problema

sketchbook-058

o desespero que me flui nas veias e embebe a língua é um suicídio-problema intocável

que a solução não estanca

e em todos os discerníveis fragmentos, os salvados recolhidos de cada hora, guardo a morte,

 

a meu lado

 

a meu lado no movimento e na resistência dos tecidos musculares, na deglutição do vazio, no cansaço do diafragma, no calor do corpo sob os lençóis, o cobertor e o edredon antes da passagem até ao regresso das profundezas da solução ilegível,

a meu lado, não porque a queira como já a desejei sem medo nem razão constituinte, em queda ou com água, mas porque está determinada a ordem natural da sua dissolução da luz,

quando aportar e a âncora embater no fundo da enseada sob os contrários da Lua ou sob a evidência saturada do Sol e o batel tocar a madeira viva de algas do cais,

numa certa cedência repentina da banalidade

 

a meu lado, ao alcance do mais terno desenho invisível do abraço a comer o ar e a dar razão ao cansaço da cabeça

 

na crua qualidade do mais alto grau constante, entendo a morte a meu lado, na sucessão dos passos impregnados de desejo,

no impensável da direcção

e bebo nas consecutivas fracções do tempo o conhecimento da morte no processo dos dias,

desapegando do juízo e da roupa a escravidão de vivos, de mortos, de deuses e de demónios,

largado da mão ao lado das árvores

 

estou de pé na carne das palavras

 

o odre do vinho ficará vazio, o pão acabará de se comer até aos dedos, a garrafa de azeite ao contrário ficará resumida ao vidro escuro, as beatas dos cigarros reencontrarão a chama do isqueiro,

a água, a electricidade e o gás serão cortados

mas a gratidão sobreviverá

 

no último, o conhecimento cederá à putrefacção, aos tubos transparentes a drenarem restos mortos, às náuseas desprovidas de contracções, à pele a separar-se, ao peso informe da carne na disfunção do fim

indiferente que antecede o Letes e o Hades, ou tão-só a parede,

ou nada mais do que o conceito benevolente de um embarque

 

nada então te será dado a saber, estarás fora do domínio da pergunta, serás apenas uma espera despido da humanidade que transitou para os outros enquanto não te recolhem à conjura caótica da poeira do Universo

 

regressas, não há mais perguntas

 

aquece no metal sobre o fogo o pão duro

e não esperes mais do que a memória dos teus braços

*

Ilustração: dos diários gráficos, stencil, 1999.

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