pinhole

DSC04250 - Cópia

 

 

 

o veneno das ruas, a luz e o calor do sol,
eu que me penso: eu, e eu à face de mim
em torno, alguma ponte dentro da realidade
no papel de arroz do mundo.
cabeça de melancolia, gestos de vagamundo,
palavras de pescoço no tempo de uma pinhole.
beber a luz e o calor do sol, de cotovelos no varandim,
livre e longe da traficada régua da cidade

o sangue reflui, não se afigura o corpo do promontório,
é difusa a distância do quadro à praia. naufrágios, destroços
sangrados pelo nevoeiro denso que descende
a película da realidade e a fende.
o mapa enlaçado nos tojos é um desenho aleatório.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Janeiro de 2018

Anúncios

anti-memória

1947ca_Fay_SLFound

 

 

a língua dos gestos; se eu conhecesse as palavras,
escolheria o pólen do silêncio e esperaria, absoluta nudez,
o vento que o dissolve na atmosfera e confere razão ao nada;
aportaria na tua boca,
no sal do teu suor de fêmea,
na tua voz indefesa de palavras.

 

 

Fotografia: Saul Leiter [1923-2013], Fay, ca. 1947. Saul Leiter Fountation, New York.

 

os corvos a norte

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, madrugada de 15 de Junho de 2018

 

 

 

o sol declara, a sombra escreve:
na parede, os veios das tábuas,
anéis invisíveis na cofragem do betão.
e, dentro, as linhas do ferro invencível à terra.
a matéria morta.
a face perfeita, absorta,
da lúcida mudez das águas
a corroer o útero indiscernível da guerra
e as evidências do não

grasnam corvos; das suas asas
deslizam, suaves, perdidos no ar, átomos
que o sémen da escuridão fecunda.

pó de carvão, grasnam os corvos
a norte
do sol.

 

 

não, apesar

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, Casa da Cultura / Céu de Vidro, 14 de Junho de 2018

 

 

 

os cães ladram no invisível da noite, os seus latidos tocam a música que agora ouço
enquanto desço aos fundamentos do silêncio; afastaram-se, os cães, não conhecem
o Nada que seduz a noite. passaram, derrotados pela mudez do eco. os cães não têm culpa nem pescoço.
os cães não precisam de existir e no entanto (ladram de novo) não esquecem.

chove, a velha do andar de baixo fecha sem pudor as janelas da marquise
de uma varanda horrível e desperdiçada. desço pela minha respiração.
não estou, apesar.

finis ermo

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 17 de Junho de 2018

 

 

a minha solidão tem a idade da minha pele
nos seus minúsculos abismos naturais revelados pelo movimento;
é antes da matéria da palavra, num longe que afivele
todas as cintilações da escuridão

feita das cinzas da expectativa, da pele fugidia da noite, de ocasos
rubros, rasos de esplendor, de simulacros e subterfúgios;
um céu encarnado de Verão sem caminhos ínvios nem refúgios,
só um chão para a dor da cabeça que a terra cinzele.

virei as costas ao mar perante a forma que o mar tinha.

 

 

o teu nome

69 - Cópia
Fotografia [editada] : Augusto Cabrita, 1971. Capa do disco Amália & Don Byas, 1973

 

só,
o teu perfil é o teu nome.
sob a noite, o sopro do vento nas folhas que coroam os ramos.
coroas de sol, coroas da fome,
desta falta tua que nos ficou no sangue: é onde estamos.

só,
é tudo tão só; o dia, a noite, a tarde, o aquém – é esse o teu epítome

só o teu perfil é o teu nome
e a tua voz
quando somos contigo sós
é a nossa fome
o nosso sempre
o nosso ser o teu nome.

madrugada de 15 de Junho de 2018

 

aquém: do poema de Mário de Sá-Carneiro [1890-1916], Quasi, primeira e última quadra, Paris, Maio de 1913.

All-focus

 

«Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…»

Mário de Sá-Carneiro, Poemas Completos, edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996, pp. 42-43.

 

«Outro dos meus poetas preferidos é o Mário de Sá-Carneiro. Aquele se ao menos permanecesse aquém, para mim, dá-me cabo da cabeça. Aqui é que está o drama todo. Se não déssemos pelas coisas, não havia drama. Ainda pensei muito cantar o Quase, mas não tive quem me fizesse uma música que me agradasse e não era capaz de meter o Mário de Sá-Carneiro em qualquer fado clássico.»

