Das ilusões da memória: os vivos mortos ou Da demência

45 - Cópia - Cópia (2)

[actualizado em 29 de Março de 2017]

A razão pela qual muitos livros, apenas pelos seus editores considerados de história, são hoje em Portugal escritos por jornalistas activos ou diplomados em ciências da comunicação, ou tão-só por comunicadores, quando não por simples famosos do papel de jornal ou dos “debates” televisivos, assenta, creio, sobre dois fundamentos: escrevem com celeridade e não são dados aos incómodos da pergunta, da deontologia ou da necessidade requerida a qualquer historiador que tenha apurado o seu método ao longo de um tempo considerado aceitável, a construção de conceitos. Nenhum destes “historiadores-comunicadores” questiona conceitos, o que equivale a dizer que é inofensivo; autores sublimes hoje dedicados ao panegírico, mas tivessem existido em outro tempo e seriam consagrados cronistas hagiográficos. Ser inofensivo, significa também não questionar, sob pretexto algum, dois dos mais importantes conceitos de uma dada disciplina política e social vigente: os conceitos de Poder e de Memória. A complexidade inerente a estes conceitos reclama um pensamento de natureza filosófica, ou seja, um pensamento que questione as estruturas ordenadoras de carácter salvífico – esses males menores inoculados por uma propaganda político-económica invulgarmente agressiva e que descobriu as formas manipuladoras da dissimulação, uma propaganda-invisível construída a partir de vectores de vigilância submetidos a uma análise de natureza psíquica; um pensamento que desoculte as metodologias e os instrumentos. Terá sido esta uma das diversas razões que mantiveram a escrita da história, durante séculos, no limbo da arte literária e domesticada pela política e pela religião, ou seja, o mecenato do Estado e da Igreja mantinha, na ordem do natural e do sobrenatural vigentes, na ordem do rei ou do nobre e na ordem de Deus, o trabalho do cronista primeiro, do historiador depois. O domínio da arte literária permitiu, a alguns desses cronistas, mercê de um conhecimento mais aprofundado da linguagem, contornar estas domesticações e fazer perpassar pelo texto, dissimulados, aspectos da realidade que sem piedade seriam censurados pelo poder político ou pelo poder religioso, este, a partir de certa altura, por via da violência da Inquisição. A história do estatuto do historiador certifica-nos que um historiador independente não é um historiador inofensivo. Mas deve também reconhecer-se à literatura essa importância inquiridora e desmistificadora da realidade; sucede, no entanto, que sobre a literatura impende a indulgência da sua natureza ficcional; uma incauta indulgência, uma indefesa condescendência – bastará a leitura dos autos de Gil Vicente ou das crónicas de Garcia de Resende e de Damião de Góis para verificarmos esta realidade.

