patologia do acaso, diário, 11: transformar a depressão em pensamento, escrever

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2017, Janeiro, 6. Transformar a depressão em pensamento, escrever. Encontrei uma frase, anteontem, mas não trouxe o livro. Ontem, ao final da manhã, recordei a ideia-axioma da frase para este escrito mas precisava do seu rigor enunciativo e saí de casa para ir buscar o livro, carecia da frase, absoluta, e das palavras precisas. Nesta necessidade encontrei também a justificação para fazer a caminhada imprescindível à sedimentação do pensamento e que guardo para o final do dia que é, nesta estação do tempo, o princípio da noite. Preciso de caminhar para alcançar alguma ordenação ao que penso e a sua consequência, a escrita. A existência do dia afirmava-se como a de hoje, o ar tépido do Sol, e senti prazer em caminhar àquela hora, sob a luz a exalar potência, vontade.

E ocorreu-me, nesse movimento cheio de devir, que talvez esteja na direcção de tocar o âmago de uma realidade nova e desconhecida, quer dizer, desconhecida até esta possível formulação: transformar a depressão em pensamento. Talvez já esteja a viver nessa realidade mas não estou certo, ainda, de o poder afirmar com a clareza que a constatação exige. É provável, por outro lado, que a natureza desta escrita confirme a solidez dessa constatação, mas o silêncio em que decorre esta ínvia libertação ainda não me concedeu a benevolência do eco. É provável, também, que possa não existir razão para a pertinência desse eco; que esse eco não corresponda, afinal, a nada mais do que a um estímulo para a transposição do medo, ou melhor dizendo, para a transfiguração do medo. E é provável, enfim, que esse eco, esse eterno retorno, seja o próprio processo e acto de escrever, que desbrava o caminho enquanto se escreve e as ideias e as palavras chegam à existência num movimento igual ao que se procede para conferir substância à massa que levedada se mudará em pão. Um movimento que requer força e persistência, mas também intuição, para compreender o momento adequado em que a massa está inteira para ir ao fogo e ser pão. Em nada disto pensei quando disse que encontrei uma frase. Pensar é agir sobre a realidade e a escrita uma das formas de manifestação de uma certa realidade, uma transformação visível que confere extensão ao pensamento e afirma que essa certa realidade está certa, corresponde ao fruto no esplendor do seu amadurecimento, quando já passou o umbral da perfeição da forma e do aspecto, e chegou ao seu gosto mais apurado e prazeroso.

Mas a frase: trouxe o livro e tenho-a aqui. Durante o caminho de regresso a casa, a frase motivou outros trilhos numa terra idêntica e quando cheguei fui procurar os outros livros que dessa terra me ocorreram, e encontrei processos da mesma natureza. Esta procura corresponde a muitos anos. E encontrei, então: «Pensar. E se o pensar fosse uma doença, mesmo que dela resulte uma pérola?». Uma pergunta, construída por quem bem as sabia erguer, Vergílio Ferreira, num dos últimos livros dos seus diários, Pensar (1), publicado em 1992.

O pensar pode transformar-se numa doença, mas o que sucede nestes tempos, numa lonjura de vinte e cinco anos – ensinaram-nos na escola antiga que correspondiam à renovação das diferentes gerações – é que o pensar está categorizado como uma doença, agravada se resulta na necessidade da escrita. Porque a resposta à pergunta «porque escrevo?» é sediciosa e selvagem e é radical: «Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem» (2).

Mas transformar a depressão em pensamento, amassar a depressão até ao momento real do pensamento, é um caminho sem regresso, uma construção obscura que não é desconhecida: «Essa solidão real do corpo torna-se outra, a da escrita» (3), «Ver-se num buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total e descobrir que só a escrita nos salvará» (4) – Marguerite Duras enunciou a evidência deste caminho sem volta pois ele corresponde a encontrarmo-nos selvagens e, por fim, a um suicídio:

«A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida. E reconhecemo-la sempre, é a das florestas, tão velha como o tempo. A do medo de tudo, distinta e inseparável da própria vida. Ficamos obstinados. Não podemos escrever sem a força do corpo. É preciso sermos mais fortes que nós para abordar a escrita, é preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve. É uma coisa estranha, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, são os gritos dos animais da noite, os de todos, os vossos e os meus, os dos cães.» (5)

«Existe suicídio na solidão de um escritor. Está só até na sua própria solidão. Sempre inconcebível. Sempre perigoso. Um preço a pagar por ter ousado sair e gritar.» (6)

A frase pela qual saí de casa é a decisão de Musil para escrever: «abrir a porta para uma vida no verdadeiro sentido do termo» (7).

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(1). Vergílio Ferreira, Pensar, Venda Nova, Bertrand Editora, 1992, 187, p. 145.

(2). Ibidem, 23, pp. 35-36.

(3). Marguerite Duras, Escrever, tradução de Vanda Anastácio, Lisboa, Difel, 1994, p. 15.

(4). Ibidem, p. 20.

(5). Ibidem, pp. 24-25.

(6). Ibidem, p. 32.

(7). Robert Musil, As perturbações do pupilo Törless, tradução e introdução de João Barrento, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005. A frase está transcrita na «Introdução» e provém, conforme diz o seu autor, dos Diários de Musil, que a escreveu aos vinte e quatro anos.

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Fotografia: livros e luz de vela, Agosto de 2015.

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