quando – primeira divagação

dsc01695-copia

 

é provável que tenha ocorrido algures nos átomos do ignoto, na poeira do acaso, na condenação de dois olhares, no uno de dois corpos,

um erro,

que eu inteiro seja um erro, dado que é um erro entender-me um erro,

pensar até ao risco da decisão da parede e da contra-decisão

 

o pior é a noite, a trégua

vencida da noite, ainda que as contas estejam pelo menos justas porque certas não sei se estão,

quando a terra fica «de costas para o sol» e a guerra cessa sob o peso

da deserção ou do abandono

 

não é verdade inteira que no cansaço desta pulsão de morte eu queira morrer,

quero apenas dormir um intervalo da morte, um descanso dos danos

 

quando fizer a pé a estrada da foz, sob a álea de árvores, quando for na praia, quando for no mar

dsc01694-copia

 

Fotografia: Catarina Verdier (n. 1979), de costas para o sol, óleo sobre tela, 2001, pormenor e vista geral.

 

 

As palavras na rede

dsc01690-copia

A rede social mais famosa, não sendo, em termos objectuais, uma realidade real, é uma dada realidade onde interagem reais de diversa natureza, alguns dos quais profundos, que advindos do inconsciente transfiguram os seus utilizadores, com maior ou menor continuidade temporal, com maiores ou menores consequências, em Ícaros e Sísifos de, ao fim e ao cabo, realidade nenhuma que não seja a das suas próprias realidades psíquicas. Existe, portanto, uma dada mundividência povoada até à exaustão por projecções onde a realidade real é aferida, confirmada, contrariada, posta à prova e, por fim, reconstruída, tanto no sentido da verdade como no sentido da mentira ou da efabulação; e tudo mediado, em simultâneo, pela segurança que a distância preserva, mas também pela ousadia e pelo risco inconsequentes que outros suportes de tipo objectivo tenderiam a refrear. De facto, um dos aspectos mais interessantes que resulta da observação desta rede social é o de verificar que as pessoas dizem verdades, veladas ou peremptórias, elucidativas ou insultuosas, que nunca teriam a coragem de proferir diante da presença física do outro e quando se apercebem das consequências dessa selvajaria, censurada, ou pelo menos moderada, na vida social real e presencial, tornada corpo, apercebem-se também, demasiado tarde, do valor absoluto da palavra escrita; um valor absoluto que não está mediado e que é imediato. A rede “alimenta-se” da profundidade de paradoxos que a maior parte das pessoas não consegue gerir e nos quais incorre sem pensar, porque a indefinição ardilosa da rede instala-se dentro da cabeça, provavelmente quase desde o início da sua utilização. Assim, paradoxalmente, a rede social que pretende aproximar as pessoas, separa-as muitas vezes, sem remédio: por um lado, porque o conhecimento superficial dos significados das palavras gera equívocos com frequência insanáveis e, por outro lado, porque desocultando uma verdade verdadeira, gera inevitáveis decepções, seja nos conhecimentos comuns seja na relação projectada com os mais ou menos famosos de diversas áreas que cedem, no fundo – na rede, mas provavelmente não na vida real ou nas páginas de um livro – à possibilidade de uma fama imediatamente aferida, ou de pouco mais do que um exibicionismo que a popularidade fulgurante de seguidores acríticos desejosos de existirem perante os ídolos, legitima. Com efeito, a rede social não é um telefone, muito menos uma mesa de café ou de sala de jantar, e a palavra escrita está envolta num silêncio saturado de interpretações indomáveis. A palavra escrita, silenciosa e absoluta, ao contrário da palavra falada, que é coadjuvada pelo tom da voz, pela expressão do olhar ou pelo gesto, é irredutível ao recuo. Torna-se necessário compreender que a rede social é de facto uma rede, a um tempo figurada e objectiva, e que a rede ela própria não pressupõe, em relação aos seus utilizadores, a reciprocidade ou os seus cambiantes; pelo contrário: como todas redes, desde as redes fabricadas pelas aranhas até às redes de pesca, tudo aprisiona à excepção daqueles que as manejam, estejam eles na origem da rede ou nos seus sucedâneos. Não existe nesta rede social um meio-termo entre a palavra e o silêncio; ou é uma coisa ou é outra. A sensatez aconselha a que, não dominando adequadamente os significados da palavra, se opte pela prudência do silêncio. «Se não sabes o que vais fazer, é melhor estares quieto». Porque a força desmesurada que a rede social tem pressupõe, precisamente, que os seus utilizadores a esqueçam enquanto a utilizam; que os seus utilizadores caiam na armadilha e no engodo psíquicos do convencimento de estarem a escrever, de dentro da sua cabeça, para duas ou três pessoas, para um grupo restrito, quando, na realidade, estão a escrever para um número indeterminado de pessoas. O problema – que os utilizadores da rede a esqueçam enquanto a utilizam – conduz-nos ao princípio e à questão da verdade verdadeira desocultada. Daqui imagine, cada um, o que significa esta verdade e a sua consequência em termos de responsabilidade intelectual.

