patologia do acaso, diário, 19: «Um texto deveria começar sempre pela cor do céu»

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2017, Fevereiro, 21. «Um texto deveria começar sempre pela cor do céu» . O céu tem explicação, mas a fortaleza suicida das pessoas despreza-a para a fogueira recíproca do ingresso. Uma pessoa compreende, de facto, ser preferível falar para si própria, talvez daí resulte algum entendimento de si mesma. Bem entendido que se transforma num selvagem, mas o mundo está repleto de selvagens que falam e tornam a falar e não saem do mesmo argumento, apesar de a conversa já ter percorrido uns quantos argumentos novos. Bem entendido, também, que uma pessoa que se transforma num selvagem pode sempre deixar de o ser; talvez o selvagem em que se mudou seja apenas um desejo de regresso ao bosque, às veias da terra, à fertilidade do silêncio, ao tempo para gostar a cor do céu. Mas um selvagem que é selvagem desde a consciência de si não tem lugar onde regressar, ruína alguma, são as paredes insuspeitas para as quais nos encontramos obrigados a falar, sem qualquer sentido de reciprocidade. As paredes insuspeitas que nunca escreverão uma frase fora das linhas do papel almaço. Muitas vezes me entendo a dizer-me «Estás a transformar-te num selvagem», mas sucede que quanto mais me encontro nesse estado selvagem, mais capaz me encontro de falar com toda a gente, a diversos propósitos, nas ocasiões mais vulgares.

Mas eu fiquei, amigo, com a tua frase, amiúde me lembro dela, porque um dia tudo isto acabará e pouco mais deixaremos para além da cor do céu e da força dos braços a apontar essa cor nunca a mesma para que os nossos a descubram também todos os dias quando o mundo ressurge e os selvagens profissionais tornam a despertar para a sua destruição cheia de sensibilidade. Uma pessoa a salvo de si mesma contenta-se a olhar o céu inexistente que a televisão noticia. Algumas delas, imprudentes, ou demasiado confiantes, diga quem o souber, escrevem romances de diversa natureza. Mas o céu. «Já viste como o céu é tão grande?», deitados no pequeno pedaço de relva do jardim da casa onde todos então vivíamos, estávamos no tempo do ressurgimento do mundo, o Inverno passara. Sinto ainda na minha cabeça o calor tépido da sua cabeça de pequenito e vejo ainda esse dado azul do céu e o pedaço da empena branca da casa. Esse céu de início de Verão, tão límpido e apaziguador, visto da terra.

De modo que está certo,

«um texto deveria começar sempre pela cor do céu

Hoje fui sob um céu maravilhosamente azul. Há muitos azuis.

A senti-lo por cima dei de pensar que a crítica literária tinha (não sei se ainda tem…) o deplorável hábito de destroçar os textos na simples circunstância de mencionarem a cor do céu. De tal maneira que, a fugir de tais vexames, a meteorologia está mais ou menos extinta da literatura contemporânea. Os textos entram logo a matar, sem abelha que se veja atrapalhada na chuva, com cadáveres às primeiras sílabas. E não há maneira de saber a cor das folhas, se um mocho piou, se os pintassilgos estavam em cio. Enfim, nada de nada, como se os humores humanos fossem completamente alheios a tais ocasos.

O último livro que tenho memória de ter lido a ocupar-se dessas coisas à fartazana encontrei-o na mui magra secção de livros portugueses de uma biblioteca pública em Houston. […]

Bom, mas o tal livro que punha adequada paixão no nomear a cor e temperatura das coisas era “Como era verde o meu vale”, uma coisa pesada e volumosa, mais ou menos como um tijolo burro, uma coisa muito bem esgalhada por um tipo que aparentemente se sentia saudoso da caça às raposas. Li-o todo numa série de manhãs num azul de temperatura exatamente igual ao de hoje, esparramado numa canoa de alumínio. E a água marulhava chlop-chlopes meiguinhos nas paredes da dita.

É coisa velha de uns trinta anos mas lembrei-me dele, daquele azul ao viver o desta manhã.

[O que é que eu quero com o rabisco destes nadas? O que é que eu “quero”? Quero nada, absolutamente nada, falo comigo. Há no mundo muito mais gente a escrever do que pessoas a ler e isso não faz qualquer diferença para as primeiras; recordamo-nos, é tudo.]»

dutilleul, blogue passaparedes.blogspot.pt, publicação de 14 de Novembro de 2016.

 

*

Fotografia: Fevereiro de 2017.

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