o fermento da impureza

sketchbook-056-copia

 

1.

comerei palavras sem talheres, sílaba por sílaba, nas pontas dos dedos,

palavras com casca de caroço no âmago e partirei os dentes nos seus degredos

de sal e de silêncio, os riscos curvos dentro da noite, assim como o cigarro derradeiro do maço,

contra os dentes dos cães que escrevem o destino nas trinta e cinco linhas

do papel almaço vagamente azul da inveja e do despeito

 

comerei palavras sem cerimónia, comerei a verdade sem aviso, comerei o vidro sem medo,

e o sangue dessa fome na língua e no esmalte dos dentes

lava-me os dedos do pó da cinza morta dos cigarros apagados, do gelo da luz cortante decantada pela janela da cozinha a trespassar o vidro vertical do dia,

sob o Sol e a teoria do caos do Universo, primeiro na exígua margem rebaixada da estrada e depois

no caminho da terra sob o alvor da Primavera, no meio-dia inteiro do Mundo no cabo do último dia de Abril

 

2.

tudo isto, que escrevo de novo, passou de mim

envelheci

no sentido radical do ser da consciência, nem contra nem a favor das medidas do tempo,

indiferente ao patíbulo da razão ou da lâmina, pois a condenação está lavrada desde o começo

 

é a realidade: como palavras sem talheres e sem cerimónia, sílaba por sílaba, nas pontas dos dedos, nas papilas gustativas da língua,

como a verdade, sem olhar aos avisos decantadores que desconhecem ser a impureza o verdadeiro fermento da livre sabedoria da velhice

 

*

Fotografia: diário gráfico, 1998, pormenor.

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