*

Fotografia: Fevereiro de 2017.

deriva

dsc01688

 

uma lenta deriva pulsante de terras e musgo húmidos

no algures-ruína do átomo original escorre sol dos ossos encurvados

o chão firme de não falar o mesmo onde lateja o incandescente

o álcool puro e o antídoto da forja dos dias arquivados

 

uma ferida informe purulenta de anteformas

névoa estática desistência sem vírgulas realidade vagarosa

esta deriva de carne cultivada sedenta do precipício onde

fermenta o silêncio que vence a mudez e a água umbrosa

 

*

Fotografia: Introdução à história do século XX, pormenor, acrílico, colagem e terra sobre tela, 2011.

patologia do acaso, diário, 20: “Servir” a História, “servir” a escrita da história

dsc01587-copia-2

 

2017, Fevereiro, 22. “Servir” a História, “servir” a escrita da história. Tal como o marceneiro verifica os instrumentos do seu ofício antes de empreender a sua arte, assim o historiador deve verificar os seus antes de começar a escrever.

“Servir” a História é diferente de “servir” a escrita da história: o primeiro caso é com muita facilidade dado a equívocos, mas o segundo não é dado a outra coisa senão ao rigor, porque é na capacidade da aferição dos instrumentos, e por consequência na sua qualidade, que está o método do historiador.

*

Fotografia: Fevereiro de 2017.

patologia do acaso, diário, 19: «Um texto deveria começar sempre pela cor do céu»

dsc01630-copia

 

2017, Fevereiro, 21. «Um texto deveria começar sempre pela cor do céu» . O céu tem explicação, mas a fortaleza suicida das pessoas despreza-a para a fogueira recíproca do ingresso. Uma pessoa compreende, de facto, ser preferível falar para si própria, talvez daí resulte algum entendimento de si mesma. Bem entendido que se transforma num selvagem, mas o mundo está repleto de selvagens que falam e tornam a falar e não saem do mesmo argumento, apesar de a conversa já ter percorrido uns quantos argumentos novos. Bem entendido, também, que uma pessoa que se transforma num selvagem pode sempre deixar de o ser; talvez o selvagem em que se mudou seja apenas um desejo de regresso ao bosque, às veias da terra, à fertilidade do silêncio, ao tempo para gostar a cor do céu. Mas um selvagem que é selvagem desde a consciência de si não tem lugar onde regressar, ruína alguma, são as paredes insuspeitas para as quais nos encontramos obrigados a falar, sem qualquer sentido de reciprocidade. As paredes insuspeitas que nunca escreverão uma frase fora das linhas do papel almaço. Muitas vezes me entendo a dizer-me «Estás a transformar-te num selvagem», mas sucede que quanto mais me encontro nesse estado selvagem, mais capaz me encontro de falar com toda a gente, a diversos propósitos, nas ocasiões mais vulgares.

Mas eu fiquei, amigo, com a tua frase, amiúde me lembro dela, porque um dia tudo isto acabará e pouco mais deixaremos para além da cor do céu e da força dos braços a apontar essa cor nunca a mesma para que os nossos a descubram também todos os dias quando o mundo ressurge e os selvagens profissionais tornam a despertar para a sua destruição cheia de sensibilidade. Uma pessoa a salvo de si mesma contenta-se a olhar o céu inexistente que a televisão noticia. Algumas delas, imprudentes, ou demasiado confiantes, diga quem o souber, escrevem romances de diversa natureza. Mas o céu. «Já viste como o céu é tão grande?», deitados no pequeno pedaço de relva do jardim da casa onde todos então vivíamos, estávamos no tempo do ressurgimento do mundo, o Inverno passara. Sinto ainda na minha cabeça o calor tépido da sua cabeça de pequenito e vejo ainda esse dado azul do céu e o pedaço da empena branca da casa. Esse céu de início de Verão, tão límpido e apaziguador, visto da terra.

