«Veritas tempori filia est»

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Serve bem, a estes dias que transcorrem pelas vicissitudes da poeira do engano, e aos simulacros teóricos elementares, desprovidos de densidade aceitável, nos quais a democracia e os seus significados se vão diluindo, sob a costumada anuência das boas consciências, na ofensiva e na retórica perversas das falsas vítimas, quando não dos falsos mártires da liberdade, o aforismo de Francis Bacon (1561-1626), «veritas temporis filia est», «a verdade é filha do seu tempo». Mas se este aforismo é uma realidade, ele não é, todavia, suficiente, pois importa saber que verdades e que tempos são esses, quais as suas qualidades, quais as suas naturezas, qual o seu lugar. Nas verdades que são filhas deste tempo, verdades e “verdades” (ou «pós-verdades»), importa sobretudo compreender, na penas da polémica que decorre sob a égide da liberdade, que quem escreve existe no assunto sobre o qual escreve, nesse assunto se descobre e se oculta, se apresenta e se dissimula, professa uma dada verdade com a mesma determinação com que se refugia na omissão para não se dirimir em culpas. Encontramo-nos, no seu fundamento abstracto, num tempo histórico como outro qualquer anterior, com a diferença essencial de existirmos nele, na consumação diária do devir. É questão labiríntica, a de uma conclusão acerca das lições da história, mas suponho que a maior parte dará por mais ou menos certo que o conhecimento histórico é um conhecimento da nossa humana condição, intelecto e acção, e que não está livre do juízo moral, o que é diferente de se conceder o arremesso de um juízo moral segundo pressupostos ou objectivos ideológicos. A escrita da história diz tanto acerca de uma parcela do passado como acerca do tempo em que é redigida. A História é uma abstracção, mas não os seus testemunhos, e assim nós. A iníqua manipulação ideológica da história, ínvia nos seus caminhos conscientes e inconscientes, tem hoje dois aliados entre si inseparáveis e difíceis de conter, dado o proveito que estão dispostos a oferecer: o «politicamente correcto» e a geral debilidade cultural. Ambos permitem o regresso quase incólume da história supra-humana feita por génios-heróis políticos e militares desprovidos de realidade real, ideólogos ensopados em misticismo, batalhas inverosímeis falhas de corpos verdadeiros feitos de carne, sangue e excrementos; o «revisionismo» que recoloca a escravatura como uma tipo de imigração no devir histórico*; a relativização material e ideológica da Inquisição; as origens da globalização nos séculos XV e XVI e outros topica da história. A história escreve-se a partir de conceitos, mas o seu objectivo é a verdade, nos limites da crítica e da compreensão, a partir de uma heurística suficiente, porque, de facto, a erudição é uma parcela da história, ainda que isso seja desagradável para os editores. Um dos proveitos mais interessantes deste «politicamente correcto» que vem dizer que aquilo que foi já não é, apesar da evidência historiográfica de continuar a ser; ou que aquilo que foi é outra coisa para tranquilidade da consciência ou do patriotismo, é a epistemologia corporativa dos conceitos que releva das raras polémicas que ainda vão ocorrendo, e cujas fronteiras com os valores da propaganda é muito ténue. Resta saber se os proveitos do «politicamente correcto» e da debilidade cultural que permitem branquear a história e transformar o conhecimento num simulacro de «cultura geral essencial», compensam os danos que agora somos incapazes de calcular, mas que chegarão; porque valer-lhes, não valem.  Apesar de Voltaire, a tolerância da democracia não equivale a uma tácita e indefesa predisposição para o martírio.

 

* The Guardian, 6 de Março de 2017, online.

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Fotografia: imagem do filme One flew over the cuckoo’s nest / Voando sobre um ninho de cucos, Milos Forman, 1975.

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