a parede não-parede do fim do mundo

sketchbook-089

1.

criámos os deuses conformes ao cálculo do nosso medo e depusemos na sua inexistência toda a esperança de existirmos sem medo na projecção da consciência,

envenenámo-nos

com essa futilidade no logro de uma salvação exterior a nós

e condenámo-nos na fraqueza de recusar um esplendoroso imperativo resultante do desejo: Vive!

fomos o devir da semente no acaso infinitesimal e decidimos apodrecer no arbítrio de uma Queda inverosímil, numa salvação mudada desde a origem num eufemismo do cárcere,

disciplinados nas artimanhas do deve-e-haver de um pérfido conselho que nos inoculou o desdém pelo tempo necessário ao amadurecimento do fruto e ao seu mais prazeroso gosto,

numa falsa dialéctica da transitoriedade disciplinada para realidade nenhuma

roubam-nos ainda o medo que nos levanta, os impolutos ladrões que nos asseguram conhecer o que não é possível conhecer, sem desse conhecimento fazerem qualquer prova demonstrativa

esses impolutos agiotas que negoceiam a evidência da terra, que impõem juros à dádiva que se extingue nela própria e nos diz: Vive!

no chão da consciência do último medo tudo acaba pois todos os significados são consumidos

na fronteira que não se pode dizer fronteira, na linha que não se pode dizer linha, na ponte que não se pode dizer ponte, nos antípodas da gravidade que não se pode dizer serem antípodas da gravidade,

no chão da consciência, em qualquer ausência de designação que ninguém sabe o que é nem pode demonstrar na subtileza dos mais ínvios ardis,

ninguém sabe e por consequência não pode afirmar,

de modo que só a poesia derruba os impolutos agiotas da eternidade que nunca conheceram na pele e na língua o gineceu

 

2.

é tão provável como o silêncio da noite, o argaço do dia, a incerteza do sono, a rotação da Terra e dos climas, o regresso das faculdades do Sol e a consciência da pele,

que o fim depois do cabo do corpo seja uma parede incolor e de betão imaterial com as marcas vivas da cofragem da falta,

da condição da consciência-carne que não estanca o absoluto da palavras adrede

uma parede não-parede, deve ser o que existe depois no não-depois da exalação da consciência,

orlada de líquenes da cor espessa e escura do sangue que nesse não-então não é a cor espessa e escura do sangue, desinfestada da ferrugem das circunstâncias, pura, ante-pura e não-depois de ser pura

uma parede não-parede que é tudo e  não-tudo, nada e não-nada, memória e não-memória, libertação e não-conhecimento

creio tão provável como a nudez e o choro com que despertamos fora do útero, depois da dor, no absoluto devir contrário aos deuses,

que o não-saber no cabo do corpo-consciência seja uma parede não-parede

*

Ilustração: dos diários gráficos, pastel de óleo, 1999.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s