poema de estarmos

para a Catarina Verdier e o Miguel Moreira, o poema novo do dia 20 de Março de 2016

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somos feitos de corpos-terra, não dormimos sem poemas novos,

colamos escritos na escuridão, semeamos na obscuridade,

amamos adiante da condição, na terra nova, encontramos as estrelas da noite nos dedos,

choramos nos risos dos olhos e depomos nas mãos

os segredos-palavras que abrimos em abraços salvando os degredos

da distância onde nos encontramos, porque súbitos podemos nascer de ovos,

beber a cor da tinta, comer o traço do grafite, dormir sobre o papel, pintar o cabelo,

cantar sobre o vinho ou estar no irredutível do silêncio de apenas se estar

 

os corpos-terra de que somos feitos têm as feridas dos poemas novos, sofrimento-liberdade,

nós e a palavra só

 

*

Fotografia: Catarina Verdier, de costas para o sol, óleo, 2001.

 

sede

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as palavras que me encontram na obscuridade âmnia

onde sempre é o fogo eterno e a luz da primeira ruína,

na obscuridade do tempo irregular que dissemina a verdade como o Sol o calor e a visibilidade

sobre a pele de cal fendida a levantar-se do reboco das paredes,

as palavras que procuro na equivalente demanda do ar puro no intervalo

proibido ao desespero das janelas da ala psiquiátrica do quarto andar

dos dois lados do espelho

 

as palavras a que lanço amarra e chego a boca para respirar

e me golpeiam a transida indistinção entre o desejo e a morte,

as palavras a que chego a boca para beber

e não são a mesma linguagem

 

*

Ilustração: dos diários gráficos, 1999.

indício do conhecimento

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quando penso na morte entendo-me

na primeira-última realidade de respirar, de me encontrar corpo-consciência, livre

da alegação da culpa que inventou a passagem

quando o relâmpago feriu a noite, o trovão ecoou na abóbada da atmosfera indecifrável

e a explicação agiota do céu aconselhou a caverna e o silêncio da pele

sob os juros da angústia

 

quando penso na morte encontro-me

na margem contrária da posse e do oculto consolo justificativo de um lugar indemonstrável,

isto é, à beira da vegetação selvagem de um caminho terrestre,

limpo de sonhos decepados e no movimento do novo passo, antes de

adornar no fim do oceano

 

a pele, depois a carne, as fibras, o coração e por último os ossos

na terra fertilizada pela humidade da névoa, o frio da manhã

e a luz que da noite reacende o Mundo

 

*

Fotografia: Estoril, 2009.

 

 

o fermento da impureza

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1.

comerei palavras sem talheres, sílaba por sílaba, nas pontas dos dedos,

palavras com casca de caroço no âmago e partirei os dentes nos seus degredos

de sal e de silêncio, os riscos curvos dentro da noite, assim como o cigarro derradeiro do maço,

contra os dentes dos cães que escrevem o destino nas trinta e cinco linhas

do papel almaço vagamente azul da inveja e do despeito

 

comerei palavras sem cerimónia, comerei a verdade sem aviso, comerei o vidro sem medo,

e o sangue dessa fome na língua e no esmalte dos dentes

lava-me os dedos do pó da cinza morta dos cigarros apagados, do gelo da luz cortante decantada pela janela da cozinha a trespassar o vidro vertical do dia,

sob o Sol e a teoria do caos do Universo, primeiro na exígua margem rebaixada da estrada e depois

no caminho da terra sob o alvor da Primavera, no meio-dia inteiro do Mundo no cabo do último dia de Abril

 

2.

tudo isto, que escrevo de novo, passou de mim

envelheci

no sentido radical do ser da consciência, nem contra nem a favor das medidas do tempo,

indiferente ao patíbulo da razão ou da lâmina, pois a condenação está lavrada desde o começo

 

é a realidade: como palavras sem talheres e sem cerimónia, sílaba por sílaba, nas pontas dos dedos, nas papilas gustativas da língua,

como a verdade, sem olhar aos avisos decantadores que desconhecem ser a impureza o verdadeiro fermento da livre sabedoria da velhice

 

*

Fotografia: diário gráfico, 1998, pormenor.