De modo que está certo,

«um texto deveria começar sempre pela cor do céu

Hoje fui sob um céu maravilhosamente azul. Há muitos azuis.

A senti-lo por cima dei de pensar que a crítica literária tinha (não sei se ainda tem…) o deplorável hábito de destroçar os textos na simples circunstância de mencionarem a cor do céu. De tal maneira que, a fugir de tais vexames, a meteorologia está mais ou menos extinta da literatura contemporânea. Os textos entram logo a matar, sem abelha que se veja atrapalhada na chuva, com cadáveres às primeiras sílabas. E não há maneira de saber a cor das folhas, se um mocho piou, se os pintassilgos estavam em cio. Enfim, nada de nada, como se os humores humanos fossem completamente alheios a tais ocasos.

O último livro que tenho memória de ter lido a ocupar-se dessas coisas à fartazana encontrei-o na mui magra secção de livros portugueses de uma biblioteca pública em Houston. […]

Bom, mas o tal livro que punha adequada paixão no nomear a cor e temperatura das coisas era “Como era verde o meu vale”, uma coisa pesada e volumosa, mais ou menos como um tijolo burro, uma coisa muito bem esgalhada por um tipo que aparentemente se sentia saudoso da caça às raposas. Li-o todo numa série de manhãs num azul de temperatura exatamente igual ao de hoje, esparramado numa canoa de alumínio. E a água marulhava chlop-chlopes meiguinhos nas paredes da dita.

É coisa velha de uns trinta anos mas lembrei-me dele, daquele azul ao viver o desta manhã.

[O que é que eu quero com o rabisco destes nadas? O que é que eu “quero”? Quero nada, absolutamente nada, falo comigo. Há no mundo muito mais gente a escrever do que pessoas a ler e isso não faz qualquer diferença para as primeiras; recordamo-nos, é tudo.]»

dutilleul, blogue passaparedes.blogspot.pt, publicação de 14 de Novembro de 2016.

 

*

Fotografia: Fevereiro de 2017.

água-forte

dsc01596-copia

 

o ouro – uma ferrugem irracional, uma culpa violenta do avesso

 

no chão obscuro, sob a água negra da sede,

o mineral das angulosidades inúteis das palavras, vestígios de sal,

 

o ouro – uma traição ao medo, uma falsa ruína sem a verdade do fogo onde deflagrou a primeira respiração

 

a configuração da transcorrência do tempo é um palimpsesto de caracteres primitivos

fundidos a molde perdido no corpo-labirinto, o buril

 

*

Fotografia: Fevereiro de 2017.

