patologia do acaso, diário, 10: «um pouco mais, para nos levantarmos um pouco mais alto»

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2016, Dezembro, 31. «Um pouco mais, para nos levantarmos um pouco mais alto». A afirmação da nossa existência deveria levar-nos à conclusão da importância radical de cada dia e da respectiva conta antes da travessia do sono. Nada é certo nem adquirido – pensar de outro modo, por consolo ou por piedade, é considerar para a morte uma benevolência que ela não tem. Tudo isto – que uns fazem por ignorar e outros convidam, com surpreendente sucesso, a que se ignore – Lúcio Aneu Séneca (4 a.C.-64) formulou nas suas célebres Cartas a Lucílio, a abri-las, e a partir do lugar certo, a pergunta:

«Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte! Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando. Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto – mau grado o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável – lhes é emprestado, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir» (1).

Amanhã, o ano que hoje se extingue no calendário ficará a pertencer, assim, ao domínio da morte, mas não ao domínio da vontade de esquecimento. O que se consumou venceu mas não está necessariamente perdido pois a afirmação da existência fundamenta-se nessa companhia da morte, não à nossa frente, mas de facto ao lado. Todavia, é o medo que sedimenta a vontade da posse do que já possuímos: o tempo. O medo levanta-nos, o sofrimento move-nos. Mas o que nos dizem é que o medo tolhe e o sofrimento não é necessário. Sucede que ambos são o alicerce da confiança e um alicerce serve para, a partir dele, se construir e continuar a construção. Essa construção é a vida: uma vulgaridade, isto, mas esquecemos com demasiada frequência a importância das vulgaridades que nos habituámos a encarar, incautos, com desdém. Então, o imprevisto das banalidades fere-nos na indefesa da nossa consideração.

Do ano que passa, guardo o pensamento um pouco mais adiante do que estava há um ano. «Um pouco mais», o verso de um poema da minha eleição, escrito pelo poeta grego Yorgos Seferis (1900-1971):

«Um pouco mais

e veremos florescer as amendoeiras

os mármores brilharem ao sol

o mar a ondear

um pouco mais,

para nos levantarmos um pouco mais alto.» (2)

Esse «um pouco mais» de agora está no movimento em direcção a um cada vez menos para o «um pouco mais alto» do radical de cada dia, na única posse plausível, o tempo dado, no único modo possível, a palavra, para a maior realização que a vida me propõe: a educação do meu filho no sentido da liberdade, da justiça e do Bem pela via do conhecimento e da compaixão segundo o caminho da construção da sabedoria.

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(1). Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, tradução, prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, Livro I, Carta 1, pp. 1-2.

(2). Yorgos Seferis, Poemas escolhidos, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis, Lisboa, Relógio d’Água, 1993, p. 45. Trata-se do poema XXIII, do livro Romance, Atenas, Março de 1935.

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Ilustração: dos diários gráficos, colagem, 2010.

sublunar

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na perspectiva sem linhas nem fuga da noite, existe uma cabeça dentro a repetir o eclipse,

(deixei de conseguir a música enquanto escrevo, verifico essa ausência demasiado profunda, como as outras faltas, e é tarde para me salvar disso)

a dor convexa no plano do ferro

(estou semelhante à obscuridade da sala onde escrevo, dentro do silêncio da noite, no extremo do eco de pensar, envolto na voragem imperceptível derredor dos ombros, na prova de uma depressão rochosa algures acontecida – reconheço agora)

a luz insignificada da lâmpada lava-me as mãos,

a pele, marcada pelos sulcos sublunares da lenta decomposição quando estão abertas, uma superfície inóspita

(radical – não a extracção da raiz, não o regresso à raiz, mas a raiz nova a viver da mesma carne, abandonando-lhe a resolução de vida igual – outra vida)

o silêncio primitivo da chama do isqueiro dentro da mão é uma intermitência suspensa

da febre que na pele das minhas mãos vai cortando o seu desenho

(prosseguir – pelos atalhos da cabeça – a taça está recusada, os dedos libertaram-se da cornija)

o sentido sonoro da voz descontinuou-se e repousa no encaixe dos dentes

 

