A televisão: um problema mental

DSC01961

DSC01965DSC01963DSC01968DSC01966

Por detrás da fachada bem desenhada e construída da informação e da comunicação, a civilização regride; dentro desta contemporaneidade, as divisões que se encaixam, transposta a fachada, tornaram-se inabitáveis para a humanidade, espelham os extremos da loucura: imediata à aparência principal, ficam as divisões onde impera a assepsia e no tardoz, separadas por uma comunicação vigiada e exigente, as divisões da imundície. Aos assépticos se convence do seu poder, aos imundos, que estão limpos. Nem os primeiros têm poder, nem os segundos estão asseados, mas ambos estão convencidos de que os direitos fundamentais à dignidade da vida humana se alcançam a partir do consenso. Os direitos que garantem a liberdade e a dignidade e conferem o devido valor à verdade, nunca foram alcançados por requerimento ou por concessão; existem porque foram conquistados e pagos com o sangue de séculos; com a vida de muitos humilhados, torturados, estropiados. Os direitos são defendidos e mantêm-se naquilo que é a vanguarda da civilização: a educação e a consequente maioridade intelectual. É pela educação, menosprezada e reduzida a um negócio político ou monetário, e pela cultura, considerada um empecilho à funcionalidade do sucesso e às imagens vigentes do estatuto social, que a civilização agora regride, quando a maior parte das pessoas pensa que se está no ponto mais adiantado e feliz do progresso. Mas não é assim: para pensarem isso seria necessário que soubessem o que é e o que significa o progresso; o mundo mudou, mas não começou anteontem. O acesso à informação fidedigna e à cultura, é inútil se as pessoas desconhecem os caminhos que a elas conduzem; é o mesmo que enviar alguém à Torre do Tombo, confiado nas possibilidades da história que lá está guardada para ser conhecida: sem saber o que procura e desprovido do método adequado para encontrar o que pretende, pouco ou nada alcançará. Muitas pessoas vi perdidas na Torre do Tombo julgando ser fácil conseguir um registo de casamento ou de óbito, um registo de baptizado, que algum advogado lhes disse quase de certeza lá existir exarado em antigos registos paroquiais para resolver os violentos imbróglios que embalam partilhas familiares. Muitas idas se tornavam vãs por falta de referências fundamentais para localizar a pesquisa: uma data aproximada, um nome de freguesia, um apelido. Não basta a ilusória segurança da existência da informação e dos canais de comunicação; sem que se saiba decifrá-los, não se é, verdadeira e eficazmente, usufrutuário mas prisioneiro ou vítima. As pessoas concluem com demasiada facilidade que estão a ser informadas quando na realidade estão a ser manipuladas no sentido de uma impotência que requer a qualquer preço uma protecção por pior que ela seja, desde que seja segura. Seria necessário que averiguassem se estão efectivamente seguras e estando, do que se dão por seguras. Pois de nada podem dar-se por seguras; se tudo isto estoirar de uma vez por todas, o mais que lhes resta é conseguirem arranjar umas conservas e uns garrafões de água, levantarem algum dinheiro se o tiverem durante os prováveis minutos em que as caixas multibanco ainda funcionem, e terem a esperança de que seja rápido e com o menor sofrimento possível.

O que consideram as pessoas saber num tempo em que a televisão se tornou um problema público de saúde mental e a informação não existe? Terão as pessoas a noção de viverem rodeadas da mais pura propaganda, ainda que não vivam num Estado totalitário? Que essa propaganda particular oficiosa é perniciosa e violenta e inocula na maior parte das pessoas sentimentos de impotência, de insegurança, de frustração, de medo, no sentido de uma vivência quase paranóica que potencia a fragilidade e a dependência dos poderosos e dos trepadores quase-poderosos? Suponho ser provável que não saibam, pois a ideologia triunfantes do futebol, das religiões religiosas ou zen encarregam-se, a tempo, de decepar essa ousadia. A televisão é, desde que apareceu e depois se generalizou, o mais forte instrumento e meio de manipulação que os diversos poderes de imediato reconheceram e procuraram dominar. O menosprezo crescente pela educação e pela cultura foi erodindo a fronteira do pudor que ainda aceitava alguma função educativa e cultural, por muito mediana que fosse, para a televisão. Hoje, os canais generalistas têm futebol, desastres, facadas, homicídios, assaltos, acidentes de toda a espécie e quilate e até a meteorologia se tornou um sublime instrumento da catástrofe, desejada, expectável ou real; numa repetição nauseante. À celebrada sociedade do espectáculo acrescentou-se a insanidade mental institucionalizada sob o eufemismo alienador da informação, da comunicação e por fim da qualidade garantida por todos os selos possíveis, da crítica especializada – mas não é um especialista alguém que “tudo” conhece de um assunto e ignora tudo o mais, como o definiu Ambrose Bierce [1842-1914] no seu Dicionário do Diabo? – ao coach guru repleto de estrangeirismos zen, desde que visível na montra ou na hierarquia das vendas? Nesta sociedade histriónica em que vamos sobrevivendo, sob o recuo entrincheirado dos direitos sociais e laborais, existe um problema público de saúde mental no qual a televisão é uma das lobotomias praticadas.

*

Fotografias: 24 de Abril de 2017

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s