Vítor Pavão dos Santos, Amália. Uma Biografia, Lisboa, Editorial Presença, 2005, p. 142. Na edição original, Lisboa, Contexto, 1987, pp. 154 e 156.

por mais longe que tenha ido, fado

77
Fotografia: Mísia, por C.B Aragão [reproduzida do perfil da cantora na rede social FB]

 

 

 

«Como se extrañan las noches sin estrelas»

Armando Manzanero*

 

 

por mais longe que tenha ido,
regresso à noite que me abre os braços na tua voz
e quebra a ausência no osso que é no mar a casca da noz

por mais longe que tenha ido,
a luz do sol trespassa o véu que antecede o deserto
e bebo o vinho rubro da toada de um destino incerto

por mais longe que tenha ido,
sou conforme ao naufrágio, conforme à praia que vier,
pois regresso ao coração da noite que a tua voz me der

 

2014 e 11 de Junho de 2018

 

 

* Verso do poema da canção  «Te Extraño» (Armando Manzanero), com José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola de fado), Luís Cunha (violino) e Ricardo Dias (piano), do disco Drama Box, Acqua Records, 2005.

 

 

patologia do acaso, diário, 95: Esse penhor

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 25 de Abril de 2018

 

 

 

«a vida de tudo quanto vive
é penhor do Nada.
o mundo que agora une
amanhã apartará.
a vida dá-nos o Hoje para nos aproximar
e a Eternidade para a separação.
possui acaso o rei o mistério da morte?
o seu poder evita o transe do destino?»

Ibn Darrâj al-Qastallî [948-1030], in Adalberto Alves, O meu coração é árabe, 3.ª edição revista e aumentada, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 163.

 

 

2018, Junho, 11. Esse penhor. O Hoje carece de tempo porque nada mais temos que seja tão inteiramente nosso, porque sobre nada mais temos uma posse que seja tão absoluta, tão decisiva, tão livre; e no entanto, consuma-se pela mesma razão de existir, sem nos exigir contas (Séneca). É um longo aguilhão dirigido ao nosso pensamento e do qual apenas na dor do tempo que passa nos lembramos porque por qualquer estímulo exterior nos fere no indomável do que somos; uma palavra, uma cor, um objecto, um qualquer tudo ou um qualquer nada no-lo recorda. O Hoje carece de tempo para que consigamos pensar, existir fazendo jus ao movimento de estar vivo; o Hoje carece da lentidão que nos é roubada, sugada por esse infindável poço negro de um progresso apenas superficial e destinado a matar em nós a consciência desse «penhor do Nada» que somos. Esse «penhor do Nada» não nos pede contas, justificações, desculpas; por isso nos amachuca quando nos lembramos que essas contas são devidas, de facto, mas a nós mesmos e ao que nos é dado para nos aproximarmos. Todavia – comércio destes tempos tão mais cadavéricos do que sorridentes e prometedores – o Hoje que nos fabricam a cada instante, nos afasta de tudo o que nos pode resgatar esse penhor; não é aconselhável que nos aproximemos no esplendor da nossa nudez. Assim, cada vez mais «É prudente o silêncio / De quem só sabe sonhar»*. Mas a realidade continua a ser o que fazemos dela, e esse fazer exige um sofrimento cada dia maior – não é um golpe na carne, é uma dor no ser-se. Por conseguinte, o esplendor da idade significa hoje uma abjecta velhice, ou, talvez pior do que essa condenação, um ser-se fora do seu tempo. Somos despojados, «por conveniente urgência de serviço» do natural sentimento de pertença ao tempo e ao seu movimento. Neste Hoje, aos cinquenta anos, é-se dado como imprestável para o movimento do tempo em vigor, para a sociedade, para o totalitarismo do consumo dos centésimos do momento. Todos ligados a tudo e a todos e todos perdidos. É isso, todavia, o requerido – para que esqueçamos o penhor, a aproximação, a miríade «do que agora une [e] amanhã apartará». O Hoje carece de pensamento e a natureza do pensar carece de tempo, carece do fermento da lentidão. Ontem, exausto, fui dormir cedo, a cinza asfixiante do dia ainda existia, eram oito horas e meia da tarde. Dormi doze horas. Tomei o pequeno-almoço, o café, fumei o primeiro cigarro do dia, os medicamentos, entretanto a minha mãe telefonou e no termo da conversa disse-me «um beijo grande meu menino, até logo, bom trabalho, cuida de ti».

 

* Versos do poema do fado Asas Fechadas (Luís de Macedo / Alain Oulman), cantado por Amália Rodrigues. No disco Amália Rodrigues, com José Nunes (guitarra) e Castro Mota (viola), EMI / Columbia, 1962. Luís de Macedo era o pseudónimo de Luís Chaves de Oliveira [1925-1987], poeta do grupo da Távola Redonda, adido cultural da Embaixada de Portugal em Paris.