o penhasco da anuência

tmp1968-copia

 

se eu acedesse a salvar-me estaria limpo, mas eu vim, sem culpa formada,

do pélago odor uterino, coberto dos restos e do sangue da vida da carne contra o tempo, a razão e o sentido,

envolto no visco translúcido e frágil da imperfeição, nos antípodas do sono

 

se eu acedesse a salvar-me condenava-se por fundamental traidor,

por relapso ao abismo inscrito, à noite incisa e lúcida, por subscritor de uma falsa benevolência divina

que ajuda a comer o joio do simulacro da morte

 

se eu acedesse a salvar-me tornaria vã a esperança do cansaço,

inútil a desforra sobre a dolente justificação do indizível como se não houvesse linguagem,

e tudo estaria certo – e contrário ao que me fez nascer

 

se eu acedesse a salvar-me encerraria as perguntas da noite sob o eufemismo da cicatriz,

negaria todas as certas junturas feitas da razão e da carne,

e não haveria o que salvar de mim

 

*

Ilustração: dos diários gráficos, colagem, tinta-da-china, 2010.

 

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