patologia do acaso, diário, 9: a multiforme existência do fantasma da loucura

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2016, Dezembro, 29. A multiforme existência do fantasma da loucura. A realidade actual fundamenta-se no valor tortuoso da perturbação tido como instrumento dominador da imprevisibilidade natural da pergunta. Mas isso não é possível, a não ser que se esvazie a pergunta, que se lhe retire a qualidade que implica a sua eficácia reconstrutiva, o seu risco no sentido da clareza. A diminuição da qualidade da pergunta disciplina, num sentido único, o acesso à informação incomensurável de que hoje dispomos. Sucede que é preciso saber procurar, e com os mesmos utensílios conceptuais antigamente usados por quem se aventurasse a consultar as referências manuscritas em papel de uma biblioteca ou de um arquivo. A rapidez tecnológica de hoje é um complemento dessa capacidade e não uma substituição dela. A perturbação sinuosa da informação deturpada e até falsa, que satura os percursos de acesso, faz assim o seu caminho com a garantia da reprodução até ao limite da náusea. Agregada a esta informação livre de um aceitável crivo de exigência intelectual, mas submetida ao crivo da exigência do interesse ínvio e da manipulação, triunfa a mediocridade, com alguma benevolência, apenas o tolerável que cumpra as parcelas do negócio. Esta perturbação tóxica, nociva ao lugar da razão, é também nociva à escrita da história e arremessa para o esquecimento o próprio percurso histórico da razão no sentido da liberdade das suas indagações e formulações, sempre temporárias, construídas durante o seu caminho. É pois natural que esta perturbação se transforme em alienação num contexto de subjugação das pulsões sociais. E paira sobre esta perturbação de fábrica, entre outros véus, o débil eufemismo que é o «politicamente correcto». Mas o «politicamente correcto», salvaguardado por semióticas enviesadas, não é novidade alguma, tinha outro nome: educação, agregado a outro, urbanidade. O «politicamente correcto» não chega a ser diplomacia, é uma nobreza cínica e hipócrita desprovida da legitimidade do sangue e da história. Esta realidade conduz ao definhamento da escrita da história; o seu método fica inquinado por circunstâncias que lhe são demasiadamente exteriores num campo crítico de posicionamentos e de análises de per si repleto de ambiguidades, umas passíveis de prévio esclarecimento, outras de correcção, outras quase inevitáveis.

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Colocar-se fora do Mundo não é a melhor opção quando impera a exigência da sua compreensão. Todavia, torna-se necessário estabelecer fronteiras à perturbação exalada e a eficácia dessas fronteiras depende da sua localização adequada. E a cabeça é a primeira fronteira a considerar na salvaguarda dos valores libertadores da razão. Trata-se de uma fronteira necessária mas dolorosa porque ambígua no sentido de ela própria levantar o fantasma da loucura. Afigura-se então um imperativo vislumbrar a origem desse fantasma sinuoso e provavelmente impossível de capturar. Mas constatar a sua multiforme existência é um passo da maior importância no movimento do caminho.

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Fotografia: Óbidos, 12 de Dezembro de 2016.

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