patologia do acaso, diário, 7: a escada da verdade no «tempo dos assassinos»

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2016, Dezembro, 20. A escada da verdade no «tempo dos assassinos». Escrever no movimento de resistir e de recusar a invisibilidade imposta ao sangue dos outros. Escrever porque essa invisibilidade dilui também e sem compaixão o vermelho-negro do meu sangue. Escrever porque a invisibilidade legitima a omissão da compaixão. Escrever porque um homem que canta enquanto caminha pelas ruas da cidade, com as lentes dos seus óculos partidas e coladas com fita adesiva, me aperta a mão e me chama «irmão» e eu não sei o resultado do regresso do dia. Escrever porque nos matam e se eu sei escrever devo escrever contra a invisibilidade que nos está a murar. Escrever no chão da humanidade porque nenhuma palavra é um resto. Escrever porque é preciso construir perguntas. Escrever porque é preciso defender dos lobos a cabeça, o pão, o azeite e o lume.

Suponho que vamos fazendo uma parte avultada do caminho considerando que nos elevamos à verdade, mas a verdade é uma escada que se desce, sozinho, na única direcção indomável da vida, a terra e o terror da pergunta. A solidez dessa escada equivale à razão de decidirmos descê-la, à qualidade dessa descida, à determinação de avançar o passo em cada degrau na obscuridade. A pacífica e silenciosa grandeza da maioridade emocional e intelectual de um ser humano não consiste em subir pelo egoísmo da conquista nem em descer pela servidão voluntária e proveitosa, mas em aproximar-se do sofrimento dos outros sem a soberba de lhes conferir uma voz que não seja a deles. Mas é necessário que se tenha descido dentro de si, na direcção da própria obscuridade e se esteja disposto a abrir nela uma nova vereda para ver com maior acuidade. A primeira matéria da arte é a luz extraída da escuridão e por isso a arte evidencia que os deuses da mais diversa natureza são a criação oportuna de traidores e de colaboracionistas que enriquecem com o negócio estabelecido sobre o fatalismo da menoridade intelectual do ser humano enquanto tributo pago para conseguir sobreviver, na esperança vã de se escapar ileso ao processo de invisibilidade que está a ser imposto. É pois necessário que nunca se encontre a escada da verdade. O detalhe assassino vai fazendo o seu caminho e por isso as mensagens telefónicas das empresas chegam às horas em que as pessoas, dentro das suas casas, pensam e falam juntas, dentro do calor do afecto, à hora do jantar ou no tempo imediato. Quando se beijam, quando se abraçam, quando partem o pão, quando choram, quando riem, quando afirmam que existem. Estamos a ser mortos para continuarmos a viver sem alguma vez chegarmos à escada da verdade.

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A expressão «tempo dos assassinos» pertence ao título do livro de Henry Miller, The Time of the Assassins: a study of Rimbaud, New York, New Directions, 1946. Edição portuguesa: O Tempo dos Assassinos: um estudo sobre Rimbaud, tradução de José Miranda Justo, Lisboa, Antígona, 2016.

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Ilustração: dos diários gráficos, vieux-chêne, tinta-da-china e colagem, 2004.

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