patologia do acaso, diário, 8: o tempo das livrarias

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2016, Dezembro, 27. O tempo das livrarias. Há trinta anos podia encontrar-se numa livraria o repouso necessário para a procura de um determinado livro, para a descoberta de outros. Era ainda possível, na tranquilidade desse tempo que só existia no interior das livrarias, encontrar uma palavra, uma frase, um parágrafo, que construísse a decisão de comprar um livro. Esse tempo acabou há muitos anos, nem possível é agora pensar dentro de uma livraria. O barulho insano, o desprezo inteiro pelos livros que logo se verifica na maneira como a maior parte das pessoas os manuseia, as inanidades proferidas no momento da escolha de um certo livro, as listas inqualificáveis das vendas mais bem sucedidas, o ar condicionado – gélido no Verão, abrasador no Inverno – a visibilidade do lixo, a constatação do engodo fácil que representam hoje a palavra literatura, ou os superlativos estratégicos e tributáveis, ou os prefácios inúteis e justificados apenas pela inconsciente expectativa de uma eternidade lotada de glórias domésticas, a quase ausência da maior parte da bibliografia que uma pessoa medianamente culta procuraria. Não foi apenas esse certo tempo que desapareceu do interior das livrarias, desapareceram também os livros e isso, penso agora, é a consequência natural da ausência desse intervalo de ócio para os procurar ou para os descobrir. Na verdade, os livros importantes permanecem muito pouco tempo nas estantes das livrarias. Seria necessário que as livrarias continuassem a ser, de facto, livrarias. Muita gente aflui às livrarias nas épocas cíclicas da transformação da hipocrisia e da dissimulação em vínculo social implícito e aceitável, e isso está certo – a verdade todos os dias ocultada ascende à visibilidade sob a forma de um qualquer livro e portanto a mentira não se dá ao trabalho da escolha. Sucede que a escolha revela a verdade. As livrarias foram esbulhadas do tempo único que existia no seu interior. Esse tempo representava um intervalo decisivo de resistência ao simulacro e ao lixo.

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Ilustração: dos diários gráficos, colagem e tinta-da-china, 2009.

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