patologia do acaso, diário, 60: Uma divisão fechada da casa

2017, Dezembro, 9. Uma divisão fechada da casa. Neste intervalo do tempo em que a normalidade no mundo adquire a patina de uma realidade inverosímil sedenta de ansiolíticos e a que os artilheiros do consumo chamam, de mãos postas, a «quadra natalícia»; nesta invenção não documentada que se sobrepõe ao natural solstício de Inverno, a verdade muitas vezes involuntariamente emerge da maçada da obrigação e torna-se audível. Na livraria, enquanto olho as lombadas dos livros, oiço, duma voz feminina e jovem, «Ele gosta de coisas fascistas». Reparo que o acompanhante da rapariga, depois de constatar, «Ah, para o teu cunhado…», logo lança mão de uma biografia de Hitler. «Ele do Hitler não gosta assim muito, gosta mais é do Salazar», particulariza ela. No movimento de me afastar para outra secção temática da livraria, olhei sem pudor, e constatei que tinham idade para poderem ser meus filhos; eu, que tenho a idade daqueles para os quais foi sonhada a nova sociedade que se desejava construir a partir de um golpe militar e de uma revolução, hoje tão longínquos quanto tudo o que está registado, para ser “fixado”, num manual escolar da mal-aventurada disciplina de História.

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Fotografia: Alfredo Cunha, Lisboa, 1974
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patologia do acaso, diário, 59: Morte, história e sociedade

2017, Dezembro, 8. Morte, história e sociedade. Tão longa como a morte é a história; a justa importância que a ambas é devida releva da naturalidade das suas presenças. A naturalidade destas presenças que se enlaçam, que se aliam e se combatem, indica o nível civilizacional de uma sociedade e permite aferir, nos tempos que transcorrem, do pensamento primitivo alojado sob o feérico relacional de cada nível tecnológico que define o lugar do humano. A relação que instituímos com a morte e com a história define a destruição a que poderemos propor-nos na sequência das intencionais vagas de alienação que nos cercam.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 4 de Novembro de 2017

alba

a mudez descende, morosa das veias reverbera a púrpura de um silêncio suicidário
é a alba
as palavras recuam e desmembram-se no refluxo da poeira – não é o mar, nem são os rios e as suas fronteiras,
são as artérias, os tecidos, os músculos – é o corpo e o pensar,
a pele, o sexo e a boca,
a alba que transpira das paredes da noite;
a memória é falada do sangue de um corte repentino, o esquecimento
é uma realidade irrealizável e
no feroz, imponderado desconhecido do inconsciente, resta
a violência da indiferença no cosmos instituído,
um risco de perspicácia que dome a vulgaridade e a dor impressa pelo menos
em alto-relevo

somos tão-somente unhas quebradas no mármore dos presságios,
miseráveis platónicos no abandono da rotação da Terra