 

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Fotografia: Novembro de 2016, pormenor.

patologia do acaso, diário, 9: a multiforme existência do fantasma da loucura

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2016, Dezembro, 29. A multiforme existência do fantasma da loucura. A realidade actual fundamenta-se no valor tortuoso da perturbação tido como instrumento dominador da imprevisibilidade natural da pergunta. Mas isso não é possível, a não ser que se esvazie a pergunta, que se lhe retire a qualidade que implica a sua eficácia reconstrutiva, o seu risco no sentido da clareza. A diminuição da qualidade da pergunta disciplina, num sentido único, o acesso à informação incomensurável de que hoje dispomos. Sucede que é preciso saber procurar, e com os mesmos utensílios conceptuais antigamente usados por quem se aventurasse a consultar as referências manuscritas em papel de uma biblioteca ou de um arquivo. A rapidez tecnológica de hoje é um complemento dessa capacidade e não uma substituição dela. A perturbação sinuosa da informação deturpada e até falsa, que satura os percursos de acesso, faz assim o seu caminho com a garantia da reprodução até ao limite da náusea. Agregada a esta informação livre de um aceitável crivo de exigência intelectual, mas submetida ao crivo da exigência do interesse ínvio e da manipulação, triunfa a mediocridade, com alguma benevolência, apenas o tolerável que cumpra as parcelas do negócio. Esta perturbação tóxica, nociva ao lugar da razão, é também nociva à escrita da história e arremessa para o esquecimento o próprio percurso histórico da razão no sentido da liberdade das suas indagações e formulações, sempre temporárias, construídas durante o seu caminho. É pois natural que esta perturbação se transforme em alienação num contexto de subjugação das pulsões sociais. E paira sobre esta perturbação de fábrica, entre outros véus, o débil eufemismo que é o «politicamente correcto». Mas o «politicamente correcto», salvaguardado por semióticas enviesadas, não é novidade alguma, tinha outro nome: educação, agregado a outro, urbanidade. O «politicamente correcto» não chega a ser diplomacia, é uma nobreza cínica e hipócrita desprovida da legitimidade do sangue e da história. Esta realidade conduz ao definhamento da escrita da história; o seu método fica inquinado por circunstâncias que lhe são demasiadamente exteriores num campo crítico de posicionamentos e de análises de per si repleto de ambiguidades, umas passíveis de prévio esclarecimento, outras de correcção, outras quase inevitáveis.

*

Colocar-se fora do Mundo não é a melhor opção quando impera a exigência da sua compreensão. Todavia, torna-se necessário estabelecer fronteiras à perturbação exalada e a eficácia dessas fronteiras depende da sua localização adequada. E a cabeça é a primeira fronteira a considerar na salvaguarda dos valores libertadores da razão. Trata-se de uma fronteira necessária mas dolorosa porque ambígua no sentido de ela própria levantar o fantasma da loucura. Afigura-se então um imperativo vislumbrar a origem desse fantasma sinuoso e provavelmente impossível de capturar. Mas constatar a sua multiforme existência é um passo da maior importância no movimento do caminho.

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Fotografia: Óbidos, 12 de Dezembro de 2016.

a imanência do suicídio na metafísica do aquário

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caminhar é uma extensão sanguínea filamentosa do meu pensamento,

um movimento cognoscente e dilatador enquanto a palavra é pura e não reclama ser escrita

 

equilíbrio perfeito de fragmentos expectantes, palavras in corpore e corpo ad verbum

 

incandescência no sentido da densidade orgânica, obscura, do acto declarativo – existo

 

asseguro na palavra surgente do movimento de caminhar que existo,

releva deste ad unum escrever desagrilhoado da necessidade de escrever

 

o tempo é a cabeça,

é na cabeça que está o coração, o Todo expande-se da cabeça e a cabeça alimenta o coração que está dentro dela na reciprocidade do movimento do sangue

