derrama

a-067

 

a tarde é uma litania de cinzas (fuligem imune à vontade) a ascender do desapego no compasso áspero e disperso do fumo bafejado pelos escapes dos automóveis,

a deuses informes que o terror do silêncio, afogado na patologia antíctone da elipse natural da luz,

nomeia na servidão recíproca dos risos, na misericórdia das saudações erguidas em esgares fulminantes e trôpegos do papel de arroz das ruas ensopado em veneno

quando o céu é vertical e cego ao esplendor incerto e ilusório do regresso da manhã

 

assim como a fome sempre acaba e o silêncio é o princípio vibrante do verbo,

a última taça do vinho ácido da melhor colheita, a chuva que lava e sepulta, o rio levedado do sono

 

o dia é uma hipótese desonerada do juramento de acordar do sono, tudo é esperança e espera

(spera, a outra palavra velha para esfera do Mundo)

na contingência indomável do corpo durante a expectativa enclausurada na fermentação ignota sob as pálpebras,

no eco-voz a trabalhar sob a abóbada do crânio, a eclodir na massa das conexões sinápticas, a recuar em túneis numa regressão onírica, reificada, e longa desde as ruínas do dia à questão no útero

 

comemos a massa crua, não levedada, recusamos o vértice do punhal, a decisão, o filamento da dor, o impossível devir da cicatriz

 

nem um gesto incandescente no oxigénio, um último traço de combustão que justifique

o fogo da tarde sobre as ruínas cuidadas

 

os meus pés estão deformados pelos maus sapatos, finos derrames azulados abaixo dos tornozelos quando me encontro com a nudez,

o velho pijama de Verão tantas vezes foi a máquina de lavar que enfim se rasgou numa perna, à altura do joelho, quando o vesti, na repetição do gesto vazio que antecede as simuladas horas jazentes,

(no primeiro tempo eu considerava que as lombadas dos livros nas estantes não me guardavam do gume do vidro)

a regra cardíaca na base da garganta abre a náusea do cansaço enquanto a declinação violenta da sombra come os prédios que vertem pelas fachadas o sangue da felicidade abjurada, visível das ruas em cada uma das assoalhadas, sob a luz artificial de lâmpadas de fabrico breve,

o ventre aberto da cidade é ruidoso (ninguém acredita na humanidade, no pão) e estéril

 

regresso para o princípio quando o céu adorna e fulge a noite

(no primeiro tempo, regressava – a decisão despiu-me do retorno)

 

*

Fotografia: Outono de 2010.

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