o penhasco da anuência

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se eu acedesse a salvar-me estaria limpo, mas eu vim, sem culpa formada,

do pélago odor uterino, coberto dos restos e do sangue da vida da carne contra o tempo, a razão e o sentido,

envolto no visco translúcido e frágil da imperfeição, nos antípodas do sono

 

se eu acedesse a salvar-me condenava-se por fundamental traidor,

por relapso ao abismo inscrito, à noite incisa e lúcida, por subscritor de uma falsa benevolência divina

que ajuda a comer o joio do simulacro da morte

 

se eu acedesse a salvar-me tornaria vã a esperança do cansaço,

inútil a desforra sobre a dolente justificação do indizível como se não houvesse linguagem,

e tudo estaria certo – e contrário ao que me fez nascer

 

se eu acedesse a salvar-me encerraria as perguntas da noite sob o eufemismo da cicatriz,

negaria todas as certas junturas feitas da razão e da carne,

e não haveria o que salvar de mim

 

*

Ilustração: dos diários gráficos, colagem, tinta-da-china, 2010.

 

fado para o Fado Cravo

 

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era o sol cego do meio-dia

e nas minhas mãos mordia

o cão vadio da tua ausência.

rasgam as mãos esses dentes

e fora das veias dormentes

a noite ensopa a minha carência

 

era a lua naquele céu falso

e o frio da noite o cadafalso,

a faca no coração gelado.

eu queria só o teu rosto

o fogo do meu desgosto

nos contrários do fado

 

era uma estrela sozinha

contra o sol, uma luzinha,

firme na poeira do universo.

falta desse amor agora

a face destruída da demora

o tempo caído e disperso.

 

*

Fotografia: guitarra, 2010.

 

patologia do acaso, diário, 12

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2017, Janeiro, 15. Movemo-nos, mesmo na recusa e sob a legitimação da benevolência de uma cadavérica esperança, para o inexorável, e ainda que não pensemos nisso, com gravidade consciente, todos os dias, sabemo-lo pois tal caminho para o fim está inscrito na consumação irrepresível de cada pensamento, de cada gesto, de cada fragmento da respiração, de cada declinação do olhar quando os globos oculares se movem e captamos os instantes multitemporais de uma luz que subscrevemos eterna. Mas não existe a eternidade, ninguém existe ou existiu que possa jurá-la e nesse juramento conferir-lhe alguma forma da forma que nunca adquiriu senão caucionando o recibo da conta da escravidão aos agiotas. Um silêncio rochoso. Retirar pedras desse silêncio rochoso, amontoá-las, de princípio, e depois considerar se essas pedras do silêncio rochoso podem ser mais do que pedras que não seriam pedras sem a designação e os significados que as fazem mais do que pedras. Erguemo-nos aqui, depois das explicações falsas da trovoada e da morte, quando pedimos contas a quem no-las explicou e verificamos que essas contas estão erradas e não nos salvam, porque não encontramos plausibilidade futura para o arbítrio de sermos no passado, no presente e no futuro, nem para o outro arbítrio, artificial, da explicação disso sem outro resultado que não seja o da cabeça no cepo do juízo dos deuses e dos agiotas. Talvez por essa razão choramos com os filmes. Somos salvos por pessoas, pelos outros de nós e não pelos deuses de qualquer ignota natureza, mas as pessoas preferem matar-se umas às outras das mais diversas e pequenas maneiras porque se matarem os deuses cometem suicídio.

*

Ilustração: dos diários gráficos, tinta-da-china, 1999.

 

Amália

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a noite viva, o dia apenas, as estrelas e o poço,

a solidão do fumo do cigarro que se evola

a sede do deserto puro do pescoço

que nenhum beijo profana ou arrola

 

a voz do som do mar, da luz do silêncio,

dos murmúrios e adivinhas, das casas brancas,

(esses olhos onde sofre a beleza do incenso

e se consome o natural fogo que não estancas)

 

esse indizível que fulge palavras no desgosto,

redime a melancolia dos mapas ocultos,

o impossível mudado em fogo posto

de contentamentos novos e resolutos

 

a ravina sobre a praia que a respiração enlaça

aves, braços de árvores e a corola da flor,

um único longo adeus e as mãos da linhaça

essa voz feita da amorosa definição da dor

 

 

*

Desenho: vieux-chêne, papel, 2000, pormenor.