 

os enganos do Mundo refugiaram-se no coração mas o coração habita na cabeça, o coração persevera do limbo da desordem, os fluídos do caos fertilizam a luz

no abismo negro e agridoce das contracções durante a união dos viscos

 

existe uma não-existência que confirma o corpo inteiro, resistente, nessas palavras incapturáveis ao reduto de mendigar a existência na coutada atribuída

 

no movimento de caminhar toda a minha liberdade imurável se afirma no ardor das palavras que não subjugo à soberba de as fixar

 

eu sou livre nessas palavras, essas palavras são livres em mim

e o acto de pensar é o meu corpo e o seu esplendoroso limite enquanto

 

a causa e o efeito manifestam-se no preciso momento em que se dissolvem na física do movimento

 

mas existe um acto firme nas profundezas desta noite inalienável que embate, do indefinível interior, nas fronteiras do corpo

 

existe um acto que é uma forma (a letra da palavra) sobrevivente do suicídio, uma combustão do labirinto e do novelo,

um acto que derruba a metafísica e a justificação de todas as formas implausíveis de qualquer divindade,

um acto que se extingue no acto originário da palavra,

que por sua vez, na negação do aquário, do vaticínio e do seu contrário, galga a morte no abraço da morte que caminha ao lado

 

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Fotografia: pormenor de um público cone de Natal, 28 de Dezembro de 2016.

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a tarde é uma litania de cinzas (fuligem imune à vontade) a ascender do desapego no compasso áspero e disperso do fumo bafejado pelos escapes dos automóveis,

a deuses informes que o terror do silêncio, afogado na patologia antíctone da elipse natural da luz,

nomeia na servidão recíproca dos risos, na misericórdia das saudações erguidas em esgares fulminantes e trôpegos do papel de arroz das ruas ensopado em veneno

quando o céu é vertical e cego ao esplendor incerto e ilusório do regresso da manhã

 

assim como a fome sempre acaba e o silêncio é o princípio vibrante do verbo,

a última taça do vinho ácido da melhor colheita, a chuva que lava e sepulta, o rio levedado do sono

 

o dia é uma hipótese desonerada do juramento de acordar do sono, tudo é esperança e espera

(spera, a outra palavra velha para esfera do Mundo)

na contingência indomável do corpo durante a expectativa enclausurada na fermentação ignota sob as pálpebras,

no eco-voz a trabalhar sob a abóbada do crânio, a eclodir na massa das conexões sinápticas, a recuar em túneis numa regressão onírica, reificada, e longa desde as ruínas do dia à questão no útero

 

comemos a massa crua, não levedada, recusamos o vértice do punhal, a decisão, o filamento da dor, o impossível devir da cicatriz

 

nem um gesto incandescente no oxigénio, um último traço de combustão que justifique

o fogo da tarde sobre as ruínas cuidadas

 

os meus pés estão deformados pelos maus sapatos, finos derrames azulados abaixo dos tornozelos quando me encontro com a nudez,

o velho pijama de Verão tantas vezes foi a máquina de lavar que enfim se rasgou numa perna, à altura do joelho, quando o vesti, na repetição do gesto vazio que antecede as simuladas horas jazentes,

(no primeiro tempo eu considerava que as lombadas dos livros nas estantes não me guardavam do gume do vidro)

a regra cardíaca na base da garganta abre a náusea do cansaço enquanto a declinação violenta da sombra come os prédios que vertem pelas fachadas o sangue da felicidade abjurada, visível das ruas em cada uma das assoalhadas, sob a luz artificial de lâmpadas de fabrico breve,

o ventre aberto da cidade é ruidoso (ninguém acredita na humanidade, no pão) e estéril

 

regresso para o princípio quando o céu adorna e fulge a noite

(no primeiro tempo, regressava – a decisão despiu-me do retorno)

 

*

Fotografia: Outono de 2010.