o ser descende, tudo descende no sentido
da alba

adormecida onde nos matamos uma noite por outra
no devir da manhã

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 4 de Novembro de 2017

Fascínio da história, fascínio pela história: um apontamento

O fascínio da história permanece e permanecerá incólume, porque o homem não está fora do seu passado; e o passado, tal como a morte, são tão longos como a própria consciência, uma vez que se constituem enquanto um método de conhecimento. É inato ao passado e à morte uma propriedade cognoscente que os torna legíveis. Coisa diferente é o fascínio pela história, que pode pressupor, não um regresso ao passado, mas um regresso do passado, cíclico e sempre diferente porque o tempo impõe as suas propriedades e as suas circunstâncias. O regresso ao passado é inverosímil, não por alguma forma de desejo, mas porque na natureza desse desejo está logo implícito o seu fim. A arte, nas formas, ou estilos, diversos de desesperos que foram os revivalismos de variadas expressões que sublimaram a sensibilidade romântica, demonstrou essa impossibilidade, esse desejo, que tão útil foi para a praxis ideológica, mas desde o começo condenado à morte pela escala e pela reescrita das formas. De facto, a formulação do historiador italiano Giulio Carlo Argan continua a ser a melhor, dado que parte de um princípio ineludível: «La storia è “catártica” próprio perche ci assicura che il passato è passato e non può ripeterse o rivivere, non essendovi ragione di riesperire l’esperito: dandoci l’esperienza, ma liberandoci dal complesso del passato, conferma la pienezza della nostra reponsabilità nei confronti com del presente. Il revival, al contrario, rifugge dal giudizio, nega la separazione tra la dimensione del passato e quella del presente e del futuro, pone l avita come un continuo che non può mai dirsi compiutamente esperito: la memoria del passato agisce sul presente come motivazione incônscia; sollecitazione a un fare che, in sostanza, è anzitutto un vivere. Il passato, che nella storia è pensato, nel revival è agito; ma rimane da vedere se quel non poter vivere se non revivendo non nasconda una fondamentale incapacità o non-volontà di vivere». Porque, numa verdade que transcende a arte, continua Argan, a propósito dos revivalismos que sobretudo conhecemos nas realizações arquitectónicas, esses desejos sobre a arte e o passado «non mirano a restaurare nulla perché il retorno al passato è evasione e non recupero di valori» no contexto tão belo quanto decadente de uma «sospirata resurrezione dell’arte». O que Argan escreveu há mais de quarenta anos acerca das profícuas realizações revivalistas do século XIX e do início do século XX, serve também para pensarmos o lugar epistemológico que tem hoje o ensino e a escrita da história, a diferença e a distância que se verifica entre o inextinguível fascínio da história e o problemático fascínio pela história: «[os revivalismos] Non predicano un retorno al passato, ma annunciano profeticamente il retorno del passato: un retorno quasi independente dalla volontà e dalle scelte umane. L’attività che promuove il revival è la memoria, ma la memoria non è che un processo dell’immaginazione: e poichè l’attività operativa che dipende dall’immaginazione è l’arte, ecco che i revivals si manifestano nell’arte, se puré non è la prassi dissueta dell’arte che evoca e rianima le pallide immagini del passato». E esta teoria de Argan poderia levar-nos agora a pensar, com a demora que mereceria, nas antigas mas muito actuais considerações de Paul Veyne que não considera a história uma ciência nem lhe reconhece um método, mas sim uma narrativa e como todas as narrativas é também, em certa medida, uma realização da imaginação e da arte do historiador, pois, disse-o Marrou com toda a razão, «a heurística é uma arte». O problema, hoje, é compreender qual a natureza e as propriedades do triunfante fascínio pela história (ou pelo passado) nas actuais condições a que não é estranho, em diversos meios e registos, um entendimento marcado por matizes censórias e conceptualmente fátuo da história e da história da arte e, ainda (ou sobretudo), pensar a relação não resolvida dos Portugueses com o seu passado próximo e distante. A história escreve-se a partir de conceitos e a qualidade da aproximação à verdade, que é uma qualidade cultural e vivencial, raramente tende a confirmar a segurança conquistada pelo status quo.

*

Referências: Giulio Carlo Argan [1909-1992], «Il Revival», in Il Revival, a cura di Giulio Carlo Argan, Milano, Gabriele Mazzotta Editore, 1974, pp. 7-33; Paul Veyne [n.1930], Comment on écrit l’histoire, Paris, Éditions du Seuil, 1971 [edição portuguesa: Como se escreve a história, tradução de António José da Silva Moreira, Lisboa, Edições 70, 1983]; Henri-Irenée Marrou [1904-1977], De la connaissance historique, Paris, Éditions du Seuil, 1954, 7e. édition, 1975 [edição portuguesa da 7.ª edição francesa: Do conhecimento histórico, tradução de Ruy Belo, Lisboa, Editorial Aster, 1976].

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 11 de Agosto de 2017

 

consideração sobre a passagem da morte

é a morte que define a vida – corpo do anátema do tempo; é a morte
e tudo o mais é uma piedosa filosofia do desengano que [que]
a procura, montanhando o silêncio do ar – sedimenta e assoreia
é a morte que nos obriga; é a morte que incide, fere, corta e agrega

a morte é longa

[que]
[parece que o pai não morreu, que vai voltar do hospital]

não pertence a qualquer deus o pormenor – mas à morte

a morte é longa
e por conseguinte nos salva

[que]

não sabemos, exigimos
a demasia
[da conta]

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 29 de Agosto de 2017

uma cisterna a meio do mar

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todos os dias, na maré do prisma óptico que denuncia a rotação da luz, todos os dias
antes do frio e da aportação das aves, no primeiro movimento
de escalar a minúscula redondez das pedras negras do silêncio, sei
que o pior é a noite e as suas involuntárias aberturas cegas, quando
a seiva dos meus sonhos quebra o riso das carrancas e me jogo aos dados
do precipício

de todos os dias, a verdade é a noite e a sua acurada, silenciosa depressão terrosa – o amor-ódio-
-desespero-amor da noite, quando as janelas e as portas cegas
justificam e douram as tesselas de um exílio tão procurado como a decisão dos tijolos
nas portas e nas janelas

não ousarei afirmar que essa decisão é inverosímil, pois não se talham as pedras
da fortaleza sem lhe calcular a cisterna

todos os dias a noite incide a prumo no meio do mar
todos os dias acordo a meio do mar

