de uma conjura do universo cresce
dos fluídos da voz

em cada manhã vítrea que passa no cânone do mundo
o reflexo

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 2017

 

eroticon XXVIII: para o lado da terra e do ponto de fuga

quando a realidade se encastoar na coincidência última dos nossos corpos
e transpusermos, para o lado da terra e do ponto de fuga, o contorno do precipício,
chegaremos ao ser, ao magma do silêncio, aos ossos das palavras
encarnados

 

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Ernst Ludwig Kirchner [1880-1938], Liebespaar VI [Os Amantes VI], 1911, litografia, 16,8 x 21,9 cm, Hamburgo, Hauswedell & Nolte

eroticon XXVII: estrada, dádiva e morte

toma-me inteiro
: veias e artérias sinuosas assaltadas de sangue; pele, sexo e mãos transidos; pés, músculos e olhos sobrevindos de uma palavra; boca, voz e silêncio sequiosos dos poros do lume; instinto e pensamento;
intuição, obscuridade e sonhos desavindos de utopias; luz, impaciência e melancolia trespassados de labirinto; visível e invisível
toma-me inteiro
: carne e tecidos do teu destino; mas toma-me na desordenança do risco do precipício onde
a estrada, a dádiva e a morte são o princípio e o fim – se eu naufragar no vazio mudo de eco, do meu corpo crescerão raízes febris de vertigem, mas do teu corpo a ave
toma-me inteiro eu-teu, esse teu voo nu e livre de desespero, de confusão e de frio

habitas-me, sem eterno nem retorno; és-me a pele, a carne contracta do prazer e da dor, da expectativa e do sofrimento; o movimento e a perspectiva; língua, crua devassidão, palavras e anima densidade; temeridade e razão;
certeza veníflua e desejo, fogo e escuridão; o que sei e o que não sei

toma-me inteiro
: a voz denuncia-me, veredicto interior e consanguíneo, carnário, sedento, na manhã e no umbral da noite

caminhamos para o precipício, dizes-me – é a verdade:
subir a pedra, vencer-lhe o perfil que nos sonega o ar, alcançar a terra

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 2017

eroticon XXVI: da vida tangível

traves de cinza sustêm o halo da terra, vaga névoa, é a morte que sobe e volteia
nos trilhos invisíveis  e contraditórios, que ascendem das folhas das árvores, das ervas,
a morte e o frio
condenam o pó quente da estrada à humidade onde o sol fenece; a morte exumada da areia,
a luz desfeita do horizonte

teço nos dedos, hoje, os ínfimos detalhes da melancolia da tua falta que nunca chegou
ao ser da falta; hoje, manhã – criámos uma mitologia da manhã, uma mitologia da noite
ao mesmo tempo que nos matávamos negando o retorno
da carne viva e recíproca

(o teu olhar exala a verdade que as palavras ocultam ou adiam)

cultuamos a manhã, mas nunca existiu qualquer manhã,
persistimos na fábula, numa história bela e elevada, prometida e repleta de omissões, e morta

iludo o tempo e a geografia numa guerra infrutuosa, destruo-me enviando-te a intimidade da minha face,
na cama, turgida da travessia do sono, e de entre os despojos,
quando a luz, descendo,
começar a tactear a noite e a reflectir-se nas lombadas dos livros, a tua falta trespassa o ocaso
nas espadas de São Jorge que estão sobre a mesa de madeira negra onde escrevo o meu desejo de ti

eu sei a realidade que bebo a cada íntima fracção das horas encobertas, a devastação que ergo,
a tua existência descarnada – e não
não me basta a poesia do sangue nem da respiração impregnada de ti até ao chão do difragma

a manhã é a repetição estéril de uma palavra

o que somos é difuso e repleto de aspas – tudo
mito e medo, sagacidade; todavia a lâmina
da distância cessou

espero-te numa espécie de só
minha condição humana; de outro modo tivessem que me drenar o sangue como se dragam os rios e as lagoas

