Mário Soares: da verdade para a história

 

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Uma parte da memória de Mário Soares, a da sua vida pública e política, pertence agora, de forma derradeira, ao domínio da história e da sua escrita, problema que se coloca, nestes tempos, de uma forma bastante singular dada a vastidão e diversidade documental, por um lado, e dado o lugar da história na sociedade e na cultura portuguesas, por outro. A morte é uma pergunta que nos é dirigida e questiona, à cabeça, o lugar onde colocamos a exigência da dignidade. Aferir-se-ia melhor, e com mais saudáveis consequências, o lugar exigente dessa dignidade, se existisse na cultura geral uma noção satisfatória do que é a história e a sua escrita e do que ambas reclamam em termos de exigência intelectual e ética. O ofício de historiador ensinou-me muito sobre a condição e a natureza humanas, sobre a condição e a natureza de sucessivas verdades históricas a serem constantemente revistas e reconstruídas; é esse o movimento natural da escrita da história, e Mário Soares fará parte desse movimento, com a claridade e a obscuridade que qualquer existência humana tem. O Mário Soares verdadeiro deixou de existir e existe agora o Mário Soares na verdade irredutível dos testemunhos da sua passagem pela história portuguesa. Mário Soares passará agora a existir na qualidade da aproximação da escrita da história aos testemunhos do Mário Soares verdadeiro, o mesmo é dizer, na exigência cultural e ética dos historiadores que acerca dele e das suas acções pertinentes para a história vierem a escrever. Sucede que Mário Soares morreu ontem.

Por medo das trovoadas e da morte, a humanidade criou as religiões e julgou aquietar as angústias do espírito quando, na verdade, criou angústias ainda mais temíveis e pesadas das quais nunca mais se libertou, apesar de ter encontrado a explicação para as trovoadas. Mas não encontrou para a morte, nem encontrará. O melhor a fazer, suponho, é tomar como sua a radicalidade de cada dia, preparando-se o melhor possível para a parede do medo maior. Viver. Um dia após o outro, na esperança sem temor do seguinte, com o sucessivo acrescento das parcelas à conta, sendo que a conta, na extinção de muitos dos dias, estará errada, e será necessário que a parcela nova torne a equilibrar as contas. A vida é uma constante epistemologia da dúvida – sem que o valor do juízo seja um assunto despiciendo – e por isso, da humanidade da minha epistemologia, sobrepõe-se agora a todos os juízos, neste breve intervalo entre o fim do Mário Soares verdadeiro – do qual fui conscientemente contemporâneo, pelo menos durante trinta e dois anos, desde que adquiri, na democracia de que ele foi um dos construtores, o direito de votar – e o princípio do Mário Soares histórico, ocorre-me esta evidência de partida, como decerto ocorrerá a muitos outros: eu não sei o que é estar na cela de uma prisão de um regime fascista com polícia política e tribunais plenários, ser deportado sem julgamento para uma ilha na costa da África tropical, partir para um exílio imposto por via de pensar livremente, falar perante muitos milhares de pessoas com a consciência de estar a ser parte activa e responsável de um grave processo histórico, e é vão utilizar para isso a imaginação, porque o intelecto, o corpo e a dor nunca estiveram em tal sorte de ocorrências, e a complexidade da vida humana exige a cada um a prudência do juízo.

Um historiador não utiliza o arremesso de um juízo moral pois os seus utensílios intelectuais, e por consequência metodológicos, servem para se aproximar o mais possível de uma verdade inalcançável, e muitas vezes construída, e das respectivas circunstâncias no processo complexo de dar a compreender uma determinada realidade histórica. No âmago desse processo, fará muito mais perguntas do que afirmações. Todavia, da prudência do juízo de um cidadão cuja idade o faz contemporâneo de toda a história da democracia portuguesa, é certa e suficiente, neste momento, a constatação de Mário Soares ter sido um dos mais importantes construtores dessa democracia no âmago da sua arriscada complexidade inicial, quando os novos poderes tomaram em mãos, no contexto ideológico mundial da Guerra Fria e particular do fim adivinhado do Estado Novo, a herança do último país europeu – na altura com uma elevada taxa de analfabetismo e de mortalidade infantil para a Europa desses anos, com polícia política e censura prévia – detentor de um secular império colonial onde decorriam guerras, há treze anos, com os movimentos autóctones de libertação, assim como no tempo seguinte. É certa e suficiente, neste momento, a constatação de Mário Soares ter sido, com as suas virtudes e fraquezas (é disso que todos somos feitos) um dos mais importantes construtores da nossa liberdade. Daqui para diante começa a escrita da história.

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Fotografia: Mário Soares votando nas eleições para a Assembleia Constituinte, na cantina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, 25 de Abril de 1975. Fundação Mário Soares, Lisboa.

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