a fundição matemática

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o frio corta-me a face, o reconhecimento das próprias mãos, o chão transpira-me do corpo e da respiração elíptica, mas o modo é novo, assente com o medo de hoje que afronta a arbitrariedade da luz

e me ergue com a força da miséria

 

a acuidade reflexa, não sarada até ao fim, da ruína destes sapatos a cada novo dia do carrossel do Sol, conquistada palavra por palavra,

a lucidez translúcida destes sapatos queimados no atrito da estrada pelo chão do poço anímico, venoso e mineral, que abre as mãos à dádiva sem razão e ao sal da terra,

(terra na minha boca, há muitos anos)

indiferente ao consolo incontornável do consensus omnium que me revende a própria identidade na surdez momentânea da noite onde convergem os restos tépidos do dia

 

(não chegamos mais longe do que ao simulacro da benévola cegueira que interrompe mas não dissolve o nevoeiro)

 

estes sapatos caídos em ruína emanam a ablução do movimento das pálpebras que desvenda a manhã incerta

da cabeça no regaço de um feixe de ervas selvagens geladas pela travessia da noite,

e vencem agora sobre a mesa, na actual equivalência matemática de quando me deitava no chão,

no oceano profundo, denso e opressor da luz, que substituía o peso do corpo mas era o peso sem solução da súmula das fronteiras da matéria corpórea a afluírem, vulcânicas, à cabeça,

uma obediência absoluta à gravidade, de nulo apelo e atomizado agravo

 

estes sapatos são iguais à fundição cardíaca das palavras que ascendem da memória e do sofrimento que me construiu a cabeça

 

no tempo em que eu desconhecia os tijolos do medo, a inutilidade existente dos movimentos cessava e a sobrevivência pura, estática e despida da intuição separava-se

da densidade saturada do corpo, da cadência muda, irredutível da respiração e anuía, exangue, ao abandono obediente à gravidade,

estacado no ponto exacto, mas em todo o caso abstracto, da pressão da nuca no chão

 

estes sapatos, que escorrem a morte relevada do âmago húmido da vida, ascendem, na sua destruição perfeita,

à realização da linguagem, o primeiro grão rochoso da argamassa das dúvidas e dos erros da humanidade não traduzida que se ergue do visco da placenta

e desmentem o dia dos mortos que nos é imperscrutável para além das flores que depõem campas sobre a boca da terra

 

estes sapatos desfeitos que me fizeram

 

*

Fotografia: os sapatos na mesa, madrugada de 6 de Novembro de 2016.

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