o eterno mesmo frio dos meus anos

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todos os dias desbravo a morte sem mais querer do que existir,

ainda que a mor razão seja de tudo estar perdido na vã distância de viver

porque retorno algum da minha própria existência me alcança;

o silêncio é o tributo, a linguagem é o preço, vivendo,

desde o vidro da pulsão que incendeia a morte, sob a condição de não existir,

e agora, mais perto, na subcondição de não sentir o nervo da dor, de não respirar

a beleza da melancolia da luz, quero dizer, do sofrimento,

de não viver no perfil do penhasco

 

mas as condições são mentira porque sinto a verdade sob a sua contingência:

o eterno mesmo frio dos meus anos

*

Ilustração: Dom Quixote, pormenor, tinta-da-china com aparo quebrado, papel, ca. 1995.

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