 

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Fotografias: Jorge Muchagato, 28 de Novembro de 2017

 

 

patologia do acaso, diário, 58: História e linguagem, uma reflexão nocturna

2017, Novembro, 27. História e linguagem, uma reflexão nocturna. O conceito polimórfico de novum conforme o seu sentido proporcional numa ideia e que, assim, não se limita a significar novo, mas também aquilo que é insólito, extraordinário, desconhecido, desusado, maravilhoso, estranho, singular, algo sem precedente, e até, num sentido mais raro, outro, parece ter desaparecido, à medida que a inabilidade para lidar operacionalmente com conceitos é a cada dia mais evidente. É provável que a complexidade intelectual e emocional da vida humana tenha sido remetida para um esconso da existência pela complexidade da técnica e pelas possibilidades da realidade virtual e da inteligência artificial. A realidade desse sótão fechado, a cada dia mais esquecido, e portanto a cada dia mais longínquo, é paradoxal: facilita a adaptação à velocidade contemporânea do mundo, permitirá o sucesso, a exposição seguida mas demasiado efémera, mas enraíza a fragilidade humana perante a sua mais poderosa invenção: a linguagem. À medida que este código perene retrocede para limites considerados trôpegos e desadequados, o novo código da ligação online total, que requere perícia mas desvaloriza o fundamento conceptual e relacional da linguagem, progride como paradigma de uma contemporaneidade sem precedentes. A conceptualização da história está a desligar-se da importância fundamental do precedente: o passado tornou-se irreconhecível devido à desvalorização completa, e considerada adequada, da funcionalidade da mimesis e do referente, porque o exemplo perdeu igualmente a sua dimensão pedagógica, por concordância ou por oposição. Sem o lugar aferidor da precedência, o futuro torna-se imprevisível, transforma-se num vazio pronto a ser utilizado sem limitações, porque a linguagem já não serve. Ao enfraquecimento conceptual da linguagem corresponde o império da imagem, que é até, uma realidade bastante antiga; sucede agora que o seu valor pedagógico numa sociedade iletrada como era a da Idade Média e em boa parte a da Idade Moderna, desapareceu porque a ideologia política e religiosa que a sustentava e reproduzia também desapareceu. Este império da imagem não tem propósitos pedagógicos e é, antes, uma reformulação da chamada política da terra queimada por parte dos novos demiurgos, incultos, mas bem sucedidos e cujo estatuto técnico é reconhecido e convertido em modelo de sucesso. A manipulação vampiriza os conceitos que vivem da linguagem; sem conceitos o que existe é o deserto e aí tudo se torna numa questão de vida ou de morte, de vencer ou de perecer, em termos radicais, sem condições. Por isso, apesar das redes, ou precisamente por causa das redes, a invisibilidade expande-se e a manipulação não encontra oposição nem contraditório. Numa sociedade de humanos invisibilizados tudo é possível e toda a exigência, considerada retrógrada, é desgastada com convicção. E assim, talvez a o desafio e a interpelação do estado actual do mundo não seja, ao invés do que se pensa, a técnica nem a virtualidade, mas a linguagem, porque o uso da linguagem requer o domínio de conceitos e se esta foi a maior invenção da Humanidade, foi igualmente o lugar mais fértil da sua reinvenção, o lugar de toda a inovação. Sem linguagem não existe decifração, não existe mundo, não existe realidade. «Quem tem boca vai a Roma», dizia-se, mas não é para Roma, a real ou a metafórica, que hoje todos os caminhos se direccionam. Mas sempre existiram estradas destinadas a não terminar em Roma, e continuarão a existir, assim persistam aqueles que sabem perguntar, dado que ousar uma pergunta pressupõe a condição de se aguentar uma resposta, seja ela qual for.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Agosto de 2017, a partir da capa de Tábuas dos Roteiros da Índia de D. João de Castro. Códice 33 da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, com Introdução por Luís de Albuquerque, Lisboa, Edições Inapa, 1988.

