patologia do acaso, diário, 24: o suficiente não é o exigido nem o devido

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2017, Abril, 3. O suficiente não é o exigido nem o devido. Os grandes timoneiros desta nau que vai navegando na possibilidade menor de uma sobrevivência de cabotagem, incapaz do mar alto por razão de ser governada por Adamastores de pasta de papel, vivem o deleite do suficiente quando desfraldam, nas fachadas dos edifícios oficiais os panejamentos comemorativistas que não têm outro retorno senão a indiferença de um povo que paga, vergado ao mal menor sob a pata da chantagem financeira e corporativa que esbulha do sentido do seu sofrimento a devida compensação; o orgulho pequenino do suficiente, a culpa ligeira e suportável do «dever cumprido». Os cavalos dados a que não olhámos o dente e com cujo sustento somos onerados, perdendo assim o gosto e os seis vinténs, não alcançam mais do que o «dever cumprido». Temos andado assim, a correr de um lado para o outro, sem nada mais do que a verificar as solas comidas pelo caminho e o inevitável dos pés no alcatrão – nada mais do que o resultado de despir uns santos para vestir outros, de continuar a oferecer a vara a dissimulados vilões sempre disponíveis para um beijinho e uma selfie. E não é verdade que não há marcas que o tempo não apague; só assim se engana quem muito fala e dá «bons dias» a cavalos, na esperança iludida de que uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto, não custando muito, portanto, o convencimento de bastar reluzir para ser ouro. O resultado da pressa é comer o cru – encontre cada um quem lho dá a comer e o que é tal cru; abra os jornais, ligue a televisão, grite «Golo!».

Se as pessoas se contentam com uma suficiente democracia é porque elas próprias são também, apenas e afinal, suficientemente democráticas, não mais do que o bastante para não confundirem a Constituição com um maço de folhas de guardanapos, guiadas por quem confunde a Constituição com um rolo de papel higiénico. «O que é que se há-de fazer? Já estamos habituados», ouve-se à sombra dos edifícios oficiais. «A servir as pessoas»? Não, existe aqui um engano: a servir os partidos políticos e a omnipresença do dinheiro. Para se constatar que a democracia não foi mais adiante do que o suficiente não é precisa grande ou extraordinária teorização, nem estudos dispendiosos, nem comissões ineficientes – é suficiente que saiamos à rua e dediquemos alguma atenção ao planeamento urbano.

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Ilustração: dos diários gráficos, tinta-da-china, 2001.

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