tenho dias em que a tua falta me oprime o peito, um bloco de mármore tosco, arrancado à súmula da terra;
uma pedra imune ao porvir, veios cinzentos e violáceos, perfeita
imóvel e desprovida de sofrimento

da realidade não temi a taça efabulada e bebi,
tomei a faca para a incisão no pulso e a catarse do sangue, o trágico prazer do sangue próprio
e sei que nem a taça nem o pulso auguram uma forma plausível de regresso

as palavras do meu combate ao tempo, à geografia e às circunstâncias impassíveis aguardam
a derrota,
estão húmidas de semente derramada, inútil

a sombra da matéria dos mitos orienta-se para a destruição inelutável – a condição
da vida tangível

 

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Fotografia: Espadas de São Jorge (Sansevieria trifasciata), Jorge Muchagato, 2017

 

Os lobos iluminados

Respira-se e exala-se ansiedade, conformidade e sobretudo tristeza dissimulada, numa vivência semelhante à que é proporcionada pelas drogas e posologias antidepressivas: um corpo que se sabe angustiado mas que não sente essa própria angústia; uma tormenta adormecida, uma tempestade domesticada. Mas os tormentos adormecem quando encontram a sua resolução e as tempestades não passam senão depois de consumadas, depois de explodirem. Toda esta violência latente satura o ambiente concentracionário que se vive dentro de um centro comercial e de tal forma é densa que todos a ignoram, assim como ignoram ou esquecem a respectiva agressão. As crianças não conseguem o alheamento, a indiferença ou a resistência a este poderoso hipnotismo agressor. A arquitectura de um centro comercial é logo, nos seus alicerces funcionais, uma realização psicológica antes de ser uma empreitada material; arquitectura e decoração obedecem a padrões de envenenamento da vontade e, por consequência, de submissão, mas de uma benéfica submissão coroada e compensada pelo consumo até ao cêntimo. O ar parece adquirir a tensão extrema que antecede o estalo incerto e fulminante que percorre em desordem uma superfície de vidro resistente; o estilhaço imediato de um vidro de janela ou de uma superfície de porcelana; a poeira quase invisível que se liberta do barro partido. Essa tensão extrema nunca se concretiza nesta realidade artificial que é o interior, mais ou menos labiríntico, de um centro comercial. Quando as luzes se apagam, o silêncio que substitui a tensão psicológica habitada, assemelha-se ao silêncio devastador que cai sobre os despojos de uma guerra, onde ninguém morreu, mas a maior parte foi desapossada de dinheiro e de uma parte de si mesma; uma parte que diz respeito à autonomia da vontade, à liberdade de pensar, ao domínio das paixões. É a realidade dos lobos iluminados onde predomina a depredação que, protegida e defendida, faz exaurir a verdadeira realidade da vida vivida. Daqui, não se regressa para a realidade mas para a escola; se é assim, a escola é uma ilha defesa da realidade – tudo, enfim, como diz o anúncio luminoso de uma loja de roupa, está em concordância. Fora da realidade, a escola não pode ser o que mais ameaça o actual status quo extremo do capitalismo – a libertação pelo conhecimento.

 

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Fotografia: letreiro luminoso em montra de loja de roupa, Jorge Muchagato, 18 de Setembro de 2017

 

