epistemologia da dúvida

para E.S.

dsc01504

 

1.

esconsa direcção e em certa medida

 

2.

não sei se caminho, sem abrir ao equilíbrio inverosímil os braços da razão oscilante, na exígua largura do muro da ponte cuja altura me guardei de medir

 

não sei se remo, sem atender ao mar imprevisto, de barcaça cuja madeira não verifiquei no sentido do tempo, da proporção, da profundeza e da obscuridade interior do oceano

 

não sei se escalo a montanha, sem lhe considerar a inclinação e a altura, entendendo a desagregação da terra falsa e das pedras que a força dos músculos provoca e livra, sem lhe imaginar os precipícios, a neve e o nevoeiro eternos do seu cume

 

não sei se subo a árvore, sem ter indagado da estabilidade dos ramos, ignorando a fortaleza dos meus braços e pernas, a fragilidade da pele das minhas mãos e pés, a força do vento, do pó e da chuva, as queimaduras do calor

 

não sei se persisto, inconsciente da alavanca do medo, com os meus sapatos desfeitos na estrada, desprecavido perante o muro da deslocação do ar que transporta a velocidade densa do que não compreendo e do que não aceito

 

nada disto sei, nem posso mudar em afirmação, é a verdade

 

todavia, suponho que não saber tais coisas em modo declarativo, é resistir à devastação imposta pelos absolutos de exigir e de ceder, para prosseguir com a vida em lugar nenhum do tempo, no cognoscente da luz e da escuridão, do movimento e do sono

 

em todo o caso, a realidade é a de estar a meio da ponte

(confronto a gravidade, sinto na pele a deslocação e a temperatura do ar, sinto a hesitação ou a firmeza do passo, abro os olhos à atmosfera para matar o medo e ao vazio para chegar adiante),

a meio do mar

(recebo a adversidade na sedição do movimento da sobrevivência, respiro o sal na placidez expectante do horizonte onde a luz saturada reverte a separação do céu e da terra, sinto a pele crestada pelo sol e ressequida pelo vento),

a meio da montanha

(interrogo a respiração, a densidade do corpo e a orientação acutilante do pensamento no limite do imprevisível, procuro abrigo dentro da terra ou entre as pedras, descanso a cabeça nas ervas, intuo a nascente de água fria, leio as nuvens),

a meio da árvore

(rasgo a pele e a carne nas lascas fixas dos ramos mal calculados, descanso na solidez da continuidade da raiz, é cada vez mais ampla a visibilidade do mundo),

a meio da estrada

(conheço a dor, o desejo e a vontade),

 

pode suceder que caia da ponte, que me afogue no mar, que sufoque na subida, que me perca no caminho

 

mas

 

se cair será na terra ou no rio, sem pedras nos bolsos que sejam minhas, na argila húmida ou no movimento da água para ser dissolvido na origem da vida,

se naufragar e me afogar, será no mar, transposta a dúvida do embarque e descansarei no leito do primeiro fogo que regenera pela destruição absoluta,

se me vencer o cansaço e asfixiar a rarefacção do oxigénio, estarei mais perto do esplendor da explicação azul da atmosfera e acabarei um pouco mais acima,

se for derrubado pelo cálculo, conhecerei o vazio total e gelado no centro implodido do diafragma e a conclusão no ardor fecundo do chão,

se me perder nos caminhos, numerosas veredas me hão-de comer os passos por entre o fulgor da poeira, das ervas e das searas, até que chegue a estação das chuvas e regresse ao consolo do barro desfeito pela água que o caos tornará a unir

 

3.

recomeço

*

Ilustração: tinta-da-china, aparo, papel, 1994 ou 1995.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s