Amália

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a noite viva, o dia apenas, as estrelas e o poço,

a solidão do fumo do cigarro que se evola

a sede do deserto puro do pescoço

que nenhum beijo profana ou arrola

 

a voz do som do mar, da luz do silêncio,

dos murmúrios e adivinhas, das casas brancas,

(esses olhos onde sofre a beleza do incenso

e se consome o natural fogo que não estancas)

 

esse indizível que fulge palavras no desgosto,

redime a melancolia dos mapas ocultos,

o impossível mudado em fogo posto

de contentamentos novos e resolutos

 

a ravina sobre a praia que a respiração enlaça

aves, braços de árvores e a corola da flor,

um único longo adeus e as mãos da linhaça

essa voz feita da amorosa definição da dor

 

 

*

Desenho: vieux-chêne, papel, 2000, pormenor.

Vídeo: Malaventurado (Bernardim Ribeiro [1482-1552] / Alain Oulman [1928-1990]). Guitarra: José Fontes Rocha (1926-2011), viola: Martinho d’Assunção (1914-1992). Do disco Cantigas Numa Língua Antiga, EMI-Valentim de Carvalho, 8E 072-40447, editado em Abril de 1977.

 

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