patologia do acaso, diário, 21: da desgraça e da servidão

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2017, Março, 6. Da desgraça e da servidão. A prática do juízo no sentido do Bem ou do Mal é uma pergunta que nos é constantemente dirigida por aquilo a que vulgarmente chamamos as circunstâncias, os condicionamentos exteriores que nos colocam na bússola das opções. A todo o tempo a decisão é um imperativo indeclinável que somente a resposta deslinda. Esse imperativo nem sempre se resolve em favor próprio, ou melhor, em favor próprio imediato; na verdade, são mais as ocasiões em que nos é solicitada essa suspensão do próprio interesse e proveito em face de algo que é superior, por razões que apenas existem no insondável de nós e que no fundo ignoramos ou, pelo menos, somos incapazes de decifrar nos termos da linguagem, ao egoísmo da nossa vontade. É aqui que encontramos, não propriamente uma esperança geral na vida, mas uma esperança no equilíbrio oculto da vida e da natureza. Esse equilíbrio oculto nunca se revela e é uma demanda constante, é a decifração de si, em si, nos outros, na natureza; é a obscuridade do silêncio que existe no que se diz e no que se faz. A literalidade das palavras e das acções é apenas um véu confortável que não interroga verdadeiramente a consciência; adia-a, de facto, é uma conclusão superficial; é necessário procurar, perguntar, constituir as parcelas, verificar a verosimilhança da conta, ainda que a conta possa não estar absolutamente certa, e o mais certo é que nunca venha a alcançar a perfeição de estar certa. É portanto necessário, com essa bússola das opções, encontrar nas palavras o que não foi escrito e o que não foi dito, encontrar nas imagens o que não foi por elas capturado. O Bem e o Mal não adquirem, invariavelmente, uma forma inequívoca e a literalidade das palavras esconde intenções. Por esta razão, nem o Bem nem o Mal, nas suas múltiplas manifestações, deveriam representar uma surpresa; um e outro são sempre possíveis nas situações mais imprevistas e insuspeitas – o melhor método de um historiador é a sua cultura, precisamente o algo vivido que lhe permite ver o que a historiografia francesa designou como o «não-acontecimental». Em todo o caso, algo nos separa das diversas formas que pode adquirir a selvajaria, da crueza ao requinte. Esse algo que separa cada um da barbárie é o preço a pagar por exigir a si próprio estar de pé; o preço, não o tributo. Estar de pé: facto e figura; ter a liberdade da sua cabeça. É a milenar resposta de Prometeu a Hermes, tantas vezes citada: «Fica a saber claramente: não trocaria a minha desgraça pela tua servidão»*. Não se pode exigir, na floresta de enganos que cauciona o orgulho da escravidão sob o proveito da facilidade e da adulação, que isto seja compreendido.

 

* Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, introdução, tradução do grego e notas de Ana Paula Quintela Sottomayor, Lisboa, Edições 70, 2014 [reimpressão], 966-967, p. 79.

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Ilustração: dos diários gráficos, tinta-da-china, 2000.

 

 

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