patologia do acaso, diário, 8: o tempo das livrarias

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2016, Dezembro, 27. O tempo das livrarias. Há trinta anos podia encontrar-se numa livraria o repouso necessário para a procura de um determinado livro, para a descoberta de outros. Era ainda possível, na tranquilidade desse tempo que só existia no interior das livrarias, encontrar uma palavra, uma frase, um parágrafo, que construísse a decisão de comprar um livro. Esse tempo acabou há muitos anos, nem possível é agora pensar dentro de uma livraria. O barulho insano, o desprezo inteiro pelos livros que logo se verifica na maneira como a maior parte das pessoas os manuseia, as inanidades proferidas no momento da escolha de um certo livro, as listas inqualificáveis das vendas mais bem sucedidas, o ar condicionado – gélido no Verão, abrasador no Inverno – a visibilidade do lixo, a constatação do engodo fácil que representam hoje a palavra literatura, ou os superlativos estratégicos e tributáveis, ou os prefácios inúteis e justificados apenas pela inconsciente expectativa de uma eternidade lotada de glórias domésticas, a quase ausência da maior parte da bibliografia que uma pessoa medianamente culta procuraria. Não foi apenas esse certo tempo que desapareceu do interior das livrarias, desapareceram também os livros e isso, penso agora, é a consequência natural da ausência desse intervalo de ócio para os procurar ou para os descobrir. Na verdade, os livros importantes permanecem muito pouco tempo nas estantes das livrarias. Seria necessário que as livrarias continuassem a ser, de facto, livrarias. Muita gente aflui às livrarias nas épocas cíclicas da transformação da hipocrisia e da dissimulação em vínculo social implícito e aceitável, e isso está certo – a verdade todos os dias ocultada ascende à visibilidade sob a forma de um qualquer livro e portanto a mentira não se dá ao trabalho da escolha. Sucede que a escolha revela a verdade. As livrarias foram esbulhadas do tempo único que existia no seu interior. Esse tempo representava um intervalo decisivo de resistência ao simulacro e ao lixo.

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Ilustração: dos diários gráficos, colagem e tinta-da-china, 2009.

mioleira com ovos mexidos

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estou neste não saber onde estou que me assegura estar vivo

e ainda que pudesse regressar, remetido por um esmaecido sentido esgravatado no fundo, não faria a volta,

porque guardo a força muda de cada passo no movimento do caminho e a recompensa do pó da estrada,

o silêncio amplo nunca procurado pelo gesto incluso nas perguntas,

mas no pó da estrada o meu silêncio é indefeso pois a sua dor está dispersa pelo Mundo e tem nomes e carne e ossos e veias e artérias e órgãos vitais e cabeça

e cansaço

e braços

como eu tenho

 

no ponto centrípeto do cerne da noite, o som indistinto das vozes decepadas do dia, dissolve-me a dor arenosa da cabeça

mas não o amarelo dos ovos mexidos a solidificarem na frigideira, misturados com atum e feijão preto, sobre o fogo,

nem a cinza, nem a falta

 

o entendimento represado da falta é o trapézio certo dos pés no chão à face dos ídolos talhados pela queda,

sem a fraqueza da parede e nu, a disputar-lhes a natureza do tributo da cabeça no cepo, a denegar-lhes o que cegos reclamam

na resistência da travessia do sono, na manhã, nas palavras da mina

 

não consigo departir a indistinção das palavras na onda das vozes gregárias

que me aplacam o desespero da declinação nas celas pequenas da geometria do calendário

a noite reflecte a violência do dia mas ao meu amplo não saber onde estou é bastante a voz humana

 

(a ravina de calcário luminoso, a praia, o mar)

 

os pobres comiam a mioleira cinzenta do crânio dos carneiros misturada com ovos mexidos

e não era suposto que o mundo acabasse e o sofrimento

ficava destinado à pedreira do sono

 

venho da nojenta mioleira do crânio dos carneiros misturada com ovos mexidos

 

(a ruína)

as colunas da ruína são a moeda desprezada pelos deuses,

a minha verdade é do domínio do desprezo dos deuses

 

*

Ilustração: dos diários gráficos, Dezembro de 1999.