Vídeo: Malaventurado (Bernardim Ribeiro [1482-1552] / Alain Oulman [1928-1990]). Guitarra: José Fontes Rocha (1926-2011), viola: Martinho d’Assunção (1914-1992). Do disco Cantigas Numa Língua Antiga, EMI-Valentim de Carvalho, 8E 072-40447, editado em Abril de 1977.

 

considera saber o que dizem as árvores

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considera indagar o que dizem as árvores

no Outono;

se te aproximares do que dizem as árvores, saberás os significados diversos

das diversas formas

do abandono,

evidente ou oculto, alcançarás as razões do pesadelo ou da placidez da travessia dos rios nocturnos

do sono

 

considera indagar o que dizem as árvores, porque

o mundo é apenas a circunstância mais pequena

da tua existência,

a circunstância a ser transposta pela verdade do que pensas e dos teus gestos entre os demais,

a evidência

do oculto que tu ocultas num jogo de espelhos irreais,

sendo que a essência

desse jogo é o que fica e não consegues limpar do que dizes,

ou a coincidência

com o Outono do que dizem as árvores

 

considera saber o que dizem as árvores, também

na sua ausência;

talvez se souberes o que dizem as árvores

tenhas a ciência

de tudo o que vive e morre,

tenhas a grata anuência

do tempo que transcorre

assim no Outono

como na transparência

do sono

2015 e 14 de Janeiro de 2017.

*

Fotografia: Janeiro de 2017.

a parede não-parede do fim do mundo

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1.

criámos os deuses conformes ao cálculo do nosso medo e depusemos na sua inexistência toda a esperança de existirmos sem medo na projecção da consciência,

envenenámo-nos

com essa futilidade no logro de uma salvação exterior a nós

e condenámo-nos na fraqueza de recusar um esplendoroso imperativo resultante do desejo: Vive!

fomos o devir da semente no acaso infinitesimal e decidimos apodrecer no arbítrio de uma Queda inverosímil, numa salvação mudada desde a origem num eufemismo do cárcere,

disciplinados nas artimanhas do deve-e-haver de um pérfido conselho que nos inoculou o desdém pelo tempo necessário ao amadurecimento do fruto e ao seu mais prazeroso gosto,

numa falsa dialéctica da transitoriedade disciplinada para realidade nenhuma

roubam-nos ainda o medo que nos levanta, os impolutos ladrões que nos asseguram conhecer o que não é possível conhecer, sem desse conhecimento fazerem qualquer prova demonstrativa

esses impolutos agiotas que negoceiam a evidência da terra, que impõem juros à dádiva que se extingue nela própria e nos diz: Vive!

no chão da consciência do último medo tudo acaba pois todos os significados são consumidos

na fronteira que não se pode dizer fronteira, na linha que não se pode dizer linha, na ponte que não se pode dizer ponte, nos antípodas da gravidade que não se pode dizer serem antípodas da gravidade,

no chão da consciência, em qualquer ausência de designação que ninguém sabe o que é nem pode demonstrar na subtileza dos mais ínvios ardis,

ninguém sabe e por consequência não pode afirmar,

de modo que só a poesia derruba os impolutos agiotas da eternidade que nunca conheceram na pele e na língua o gineceu

 

2.

é tão provável como o silêncio da noite, o argaço do dia, a incerteza do sono, a rotação da Terra e dos climas, o regresso das faculdades do Sol e a consciência da pele,

que o fim depois do cabo do corpo seja uma parede incolor e de betão imaterial com as marcas vivas da cofragem da falta,

da condição da consciência-carne que não estanca o absoluto da palavras adrede

uma parede não-parede, deve ser o que existe depois no não-depois da exalação da consciência,

orlada de líquenes da cor espessa e escura do sangue que nesse não-então não é a cor espessa e escura do sangue, desinfestada da ferrugem das circunstâncias, pura, ante-pura e não-depois de ser pura

uma parede não-parede que é tudo e  não-tudo, nada e não-nada, memória e não-memória, libertação e não-conhecimento

creio tão provável como a nudez e o choro com que despertamos fora do útero, depois da dor, no absoluto devir contrário aos deuses,

que o não-saber no cabo do corpo-consciência seja uma parede não-parede

*

Ilustração: dos diários gráficos, pastel de óleo, 1999.