A escrita da história foi sempre um ofício perigoso; continua a sê-lo e muito mais desde Voltaire, que cometeu essa imprudência de pensar uma filosofia da história. A edição de redacções de história é perniciosa porque, sob o falso pretexto da “comunicação” e da “divulgação”, sob o falso êxito de sucessivas reedições, pretende-se contornar os instrumentos de erudição de que nenhum historiador que esteja consciente do crivo a que a sua probidade é sujeita, abdica, a não ser que tenha a secreta ambição de ascender ao estrelato do firmamento historiográfico; mas se tem essa ambição deveria dedicar-se a outro ofício porque o firmamento historiográfico é volúvel e breve – a própria natureza da escrita da história assegura essa qualidade. O que se vê do trabalho histórico, o seu resultado final, é apenas uma das parcelas de um gigantesco trabalho invisível ao leitor; tinha realmente razão Georges Lefebvre quando comparava o firme esforço da erudição, sob as suas diversas formas, ao trabalho do pedreiro: «este trabalho lembra o do pedreiro que lança os alicerces, que não interessam a ninguém, porque toda a gente prefere ver o que está acima do solo (1).  Compreende-se, portanto, que a crítica seja em Portugal inexistente. O proveito de um lugar consensual em tal firmamento é incomparável às agruras da crítica. Mas sem crítica a escrita da história não se regenera, não “evolui” no sentido da criação de novos conceitos e, por conseguinte, no sentido de perguntas mais acutilantes e corrosivas que justifiquem uma teorização bem fundamentada. A actualidade de um livro de história não está necessariamente ligada ao seu êxito; a actualidade de um livro de história existe na força dos conceitos construídos pelo seu autor, e essa força é proporcional ao rigor do método utilizado, que é sempre um método individual e intransmissível pois um dos mais poderosos instrumentos do historiador é a sua intuição, apurada ao longo de muitos anos. Esta qualidade, ao contrário do que pensam os editores, não é incompatível com a importância da divulgação; bem pelo contrário, torna a necessária divulgação mais consistente, mais acertada. Um historiador tem a noção da importância fundamental de uma palavra; que a escolha de uma palavra em favor de outra tem consequências, é operativa, concretiza um dado significado e não outro, pode induzir a sucessivos significados diferentes, a um percurso teórico numa ou noutra direcção. Não basta a um historiador saber escrever e a capacidade da sua imaginação pode ser muito útil se está a elaborar um romance histórico, mas é sem dúvida uma tentação se está a redigir um livro de história, sobretudo se aliada à teoria, pois pode ocorrer que a sedução provocada por essa teorização deturpe com gravidade a qualidade da aproximação à verdade e à realidade históricas. É fundamental ao historiador que saiba pensar, que tenha um pensamento de natureza filosófica, pois é necessário que saiba pensar contra si próprio; a teoria é um canto de sereia a que é preciso, primeiro, resistir, e só depois dessa resistência indagadora e desestruturadora, decidir. A escrita de um romance histórico é um empreendimento da maior dificuldade e da mais acirrada exigência; é incomparavelmente mais difícil escrever um romance histórico do que um livro de história. Penso, assim, que o sucesso actual do romance histórico se verifica num registo que é comum ao definhamento da escrita da história. O romance histórico triunfa onde a exigência crítica e o analfabetismo funcional ou a iliteracia funcional existem, são uma realidade aferível no quotidiano real e na rede social.

