patologia do acaso, diário, 17: o Olimpo geral das eternidades de cada um

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2017, Fevereiro, 17. O Olimpo geral das eternidades de cada um. A utilidade insofismável, para a futura escrita da história, das memórias políticas ou das autobiografias de políticos actuais, não é certa apenas porque alcançaram a legitimidade e o simbolismo da publicação em livro. Na verdade – e sobretudo considerando fundamentos culturais que vão da qualidade literária à consciência do que significa escrever a história e, por último, das propriedades que aferem a real importância de um dado testemunho a partir da crítica que o interroga – significam muito pouco no que à verdade histórica concerne. Mas os seus autores acreditam estar a escrever um testemunho incontornável da história contemporânea, esquecendo que essa qualidade de testemunho é exterior ao que publicam e não advém do seu imperativo interessado. E creio ser também verdade que os políticos que publicam as suas memórias ou as fazem escrever sob a sua esclarecida supervisão estarão convencidos de que escrevem a própria história. Pois não a escrevem; nem podem afirmar que o que escrevem alcançará algum dia uma qualquer dignidade de testemunho válido para a aproximação à verdade histórica, transposto o crivo da crítica de um historiador independente e capaz. Muitos acreditam, de facto, estar a escrever a história, quando na realidade se estão a justificar ou, nos casos mais torcidos, se estão simplesmente a vingar ou, ainda, nos casos mais ingénuos e patéticos, a assegurar, por via da nobreza secular do livro, um lugar na posteridade das “glórias” domésticas, quando não, nos casos mais doentios, na posteridade das “glórias” mundiais. Suponho que estaríamos menos mal – o que já é mal bastante – se esta assegurada reserva de lugares no Olimpo geral das eternidades de cada um se restringisse à política. Uma breve citação do incontornável e ainda actual livro de Paul Veyne sobre a escrita da história coloca no lugar adequado a urgência de muitas memórias políticas e testemunhos altruístas destinados a servir a história: «A ilusão de reconstituição integral [da história] advém do facto de que os documentos, que nos fornecem as respostas, nos ditam também as perguntas; daí, não somente nos deixam ignorar bastantes coisas, mas ainda nos deixam ignorar que as ignoramos.» – Paul Veyne [1930-], Como se escreve a história, tradução de António José da Silva Moreira, Lisboa, Edições 70, 1983, p. 24. [Edição original: Comment on écrit l’histoire, Paris, Éditions du Seuil, 1971.]

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Fotografia: pormenor da capa da primeira edição portuguesa, de Fevereiro de 1983, 2017.

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