patologia do acaso, diário, 15: o ressurgimento do mundo

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2017, Fevereiro, 10. O ressurgimento do mundo. A luz regressa e limpa a contaminação depositada no ar, os dias vão abandonando a sua condição deprimida, o sentido opressivo, servil, de antecipação da noite, em pouco tempo o esplendor da terra voltará a ser visível. Nesta expectativa do retorno da luz criativa, apaziguadora e sediciosa, a chuva adquire uma acepção purificadora, um significado que renova o mundo. Vigora ainda uma temperatura fria e dolorosa que ameaça cortar a pele da face e das mãos, mas aceito as gotas da chuva na pele como um indício de felicidade. O Inverno é-me quase insuportável, resultado, decerto, da minha natureza acentuadamente depressiva; e assim o Outono, um falso esplendor piedoso antes da morte, e no centro desta longa devastação instala-se por dois meses a tirania natalícia. Durante o Inverno não existe uma equivalência entre as qualidades do dia e as qualidades da noite, tudo é desequilíbrio e descoincidência, opressão e tristeza, negação. Existirá beleza no Outono e no Inverno, mas do insondável de mim, não a encontro, tudo é desolação, evidente e oculta, tudo se me afigura uma opressão da potência da vida, e a vida mudada numa sobrevivência de constantes transposições, visíveis ou invisíveis, desprovidas da esperança do calor. Mas sou eu, sei que sou eu. Agora a luz regressa. O ressurgimento do mundo acende em mim uma certa imunidade ao Mal que o tempo das trevas debilita sob a razão plausível de uma natureza depressiva contra a qual não posso lutar mas transformar em força criadora. Essa invencível natureza depressiva muda a linguagem por via das qualidades da lucidez, toda a equação lúcida é violenta; uma linguagem que se transforma de mesma em outra, uma espécie de depressão geográfica, um buraco escavado dentro do corpo, algures na origem da respiração.

[«Discute-se com as pessoas, está-se só, têm-se opiniões diferentes, pessoais, e está-se só, sempre […]. Fazer-se compreender não existe, é impossível. Resulta daí uma solidão pior, a de se estar separado de tudo por se ter consciência da própria solidão […]. A dificuldade está em começar. Para o imbecil, não é uma dificuldade, ele ignora-a. Fabrica filhos ou livros, faz um filho, um livro no qual multiplica, ininterruptamente, filhos e livros. É-lhe indiferente: de todos os modos, não pensa. O imbecil não conhece dificuldades, levanta-se, barbeia-se, sai à rua, deixa-se atropelar, é-lhe indiferente. Desde o princípio, sem dúvida desde sempre, só há resistência. O que é a resistência? A resistência é um material. O cérebro tem necessidade de resistências. Enquanto conseguir acumular respostas, dispõe de material. Resistência? Resistência já há quando se olha pela janela […].» Thomas Bernhardt, Trevas, tradução, introdução e cronologia de Ernesto Sampaio, Lisboa, Hiena Editora, 1993, pp. 55 e 56-57.]

Somos o insondável de nós e esse insondável é uma ruína, algures; não conhecemos de facto essa realidade oculta mas somos o que está nela e algo desse lugar profundo nos chega e atinge continuamente e a um tempo nos define e nos trai, nos descobre e nos oculta; nos descobre quando nos ocultamos e nos oculta quando nos descobrimos. Com muita frequência somos traídos por aquilo que não dizemos, esquecendo os diferentes significados do silêncio, menorizando a escuridão que a evidência das afirmações esconde, a noite subconsciente que denuncia, sob um grito, sob um arremesso constante, a mentira vigente do dia; essa noite interior que justifica todas as parcelas de uma conta manifestamente errada para dentro e toda certa para fora. Mas é dentro, nesse algures, nesse insondável de nós que por certo os psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas saberão explicar ou interrogar, que está a terra fértil da nossa humanidade e dos seus gestos. Talvez, ao cabo das contas, sejamos feitos do lume que tudo regenera, por ser o fogo, sem tempo, origem e fim. A luz regressa.

*

Imagem: Alexandre Madureira (n. Porto, 1976), You talkin’ to me?, fibra de vidro, madeira, ferro e gramofone, da exposição Lost in Translation, «a project based on self-reflection about the desire never satisfied», Werner Thöni ArtSpace, Barcelona, 3 de Abril a 23 de Maio de 2014. Fotografia da página online do artista, www.alexandremadureira.com.

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