patologia do acaso, diário, 17: o Olimpo geral das eternidades de cada um

dsc01665

2017, Fevereiro, 17. O Olimpo geral das eternidades de cada um. A utilidade insofismável, para a futura escrita da história, das memórias políticas ou das autobiografias de políticos actuais, não é certa apenas porque alcançaram a legitimidade e o simbolismo da publicação em livro. Na verdade – e sobretudo considerando fundamentos culturais que vão da qualidade literária à consciência do que significa escrever a história e, por último, das propriedades que aferem a real importância de um dado testemunho a partir da crítica que o interroga – significam muito pouco no que à verdade histórica concerne. Mas os seus autores acreditam estar a escrever um testemunho incontornável da história contemporânea, esquecendo que essa qualidade de testemunho é exterior ao que publicam e não advém do seu imperativo interessado. E creio ser também verdade que os políticos que publicam as suas memórias ou as fazem escrever sob a sua esclarecida supervisão estarão convencidos de que escrevem a própria história. Pois não a escrevem; nem podem afirmar que o que escrevem alcançará algum dia uma qualquer dignidade de testemunho válido para a aproximação à verdade histórica, transposto o crivo da crítica de um historiador independente e capaz. Muitos acreditam, de facto, estar a escrever a história, quando na realidade se estão a justificar ou, nos casos mais torcidos, se estão simplesmente a vingar ou, ainda, nos casos mais ingénuos e patéticos, a assegurar, por via da nobreza secular do livro, um lugar na posteridade das “glórias” domésticas, quando não, nos casos mais doentios, na posteridade das “glórias” mundiais. Suponho que estaríamos menos mal – o que já é mal bastante – se esta assegurada reserva de lugares no Olimpo geral das eternidades de cada um se restringisse à política. Uma breve citação do incontornável e ainda actual livro de Paul Veyne sobre a escrita da história coloca no lugar adequado a urgência de muitas memórias políticas e testemunhos altruístas destinados a servir a história: «A ilusão de reconstituição integral [da história] advém do facto de que os documentos, que nos fornecem as respostas, nos ditam também as perguntas; daí, não somente nos deixam ignorar bastantes coisas, mas ainda nos deixam ignorar que as ignoramos.» – Paul Veyne [1930-], Como se escreve a história, tradução de António José da Silva Moreira, Lisboa, Edições 70, 1983, p. 24. [Edição original: Comment on écrit l’histoire, Paris, Éditions du Seuil, 1971.]

*

Fotografia: pormenor da capa da primeira edição portuguesa, de Fevereiro de 1983, 2017.

patologia do acaso, diário, 16: o caminho das respostas

cc-1184-a_0001_1_p24-c-r0150

2017, Fevereiro, 11. O caminho das respostas. A luz regressa, o primeiro calor que demonstra a reaproximação ao Sol ou uma nova aproximação ao Sol, começa a libertar a terra do sufoco da chuva e da lâmina do gelo. O centro do sistema solar é constante, o movimento de translação da Terra muda, é-nos imperceptível, a nossa vida é demasiado breve, mas sabemo-lo, guardamos a herança de um longo e árduo caminho do pensamento, feito de séculos e séculos de conquistas e de retrocessos, de vitórias dolorosas e de derrotas devastadoras; um caminho ensanguentado onde a morte muitas vezes venceu durante algum tempo, mas onde foi a vida a moldar o lacre fervente com que se fecha a carta a remeter. Se a Natureza, condenada ao arbítrio eterno e desprovido de justificação, se regenera, agora que a luz e o calor regressam, maior obrigação tem cada um, que não se acha sentenciado sob a espada de qualquer arbítrio, de se regenerar também. É bem certo que não podemos mudar essa ausência de justificação para o arbítrio que ordena a Natureza, mas temos na cabeça o poder da explicação demonstrável das incontáveis metamorfoses da manifestação de tal arbítrio anterior a todas as indagações das nossas perguntas. Se nos consentimos entender com alguma benevolência as potencialidades do acaso, devemos com a mesma esperança compreender que o destino é a argila informe que aguarda as nossas mãos, o poder indomesticável e transformador da nossa vontade, do nosso desejo, da nossa resposta à morte. É por sabermos, desde o princípio da consciência de nós, que o triunfo da morte está lavrado nesse arbítrio incontestável, que toda a vida deve ser uma resposta à morte, porque se a sentença está lavrada, também ficarão exarados os argumentos e os termos da contestação. Amaldiçoar a adversidade ou esquecê-la, é diminuir a qualidade da resposta que nos é permitida. Uma nova aproximação à luz começa agora. Tudo isto que escrevo, decerto vulgar, se relaciona com a escrita da história, porque a aproximação à luz é também a aproximação à verdade; não é propriamente a distância que mede ou define essa aproximação – mas a sua qualidade; a qualidade que permite discernir o caminho adequado e mais frutuoso.

*

Imagem: [Mapa mundi celeste]. [Escala não determinada]. [s.l., s.n., ca. de 1690], gravura. Fotografia: Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, cota: C.C. 1184 A., Biblioteca Nacional Digital, http://purl.pt/4118/3/.

