sublunar

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na perspectiva sem linhas nem fuga da noite, existe uma cabeça dentro a repetir o eclipse,

(deixei de conseguir a música enquanto escrevo, verifico essa ausência demasiado profunda, como as outras faltas, e é tarde para me salvar disso)

a dor convexa no plano do ferro

(estou semelhante à obscuridade da sala onde escrevo, dentro do silêncio da noite, no extremo do eco de pensar, envolto na voragem imperceptível derredor dos ombros, na prova de uma depressão rochosa algures acontecida – reconheço agora)

a luz insignificada da lâmpada lava-me as mãos,

a pele, marcada pelos sulcos sublunares da lenta decomposição quando estão abertas, uma superfície inóspita

(radical – não a extracção da raiz, não o regresso à raiz, mas a raiz nova a viver da mesma carne, abandonando-lhe a resolução de vida igual – outra vida)

o silêncio primitivo da chama do isqueiro dentro da mão é uma intermitência suspensa

da febre que na pele das minhas mãos vai cortando o seu desenho

(prosseguir – pelos atalhos da cabeça – a taça está recusada, os dedos libertaram-se da cornija)

o sentido sonoro da voz descontinuou-se e repousa no encaixe dos dentes

 

 

*

Fotografia: Novembro de 2016, pormenor.

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