patologia do acaso, diário, 16: o caminho das respostas

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2017, Fevereiro, 11. O caminho das respostas. A luz regressa, o primeiro calor que demonstra a reaproximação ao Sol ou uma nova aproximação ao Sol, começa a libertar a terra do sufoco da chuva e da lâmina do gelo. O centro do sistema solar é constante, o movimento de translação da Terra muda, é-nos imperceptível, a nossa vida é demasiado breve, mas sabemo-lo, guardamos a herança de um longo e árduo caminho do pensamento, feito de séculos e séculos de conquistas e de retrocessos, de vitórias dolorosas e de derrotas devastadoras; um caminho ensanguentado onde a morte muitas vezes venceu durante algum tempo, mas onde foi a vida a moldar o lacre fervente com que se fecha a carta a remeter. Se a Natureza, condenada ao arbítrio eterno e desprovido de justificação, se regenera, agora que a luz e o calor regressam, maior obrigação tem cada um, que não se acha sentenciado sob a espada de qualquer arbítrio, de se regenerar também. É bem certo que não podemos mudar essa ausência de justificação para o arbítrio que ordena a Natureza, mas temos na cabeça o poder da explicação demonstrável das incontáveis metamorfoses da manifestação de tal arbítrio anterior a todas as indagações das nossas perguntas. Se nos consentimos entender com alguma benevolência as potencialidades do acaso, devemos com a mesma esperança compreender que o destino é a argila informe que aguarda as nossas mãos, o poder indomesticável e transformador da nossa vontade, do nosso desejo, da nossa resposta à morte. É por sabermos, desde o princípio da consciência de nós, que o triunfo da morte está lavrado nesse arbítrio incontestável, que toda a vida deve ser uma resposta à morte, porque se a sentença está lavrada, também ficarão exarados os argumentos e os termos da contestação. Amaldiçoar a adversidade ou esquecê-la, é diminuir a qualidade da resposta que nos é permitida. Uma nova aproximação à luz começa agora. Tudo isto que escrevo, decerto vulgar, se relaciona com a escrita da história, porque a aproximação à luz é também a aproximação à verdade; não é propriamente a distância que mede ou define essa aproximação – mas a sua qualidade; a qualidade que permite discernir o caminho adequado e mais frutuoso.

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Imagem: [Mapa mundi celeste]. [Escala não determinada]. [s.l., s.n., ca. de 1690], gravura. Fotografia: Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, cota: C.C. 1184 A., Biblioteca Nacional Digital, http://purl.pt/4118/3/.

 

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