indício do conhecimento

daily-life-087

 

quando penso na morte entendo-me
na primeira-última realidade de respirar, de me encontrar corpo-consciência, livre
da alegação da culpa que inventou a passagem
quando o relâmpago feriu a noite, o trovão ecoou na abóbada da atmosfera indecifrável
e a explicação agiota do céu aconselhou a caverna e o silêncio da pele
sob os juros da angústia

quando penso na morte encontro-me
na margem contrária da posse e do oculto consolo justificativo de um lugar indemonstrável,
isto é, à beira da vegetação selvagem de um caminho terrestre,
limpo de sonhos decepados e no movimento do novo passo, antes de
adornar no fim do oceano

a pele, depois a carne, as fibras, o coração e por último os ossos
na terra fertilizada pela humidade da névoa, o frio da manhã
e a luz que da noite reacende o Mundo

 

*

Fotografia: Jorge Muchagato, Estoril, 2009.

 

 

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