 

patologia do acaso, diário, 15: o ressurgimento do mundo

02

2017, Fevereiro, 10. O ressurgimento do mundo. A luz regressa e limpa a contaminação depositada no ar, os dias vão abandonando a sua condição deprimida, o sentido opressivo, servil, de antecipação da noite, em pouco tempo o esplendor da terra voltará a ser visível. Nesta expectativa do retorno da luz criativa, apaziguadora e sediciosa, a chuva adquire uma acepção purificadora, um significado que renova o mundo. Vigora ainda uma temperatura fria e dolorosa que ameaça cortar a pele da face e das mãos, mas aceito as gotas da chuva na pele como um indício de felicidade. O Inverno é-me quase insuportável, resultado, decerto, da minha natureza acentuadamente depressiva; e assim o Outono, um falso esplendor piedoso antes da morte, e no centro desta longa devastação instala-se por dois meses a tirania natalícia. Durante o Inverno não existe uma equivalência entre as qualidades do dia e as qualidades da noite, tudo é desequilíbrio e descoincidência, opressão e tristeza, negação. Existirá beleza no Outono e no Inverno, mas do insondável de mim, não a encontro, tudo é desolação, evidente e oculta, tudo se me afigura uma opressão da potência da vida, e a vida mudada numa sobrevivência de constantes transposições, visíveis ou invisíveis, desprovidas da esperança do calor. Mas sou eu, sei que sou eu. Agora a luz regressa. O ressurgimento do mundo acende em mim uma certa imunidade ao Mal que o tempo das trevas debilita sob a razão plausível de uma natureza depressiva contra a qual não posso lutar mas transformar em força criadora. Essa invencível natureza depressiva muda a linguagem por via das qualidades da lucidez, toda a equação lúcida é violenta; uma linguagem que se transforma de mesma em outra, uma espécie de depressão geográfica, um buraco escavado dentro do corpo, algures na origem da respiração.

[«Discute-se com as pessoas, está-se só, têm-se opiniões diferentes, pessoais, e está-se só, sempre […]. Fazer-se compreender não existe, é impossível. Resulta daí uma solidão pior, a de se estar separado de tudo por se ter consciência da própria solidão […]. A dificuldade está em começar. Para o imbecil, não é uma dificuldade, ele ignora-a. Fabrica filhos ou livros, faz um filho, um livro no qual multiplica, ininterruptamente, filhos e livros. É-lhe indiferente: de todos os modos, não pensa. O imbecil não conhece dificuldades, levanta-se, barbeia-se, sai à rua, deixa-se atropelar, é-lhe indiferente. Desde o princípio, sem dúvida desde sempre, só há resistência. O que é a resistência? A resistência é um material. O cérebro tem necessidade de resistências. Enquanto conseguir acumular respostas, dispõe de material. Resistência? Resistência já há quando se olha pela janela […].» Thomas Bernhardt, Trevas, tradução, introdução e cronologia de Ernesto Sampaio, Lisboa, Hiena Editora, 1993, pp. 55 e 56-57.]

Somos o insondável de nós e esse insondável é uma ruína, algures; não conhecemos de facto essa realidade oculta mas somos o que está nela e algo desse lugar profundo nos chega e atinge continuamente e a um tempo nos define e nos trai, nos descobre e nos oculta; nos descobre quando nos ocultamos e nos oculta quando nos descobrimos. Com muita frequência somos traídos por aquilo que não dizemos, esquecendo os diferentes significados do silêncio, menorizando a escuridão que a evidência das afirmações esconde, a noite subconsciente que denuncia, sob um grito, sob um arremesso constante, a mentira vigente do dia; essa noite interior que justifica todas as parcelas de uma conta manifestamente errada para dentro e toda certa para fora. Mas é dentro, nesse algures, nesse insondável de nós que por certo os psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas saberão explicar ou interrogar, que está a terra fértil da nossa humanidade e dos seus gestos. Talvez, ao cabo das contas, sejamos feitos do lume que tudo regenera, por ser o fogo, sem tempo, origem e fim. A luz regressa.

*

Imagem: Alexandre Madureira (n. Porto, 1976), You talkin’ to me?, fibra de vidro, madeira, ferro e gramofone, da exposição Lost in Translation, «a project based on self-reflection about the desire never satisfied», Werner Thöni ArtSpace, Barcelona, 3 de Abril a 23 de Maio de 2014. Fotografia da página online do artista, www.alexandremadureira.com.