patologia do acaso, diário, 12

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2017, Janeiro, 15. Movemo-nos, mesmo na recusa e sob a legitimação da benevolência de uma cadavérica esperança, para o inexorável, e ainda que não pensemos nisso, com gravidade consciente, todos os dias, sabemo-lo pois tal caminho para o fim está inscrito na consumação irrepresível de cada pensamento, de cada gesto, de cada fragmento da respiração, de cada declinação do olhar quando os globos oculares se movem e captamos os instantes multitemporais de uma luz que subscrevemos eterna. Mas não existe a eternidade, ninguém existe ou existiu que possa jurá-la e nesse juramento conferir-lhe alguma forma da forma que nunca adquiriu senão caucionando o recibo da conta da escravidão aos agiotas. Um silêncio rochoso. Retirar pedras desse silêncio rochoso, amontoá-las, de princípio, e depois considerar se essas pedras do silêncio rochoso podem ser mais do que pedras que não seriam pedras sem a designação e os significados que as fazem mais do que pedras. Erguemo-nos aqui, depois das explicações falsas da trovoada e da morte, quando pedimos contas a quem no-las explicou e verificamos que essas contas estão erradas e não nos salvam, porque não encontramos plausibilidade futura para o arbítrio de sermos no passado, no presente e no futuro, nem para o outro arbítrio, artificial, da explicação disso sem outro resultado que não seja o da cabeça no cepo do juízo dos deuses e dos agiotas. Talvez por essa razão choramos com os filmes. Somos salvos por pessoas, pelos outros de nós e não pelos deuses de qualquer ignota natureza, mas as pessoas preferem matar-se umas às outras das mais diversas e pequenas maneiras porque se matarem os deuses cometem suicídio.

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Ilustração: dos diários gráficos, tinta-da-china, 1999.

 

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