 

problema

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o desespero que me flui nas veias e embebe a língua é um suicídio-problema intocável

que a solução não estanca

e em todos os discerníveis fragmentos, os salvados recolhidos de cada hora, guardo a morte,

 

a meu lado

 

a meu lado no movimento e na resistência dos tecidos musculares, na deglutição do vazio, no cansaço do diafragma, no calor do corpo sob os lençóis, o cobertor e o edredon antes da passagem até ao regresso das profundezas da solução ilegível,

a meu lado, não porque a queira como já a desejei sem medo nem razão constituinte, em queda ou com água, mas porque está determinada a ordem natural da sua dissolução da luz,

quando aportar e a âncora embater no fundo da enseada sob os contrários da Lua ou sob a evidência saturada do Sol e o batel tocar a madeira viva de algas do cais,

numa certa cedência repentina da banalidade

 

a meu lado, ao alcance do mais terno desenho invisível do abraço a comer o ar e a dar razão ao cansaço da cabeça

 

na crua qualidade do mais alto grau constante, entendo a morte a meu lado, na sucessão dos passos impregnados de desejo,

no impensável da direcção

e bebo nas consecutivas fracções do tempo o conhecimento da morte no processo dos dias,

desapegando do juízo e da roupa a escravidão de vivos, de mortos, de deuses e de demónios,

largado da mão ao lado das árvores

 

estou de pé na carne das palavras

 

o odre do vinho ficará vazio, o pão acabará de se comer até aos dedos, a garrafa de azeite ao contrário ficará resumida ao vidro escuro, as beatas dos cigarros reencontrarão a chama do isqueiro,

a água, a electricidade e o gás serão cortados

mas a gratidão sobreviverá

 

no último, o conhecimento cederá à putrefacção, aos tubos transparentes a drenarem restos mortos, às náuseas desprovidas de contracções, à pele a separar-se, ao peso informe da carne na disfunção do fim

indiferente que antecede o Letes e o Hades, ou tão-só a parede,

ou nada mais do que o conceito benevolente de um embarque

 

nada então te será dado a saber, estarás fora do domínio da pergunta, serás apenas uma espera despido da humanidade que transitou para os outros enquanto não te recolhem à conjura caótica da poeira do Universo

 

regressas, não há mais perguntas

 

aquece no metal sobre o fogo o pão duro

e não esperes mais do que a memória dos teus braços

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Ilustração: dos diários gráficos, stencil, 1999.

o solstício dos menos que os cães

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É possível escrever na carne porque nenhuma palavra, escrevo-o de novo, é um resto. A palavra é o próprio corpo, com os seus nervos, veias, artérias, sangue, fluídos, intelecto. A palavra é a vanguarda dos gestos, não apenas a dianteira, porque caminhamos para uma invisibilidade imposta como solução destinada a destruir o combate que toda a pergunta significa na sua origem. A adversidade não existe para nos tolher o passo, para nos dizer que não é possível caminhar mais apesar do pó da estrada e da terra que nos chamam. A adversidade, própria ou do outro, é uma pergunta à nossa humanidade e exige, fora da circunstância do tempo, uma resposta. Um «estendal solidário» na principal avenida de uma grande cidade capital, no Solstício do Inverno, longe da vista e do cheiro da miséria, onde as pessoas podem ir pendurar agasalhos necessários para o Inverno dos outros não é uma resposta, é uma suspensão da humanidade. É uma assinatura, com a omissão do nome, a caucionar a invisibilidade do Inverno dos outros, porque a dádiva subentende a aproximação, subentende olhar e sentir a miséria dos outros e fazer as contas próprias. Será alguma coisa dar sem olhar para a miséria dos outros nem ser atingido pelo cheiro da miséria dos outros, mas seria muito mais dar dentro do frio dos outros, olhá-los, oferecer a força da mão no ombro, abraçá-los, oferecer os joelhos próprios ao chão. Oferecer com a cabeça enfaixada para a miséria é fazer dos outros menos do que cães, sob a justificação de uma culpa qualquer a caucionar essa miséria. Ninguém é invisível, querem que sejamos, mas ninguém é, porque mesmo dessa invisibilidade exalaria o vapor do hálito no frio da atmosfera. Eu não sei se sou um escritor, nem sei se almejo a isso; sou um resistente que conhece a felicidade da palavra e as suas consequências.

*

Ilustração: dos diários gráficos, lápis, 1996.