Assoma toda esta dissertação a propósito das “figuras de referência” e da forma como lidam com o seu eu autobiográfico, quer dizer, da forma como se vêem no tempo que transcorre, no devir discursivo da história. Todas essas “figuras de referência” gerem uma memória fora-de-si, uma memória construída e exterior que observam com deleite; este gozo narcísico e realizado descoincide, a um nível mais próximo, com a realidade do país onde vivem, e a um nível mais longínquo, com a realidade em movimento, em constante metamorfose, da escrita da história. Estão tão fora de uma coisa como da outra, são os vivos mortos das referências nacionais. Boa e fundamentada razão tinha Walter Benjamin para concluir, com lucidez, que «a memória é a mais épica de todas as faculdades» e que «a morte sanciona tudo o que é relatado pelo narrador, conferindo-lhe autoridade» (2). E de facto. É por esta razão que quase todos estes vivos “de referência” estão já mortos e não conseguem ver-se de outra maneira; nunca aceitariam o risco da independência intelectual, moral e ética de um historiador e dos seus conceitos. Portanto, ou escrevem eles, ou dão-se a escrever a um jornalista-comunicador. Porque, na realidade, «o historiador é obrigado a explicar, de uma forma ou de outra, os acontecimentos a que se refere, não se pode limitar, de modo algum, a apresentá-los como modelos do devir do mundo» (3). Ora, as “figuras de referência” estão já mortas para si mesmas precisamente como «modelos do devir» na sua perfeita fantasia e não aceitam que esta efabulação seja “beliscada”. Ninguém pensa que no dia seguinte à sua edição o jornal está a embrulhar peixe no mercado; que no ano seguinte à sua publicação o livro está desactualidado, no alinhamento das lombadas na estante. Mas as “figuras de referência” têm poder, e sabem-no; sabendo-o, procedem ao mesmo a que procede o Poder, a que procede o Estado e não alcançam vida verdadeira fora dessa visibilidade acintosa: «o Estado só pode aparecer na sua totalidade soberana se entrar na comunicação» e se aquilo que diz ou faz dizer corresponder, na psique dos súbditos, a uma «estatura» que deve existir para que a vida seja funcional, como escreveu o historiador Paul Veyne num texto acerca da relação dos indivíduos com o Poder: «os sujeitos conhecem pois o Estado, o soberano, sob duas formas: obedecem a mil pequenas obrigações dispersas e conhecem a voz sem réplica do chefe. Esse chefe assume aos seus olhos uma estatura gigantesca e como que antropomórfica: os sujeitos imaginam que o príncipe é tão poderoso como a linguagem com que se lhes dirige» (4). Ora, também as “figuras de referência” se habituaram a uma «voz sem réplica», mas em lugar de «voz sem réplica» devemos escrever «realidade sem crítica». No que concerne a muitas “figuras de referência” das mais diversas áreas, da política à cultura, e que a “historiografia” oficiosa celebra nas páginas efémeras dos jornais ou nas luxuosas encadernações de livros de “história viva” escritos por cabeças “mortas”, resta-nos a esperança, neste país onde a crítica é inexistente e todos se beijam porque todos se odeiam, que a história lhes confira um lugar mais real do que a fantasia megalómana com que a si mesmas se vêem, enquanto vivas, e se imaginam, na olímpica posteridade das glórias domésticas, «comme des vivants venant occuper la place des morts» (5), depois de mortas. «O que a memória é, de facto: um estranho poder» (6). A evidência disto deveria ser um aviso à prudente necessidade de lucidez e de sentido da realidade: o que significa ser-se uma “figura de referência” num universo gravemente distorcido por uma real, dolorosamente real, iliteracia funcional…

***

(1). Georges Lefebvre [1874-1959], O nascimento da moderna historiografia, tradução de José Pecegueiro, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1981, p. 100. [Edição original: La naissance de la historiographie moderne, Paris, Flammarion, 1971.] Este livro, conforme é explicado no prefácio por Guy P. Palmade e na advertência ao leitor por Fernand Braudel e Albert Soboul, corresponde a um dos últimos cursos que Georges Lefebvre leccionou na Sorbonne, em 1945-1946, com o título Notions d’historiographie moderne.

(2). Walter Benjamin, «O narrador. Reflexões sobre a obra de Nikolai Lesskov» [1936], in Idem, Sobre arte, técnica, linguagem e política, traduções de Maria Luz Moita, Maria Amélia Cruz e Manuel Alberto, prefácio de T. W. Adorno, Lisboa, Relógio d’Água, 1992, pp. 43 e 40, respectivamente.

(3). Ibidem, p. 42.

(4). Paul Veyne, «O indivíduo atingido no coração pelo poder público», in Indivíduo e Poder, tradução de Isabel Dias Braga, Lisboa, Edições 70, 1988, p. 21. [Edição original: Sur l’Individu, Paris, Éditions du Seuil, 1987.]

(5). Paul Ricoeur, Temps et récit, tome 3: «Le temps raconté», Paris, Éditions du Seuil, 1985, p. 199.

(6). Idem, Temps et récit, tome 1: «L’intrigue et le récit historique», Paris, Éditions du Seuil, 1983, p. 33: «Soit la mémoire: il faut doter certaines images du pouvoir de faire référence à des choses passées (cf. la préposition latine de); étrange pouvoir, en effet!»

***

Imagem [manipulada]: pormenor do frontespício de uma tradução inglesa de Andrea Palladio, First Book of Architecture: with all the Plates, exactly copied from the First Italian Edition printed in Venice, anno 1570. Revised by Colen Campbell Esqr., Author of Vitruvius Britannicus, London, Printed for S. Harding, at the Bible & Anchor, in St. Martins Lane, 1728.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s