patologia do acaso, diário,14: as sociedades dos príncipes das trevas

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2017, Fevereiro, 2. As sociedades dos príncipes das trevas. As sociedades são, em certa medida, aquilo por que a maior parte dos seus constituintes se interessa ou tende a interessar. Estes, contentam-se com as frágeis epifanias das evidências e decifram pouco mais do que o acaso imediato. Os diversos poderes, sabendo-o – porque essa realidade psíquica é objecto dos “estudos” que encomendam sem encomendarem – não precisam de pensar nem de laborar mais do que para esta satisfação fugidia e facilmente contentável que não procura a essência das coisas e assim não sabe distinguir, nem a razão das coisas nem a sua fundamentada importância, nulidade ou perniciosidade. Neste contexto burilado por uma propaganda-pavlov, a maior parte dos seus “objectos” não compreende que o prazer que se retira das coisas está ligado à qualidade dessas coisas e não necessariamente ao juízo geral sobre elas e, ainda, que é necessária a exigência da qualidade da procura, que é selectiva, cada vez mais selectiva, e não acumuladora. Procurar é diferente de coleccionar e de acumular, dado que todas as colecções acabam na loucura indiferenciada da acumulação. Esta exigência não se faz numa “escola” de príncipes – que não questionam a condição em que se encontraram, a consideram natural, assim como natural será um dia virem a ser reis ou imperadores – mas requer esforço, e é, no juízo de quem a adquire, um dos fundamentos da sua maioridade intelectual e emocional. Aquilo que nos separa das trevas – «Creio que uma das poucas coisas que podem interpor-se entre nós e um mergulho acelerado nas trevas é a série de valores que herdámos das Luzes do século XVIII» (Hobsbawm, 1994) (1) –, apesar de os interruptores da luz eléctrica ainda funcionarem quando chega a noite e de os telemóveis todos os dias serem aperfeiçoados com novas funções.

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(1) Eric Hobsbawm (1917-2012), «Barbárie: Guia de Instruções», in Escritos sobre a História, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 2010, p. 229. A citação, apesar de inequívoca, deve ser entendida no contexto de onde foi retirada:

«A barbárie não é, como a arte da dança sobre o gelo, uma técnica que tenha de ser aprendida; não o é pelo menos a não ser para quem queria tornar-se torcionário ou outra variedade de especialista em actividades inumanas. É antes um subproduto das condições de vida num determinado contexto social e histórico, qualquer coisa que faz parte do terreno, como diz Arthur Miller em A Morte de um Caixeiro Viajante. Quero referir-me antes a qualquer coisa como o sentido do verbo “safar-se”, que indica a adaptação das pessoas à maneira de viver de uma sociedade da qual estão ausentes as regras da civilização.»

«Creio que uma das poucas coisas que podem interpor-se entre nós e um mergulho acelerado nas trevas é a série de valores que herdámos das Luzes do século XVIII. É uma opinião que não está na moda actualmente, uma vez que hoje as Luzes são repudiadas e acusadas de superficialidade, de ingenuidade intelectual ou de serem uma conjura de homens brancos, mortos e enterrados, que usavam peruca e tinham por propósito justificar com as suas ideias o imperialismo ocidental. Independemente de as Luzes terem ou não sido tudo isso, são também o único fundamento de todas as aspirações que visem a construção e sociedades permitindo, no seu interior e em qualquer parte da terra, a vida de todos os seres humanos, bem como a declaração e garantia dos seus direitos humanos enquanto pessoas. Seja como for, o progresso da civilidade, que se verificou a partir do século XVIII e até aos começos do século XX foi levado a cabo, sob a influência largamente dominante ou exclusiva das Luzes, por governos formados por “absolutistas esclarecidos”, como continuamos a chamar-lhes em intenção dos alunos de História, ou por revolucionários e reformadores, liberais, socialistas, comunistas, que pertenciam, todos eles, à mesma família intelectual. Não ficou a dever-se aos críticos das Luzes. Esta época em que o progresso não só era entendido como devendo ser ao mesmo tempo material e moral, mas efectivamente o era, chegou ao fim. Mas o único critério de que dispomos para criticar o afundamento subsequente na barbárie, em vez de nos limitarmos a registá-lo, continua a ser o antigo racionalismo das Luzes.» (pp. 227 e 229-230).

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Fotografia: Jorge Muchagato, Fevereiro de 2016.

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