patologia do acaso, diário, 13: o mundo de hoje: um lugar à venda pelo pior preço

09-03-2011-018-copia

2017, Fevereiro, 2. O mundo de hoje: um lugar à venda pelo pior preço. Vivemos de facto ou protelamos o suicídio? Acolha a pergunta quem queira, responda ou ensaie uma resposta quem souber, mas não a recuse sob o simulacro de a considerar o resultado das especulações de um espírito perturbado. Recusar esta pergunta é dar-lhe como resposta a arbitrária benevolência do acaso e reconhecer, sem a consciência disso, que vivemos orientados pela manipulação hoje caucionada por um conceito demasiado abrangente para significar alguma coisa: informação. Essa manipulação ascendeu à categoria de realidade aceite e portanto aferidora da sanidade mental geral e, assim, da inclusão social, da condição gregária – quase todos a aceitam e a procuram porque a desejam como o lenitivo que adia a resposta à pergunta. O mundo tornou-se um lugar triste colocado à venda pelo pior preço possível e a enorme e fatal margem de lucro reverte para os seus destruidores. A tristeza não é um sentimento invariavelmente mau; a tristeza está na origem da melhor arte que a humanidade produziu. A alegria estará também nessa origem, é certo, mas é a melancolia que conduz, invariavelmente, ao âmago das coisas. A tristeza do mundo de hoje, porém, não tem no seu âmago essa anterior força criativa, repleta, sem o saber, de esperança; porque a tristeza do mundo de hoje já não está associada ao pensamento, que tudo pode mudar. A tristeza do mundo de hoje pode ser traduzida numa ideologia da anuência inoculada a troco de uma funcionalidade tecnológica relacional que artificializa a essência das relações humanas porque artificializou o pensamento; porque esvaziou o pensamento do seu motus de mudança e de transformação. Nesta tristeza anti-criativa nada pode vingar senão a manipulação ou a outra palavra que pode ser colocada junto a esta: propaganda, o estado mental que direcciona o usufruto da tecnologia e condiciona, por reprodução da desinformação e, em última instância, da ignorância, o acesso à cultura disponível na rede. Uma tristeza anti-criativa e intoxicante que tudo inquina, do acesso à cultura ao lugar da miséria. Protege-se os desvalidos, mas não se lhes muda a condição porque são necessários ao protelamento do suicídio da consciência; a consciência que sabe, e , o dinheiro que provém do status quo da pobreza de diversa natureza. Tudo isto está ligado por arames, não já por cordéis; a qualidade de marionetas foi transposta, não há nós para desatar, os arames terminam com a forma de anzóis e estão na carne, não é possível retirá-los sem dor.

As minhas particulares circunstâncias fazem com que assista, durante alguns minutos, à emissão de um noticiário da manhã numa estação televisiva enquanto tomo o café num estabelecimento. O conteúdo e a sucessão das notícias orienta-se no sentido da instilação do medo, da fragilidade, da impotência e, nestes sentimentos induzidos onde a vontade não deve existir, do lugar protector, porque informativo, do meio de comunicação. A televisão está aqui, é nossa amiga, dá voz à nossa miséria, alguém nos virá proteger. Mas a televisão não está naquele lugar com intuitos profilácticos ou altruístas; a televisão está naquele lugar para fazer dinheiro, porque a sua presença é injustificada, dado que a repórter alerta para uma tempestade marítima que não existe, para a violência do vento que não se verifica. Nada mais para além das condições vulgares do Inverno nesta localização geográfica do Mundo. Esta dramatização ridícula atinge o ponto culminante quando a emissão “cai” sem condições meteorológicas tão adversas que o justifiquem. O bordel “informativo” apoderou-se dos Elementos enquanto arma de arremesso no prostíbulo geral da domesticação. Concluída esta mise-en-scène de uma tempestade inexistente, concluída com a interrupção provavelmente forjada da emissão, transporta-se a ópera-bufa para outro lugar onde também se sente a adversidade do Inverno. É natural: vigora o Inverno no Hemisfério Norte.

A esta mistificação segue-se a mistificação da juventude eterna e do ínvio discurso paternalista do profissional com loja aberta que conseguiu a “fava” do bolo putrefacto: a entrevista, por alguns minutos, na televisão. Pouco ou quase nada que se assemelhe a um pensamento equilibrado sobre as idades da vida; apenas um receituário indigente que fomenta a dependência de pouco mais do que «coachers» legitimados pela esperteza de um qualquer editor atento ao “mercado” da possibilidade de se ter vinte e cinco anos quando na realidade se tem setenta e cinco. E é possível isso, sim, mas sem cabeça.

Sentei-me na sala reservada aos fumadores com a expectativa de alinhavar uma ou duas frases durante o café e o cigarro, mas não consigo; a televisão provoca-me uma náusea desmedida, as imagens daquelas máscaras satisfeitas e atoladas em mistificação, as suas vozes melosas, os sons; e decido-me pelo caminho, que neste lugar à venda pelo pior preço, é necessário percorrer até chegar onde agora estou, escrevo e pergunto. No mundo de hoje, este lugar à venda pelo pior preço, viver é protelar o suicídio. Em todo o caso, é alguma coisa; enquanto se protela é sempre possível pensar nas formas que cada um tem ao seu alcance para que o preço deste lugar seja valorizado. Mas é possível, também, que essas formas doam, pois é necessário, sem hesitação nem medo, retirar os anzóis da carne.

*

Fotografia: 2011.

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