patologia do acaso, diário, 23: Da consciência da morte e da memória: a filosofia, a história e a “etimologia” do desdém

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2017, Abril, 2. Da consciência da morte e da memória: a filosofia, a história e a etimologia do desdém. Tudo tem uma história, e tanto quanto o meu saber e conhecimento agora alcançam, por duas razões que são ao mesmo tempo principais e fundadoras, que sendo claras acerca das qualidades da nossa humana condição, revelam também o paradoxo intrínseco dessa condição; são o ouro e a lama, a grandeza e a miséria, a verdade e a mentira, a dor e o êxtase, a dádiva e a maldição: a morte e a memória; a consciência da morte e do poder de recordar; o fim certo e a faculdade criadora. A história interessa ao homem até à fronteira de a desejar escrever, porque ele sabe que vai morrer na consciência-de-si e na consciência fora-de-si quando recorda; porque ele se pensa submetido ao arbítrio incontestável do tempo exterior a si e livre no poder do domínio do tempo dentro-de-si. Suponho, assim, que a filosofia existe há milhares de anos porque existimos no âmago desta convulsão permanente, no ponto centrípeto deste movimento; cada um de nós pode dizer que é o princípio e o fim do mundo e, ao dizê-lo, afirma a potência que existe entre o princípio e o fim. A “bússola” biopsíquica da humanidade oscila entre a morte e o desejo na esperança de alguma aceitável ruína da verdade, e talvez a vida seja, releve-se-me a vulgaridade da imagem, a qualidade da travessia pouco adivinhada de uma ponte sem nunca ceder à facilidade de nos despenharmos no vazio, ainda que algumas vezes, muitas ou poucas consoante as parcelas das contas de cada um, nos debrucemos com volúpia no lancil.

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Tudo tem, pois, uma história, da terra que pisamos à imaterialidade do que pensamos; e a história é indomável, não tem fronteiras nem pode ser interrompida, a sua existência é um único constante, um continuum, não é necessariamente, como já se pensou, um invariável movimento cumulativo de consumação do progresso; não pode mais afirmar-se do que a evidência de que não recua e portanto não se repete, ao contrário do que hoje ouvimos, com frequência, concluir a propósito de alguns acontecimentos dos tempos que transcorrem. Ainda que muitos pensem que a humanidade pouco ou nada tem a aprender com a sua própria história, quero dizer, com o estudo da história, creio que tal juízo está muito longe de ser verdadeiro, desde Heródoto e Tucídides. A história pode, apenas, ser temporal ou tematicamente seleccionada, porque a capacidade de uma vida humana para a estudar é limitada sob diversos pontos de vista. Porque, de facto, na transcorrência das afirmações e das omissões, «somos o nosso passado» e, mais ainda, «o nosso passado está a refazer-se constantemente no nosso presente. Isso implica que não possamos parar e olhar para trás. O nosso passado está a acontecer agora.»*

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As pessoas que se prestam, por quaisquer que sejam as razões, a beijar os anéis que ostentam nos dedos os representantes terrenos de deuses inefáveis, não beijam apenas esses anéis mas uma sucessão de anéis, tão maus como esses ou piores; e assim, se consideram de ânimo leve a filosofia ou a história, a literatura ou as artes visuais como uma coutada de lunáticos ou de desadaptados, ou de sonhadores, a etimologia mais frequente do desdém que a inveja empurra para a frente, deveriam considerar as religiões, as sagradas e as profanas, como uma coutada de homicidas.

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* José Gabriel Trindade Santos, entrevistado por Anabela Mota Ribeiro, «Trindade Santos: Para que serve a filosofia?», Público, Lisboa, 1 de Maio de 2011, online. Agradeço à Dr.ª Teresa Mendes, por quem me chegou o conhecimento desta entrevista.

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Imagens: Nicolai Copernici Torinensis [1473-1543], De revolvcionibvs orbitvm coelestivm, Norimbergae, MDXLIII [1543], pp. i [1], 1, 9 v. e 16. Esta primeira edição do livro de Copérnico pode ser consultada na plataforma Internet Archive: https://archive.org/details/nicolaicopernici00cope_1, de onde advêm as imagens reproduzidas.

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