patologia do acaso, diário, 57: A tarde moveu-se um pouco mais

2016, Junho, 28. A tarde moveu-se um pouco mais. A rapariga caminhava como se rasgasse o ar respirado e o fendesse com a mesma decisão regeneradora com que se destrói uma folha de papel manuscrita, num gesto único e irreparável. A saia comprida e ampla arredondava os passos decididos e o seu andar vestido poderia ser uma dança convexa e encriptada, uma dança imponderada e oculta. A sombra das casas, derrubada sobre o quiosque do café, as mesas e as cadeiras e uma parte da praça, expandia-se com lentidão na agonia tépida dos últimos dias de Junho. O silêncio começava a devastar a cidade e abria o descampado para a indistinção da noite. A rapariga caminhava numa combustão de liberdade que decerto não desconhecia, assim como não lhe era estranho o erotismo natural da liberdade, movia-a, de facto; tinha a consciência sexual da sua pele porque a beleza não sublime que irradiava sobrepunha-se à agressão calculada do seu cabelo cortado ao centímetro e dos seus pés descalços. Trazia um cão pela trela, o seu aviso aos homens. Ela nunca será a gaja em que algumas mulheres se transformam sem nunca se transfigurarem e o homem que a tome passará pela submissa e voluntária provação de alguma forma de escravatura. É provável que a cidade sofra a ilusão de a ter enclausurado na loucura a que condena os artistas a salvarem-se de si próprios. Esta constatação conferia àquela rapariga e à sua liberdade uma singular nobreza selvagem. Numa pequena parcela da praça, subjugava a vulgaridade urbana. A tarde moveu-se um pouco mais. Quando voltei a passar pelo mesmo recanto da praça, breves minutos depois, a rapariga estava sentada a uma das mesas do quiosque, com outras pessoas, olhei de novo sem pudor, mas já não foi possível ver-lhe os pés nus.

 

Eros e Tánatos, carne contra-divina

a noite oblíqua aceita o mar que abençoa a madeira do naufrágio
os corvos da madrugada dentro do crânio, e essa luz rara e vibrante
da manhã que nunca eclodiu, artérias frementes vazando
o sangue na linha movente do sal da praia onde morre o sol do presságio

o cerco da sombra define as paredes, mudez de ícaro nos calcanhares
mareando no perfil negro das árvores uma obscuridade viva e suave
consentida pelos vidros da lua onde o livre sulco da claridade, a queimada
expande – não sara o golpe da tua face, corte não resolvido de asfixiados avatares

sob o lácteo silêncio astral, a poeira insentida da tua passagem é a ruína
de uma falsa cidade, de um imaginário de vales, montanhas e caminhos de rega
onde os dias aportavam da epiderme e do suor da noite, da terra e da nudez,
do caule e do báratro onde Eros e Tánatos se unem em carne contra-divina

 

Tentaciones en casa de Antonio_1970 - Cópia
Manuel Alvarez Bravo [1902-2002], Tentaciones en casa de Antonio, 1970.

eroticon: XXXII: veias

o que nos liga e incita na recomposição do tempo é perene apesar da física: veias
onde correm as nossas vozes sanguíneas expectantes da perfeição curva dos braços, do silêncio da pele, do sal do suor, do cheiro dos sexos, do gosto das matérias do desejo;
veias
uma realidade existencial feita de veias, frágeis e à medida do corpo, indestrutíveis na categórica potência sexual e cognoscente – somos o mundo, este mundo onde a génese e o absoluto e por fim o nada acabará em nós
um encarnado conceito de sempre
(esqueçamos a eternidade, essa fantasia que justifica as uvas que não sendo nossas são verdes, essa fantasia que sublima a castração dos orgasmos)
sedento e faminto, denso e insano: abraço-te terrivelmente, disseste
: é a verdade, abraçamo-nos terrivelmente enquanto
nos extremos do destino único das veias a pele grita, a respiração adensa-se e cerra o diafragma saturado de ausência, o sexo humedece ou ejacula, a voz guia a cegueira do corpo que os lábios e as mãos hão-de redimir

por esta razão movente de futuro, por este estado íntimo do devir que dispersa a lógica,
eu não repito os livros no sentido
de o tempo decifrar a posse que já o ousa nas veias comuns

 

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Jorge Muchagato, dos diários gráficos, acrilico, tinta-da-china, papel, caderno de Fevereiro a Abril de 2000