patologia do acaso, diário, 29: Are you sad, Mr. Williams?

Robin Williams Portraits

2014, Agosto, 13. Are you sad, Mr. Williams? [ É provável que a vida de muitas pessoas esteja pouco adiante de uma deambulação pela mais atroz estupidez, um feérico esbanjar de tempo com “coisas” e tarefas inúteis tornadas suportáveis por uma sucessão de mentiras, de simulacros ou de omissões que são a muralha falsa que sustém o silêncio a uma distância segura ou conveniente; ninguém pode seja o que for contra o silêncio – «sempre alguém, um outro membro da sua raça, da sua espécie. O homem supera tudo menos o silêncio. E, neste silêncio, ele reconhecia o medo.» (1) Uma fabricação constante de inutilidades e de servidões à estupidez ou à ignorância em troca de um comando televisivo, de um jogo merdoso, da atenção de um trepador. Vivemos rodeados de junkreality. ]

Fechado na devastação do silêncio do camarim, extinto o espectáculo, o intervalo da morte-de-si, o actor encontra-se no espelho, sozinho numa nudez única e saturada de sem-fugas, prestes a regressar à ficção, ao ruído da estupidez, à ignorância, à hipocrisia do dever cumprido. Deita a solução desmaquilhante sobre um pedaço de algodão e remove a pintura da face. [ ninguém mais está neste extremo de verdade onde recomeça a expectativa que adia uma mão cheia de comprimidos, um baraço, um salto, um gesto repentino e incisivo da lâmina, um tiro – «só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. (…). Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam, ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol, gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida.» (2) ] Esborratada num mapa informe, a face fica quase irreconhecível [não existe matar os olhos] e é uma ruína do que aconteceu. Os restos que vão removendo a pintura até reaparecer o livro da pele crua possuem a lentidão de um mundo que se desmorona e acaba nos instantes do regresso à ficção sob a esperança do desejo. No precipício da noite, um dado mundo cai, as cordas que seguram uma tela gigantesca são cortadas e alguém pode morrer, uma certa felicidade despenha-se no abismo negro do regresso. Do regresso a quê? Are you sad, Mr. Williams? As notícias dizem que o actor se matou. Talvez tenha sido incapaz da vingança, de transformar a depressão em outra coisa qualquer que a redimisse ou a tornasse viável. A depressão não é a tristeza vulgar, é uma outra realidade entranhada no corpo e inseparável do movimento da existência. Os Antigos chamavam-lhe melancolia, era um nome mais bonito. A depressão é um veneno invencível, é necessário bebê-lo devagar, conhecer a partir daí, porque a capacidade de decifração e de porosidade adquire um peso quase desmedido. É provável que a depressão possa transformar-se num processo de conhecimento. Are you sad, Mr. Williams? A existência de um depressivo é uma adaga de dois gumes, abre a melancolia-morte na carne e corta a eito a necessidade histriónica da alegria-embriaguez. Na vida de um actor o mundo desmorona-se muitas vezes, quantas vezes pode isso ser possível e quantas vezes se consegue regressar? O álcool para mastigar a pulsão de morte, para procurar uma palavra, para afogar a solidão, para entorpecer a dor. O álcool difere bastante dos medicamentos antidepressivos. Com os medicamentos a dor fica imóvel. Um copo mais para que a verdade interrompida regresse, outro copo adiante para atenuar a pressão sobre o peito, a rigidez da garganta, a necessidade de respirar fundo, a inutilidade absoluta das lágrimas, um último copo para olhar a noite, um último copo depois do último para compreender que para além do azul da atmosfera está a escuridão e o frio.

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(1). William Faulkner, «Ninfolepsia», in Histórias Inéditas, volume II, organização de Joseph Blotner, tradução de Ana Maria Chaves, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999, p. 19.

(2).Albert Camus, O Mito de Sísifo. Ensaio dobre o absurdo, tradução de Urbano Tavares Rodrigues, s.l., Livros do Brasil, 1999 [reimpressão], p. 15.

Reescrito em 12 de Abril de 2017.

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Fotografia: AP/Dan Steinberg.

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