«Mas julgava ter já dedicado bastante tempo às línguas, assim como à leitura dos livros antigos, às suas histórias e fábulas. Pois é quase o mesmo conversar com as pessoas dos outros séculos como viajar. É bom saber alguma coisa dos costumes dos diversos povos, a fim de julgar mais rectamente os nossos, e para que não pensemos que tudo o que é contra as nossas modas é ridículo e contra a razão, assim como costumam fazer os que nada viram. Mas, quando se gasta demasiado tempo a viajar, acaba-se por ser estrangeiro no próprio país; e quando se é obsessivamente curioso das coisas que se faziam nos séculos passados, fica-se ordinariamente muito ignorante das que se praticam no presente. Além de que as fábulas fazem imaginar, como possíveis, muitos acontecimentos que o não são; e que até as histórias mais fiéis, embora não alterem nem aumentem o valor das coisas, para as tornar mais dignas de serem lidas, pelo menos omitem quase sempre as mais baixas e menos ilustres circunstâncias: donde resulta que o resto não pareça tal qual é, e que os que regulam os costumes pelos exemplos que delas tiram estão sujeitos a cair nas extravagâncias dos Paladinos dos nossos romances e a conceber projectos que excedem as suas forças.» – René Descartes (1596-1650), Discurso do Método, introdução e notas de Étienne Gilson, tradução de João Gama, Lisboa, Edições 70, 2016, pp. 12-13.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Agosto de 2017

 

Quando foi, onde foi, que no caminho nos esquecemos da importância de saber alguma coisa acerca dos outros, pessoas, comunidades, povos; que menosprezámos a sabedoria de nos criticarmos; que nos aproximámos de pessoas tão certas que nada viram; que nos deixámos dominar por falsas fábulas puras destituídas de toda a lição moral; quando foi, onde foi, que nos tornámos estrangeiros na nossa própria humanidade?

 

terra morta

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Fotografia: Jorge Muchagato, 17 de Setembro de 2017

 

 

os dias caem mais cedo,
o céu, que não existe, morre na brevidade de expectativas agonizantes,
a benevolência do primeiro frio é falsa

(esquece-me, mas não como se eu tivesse morrido; se me esqueceres
nessa fronteira eu continuarei a existir; não.)

quando levantamos o rosto é tudo uma ruína, um inevitável regresso
à devastação

(não.)

eroticon XXV: ser, primeiro gesto, primeiro frio

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Balthasar Klossowski de Rola, dito Balthus [1908-2001], Les Beaux Jours, 1944-1946, óleo sobre tela, 140 x 199 cm, Washington, Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Smithonian Institution, The Joseph H. Hirshhorn Foundation

 

vem
: esperaram tanto os meus braços para esse primeiro gesto
de perfeita coincidência dos nossos corpos – o abraço onde a manhã
começará, a primeira
intimidade dos nossos sentidos, a primeira linguagem real
na confirmação do olhar, no sorriso da boca, no consolo da pele, na mudez viva das mãos,
um silêncio puro, completo, absolutamente expectante
vem
eu darei ao teu caos inexplicável, ao teu frio sem razão, o meu calor inteiro
: talvez possamos salvar-nos juntos, beijar feridas fora da ambição da cura
– somente cuidá-las no conhecimento da pele, pode suceder
que as esqueçamos ou que elas se exilem
dos nossos dias e noites, da luz do ocaso que inunda esta casa;
acenderemos a lareira quando chegar o primeiro frio, dormiremos abraçados nus à beira do fogo
vem
para que possamos ser corpo

eroticon XXIV: transfiguração

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Fotografia: Man Ray [1890-1976], 1930

 

no cabo de você ter chegado – todo o tempo transfigurado em manhã;
quero o seu abraço, a força do seu corpo e dos seus braços enlaçando-me
para que a matéria da sua presença sob a minha pele
passe a carne, as veias, as artérias, e se una ao meu sangue,
alcance a língua – quero o gosto de si e da sua pele

você está no movimento sobrevivente do meu peito, na fonte
da respiração que o dilata e o torna a afogar e eu não sei explicar,
nem traduzir esta realidade sob-pele;
não alcanço mais do que escrever-lhe que você está
além da poesia, esta minha vingança sobre a sua falta

você dói-me quando chegam as horas do uno,
a noite antes da travessia, a luz da manhã, o tumulto do desejo e a sua confirmação
– o calor, o cheiro do meu próprio sexo, o suor

a intimidade da água do banho me lavava o corpo;
agora me descobre a nudez, a desperta, a abençoa de profanidade
até que por fim você

 

8 de Abril de 2016