Adiante dos frutos da Terra nada mais requeiro

[ poema em construção e dedicatórias, em actualização]

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Fotografia: o pão, ainda quente, quando chegava à loja. Manique, ca. de 1987. Só o cheiro do pão era uma terra… Há trinta anos, mãe… pai… era outro o cansaço, mas não era amargo o pão; ou sempre foi, nós é que não éramos velhos…

 

Adiante dos frutos da Terra nada mais requeiro,
Pois tudo é escuridão e vazio do céu para cima;
E assim me obrigo ao pão, esse ouro derradeiro
De lágrimas e de suor feito, o mais que se estima…

De lágrimas me ardem os olhos nessa palavra oxalá
Lágrimas frias à pele, corpo seco, braços tão em sede…
Em tanto que não largue da cimalha as mãos, haverá
Do sofrimento a conquista maior que a última parede

para E.S., em 31 de Maio de 2017

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Mister não deve ser olvidar do dia a maior parte

E na memória guardar o melhor do mundo e da gente;

Mas para tanto se requer do coração saber a arte

E com as mãos ajudar à força que todo o coração sente

para T.M., em 3 de Junho de 2017, dia de seus anos

Fotografias: O Dia e A Noite, acrílico, papel, Fevereiro de 2017; parque, 18 de Maio de 2017.

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patologia do acaso, diário, 40

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2000, Janeiro, 1. A mesa foi ordenada longa, no lado maior da sala revestida a meios-toros de madeira negra até meia-altura. Deserta, a mesa aguarda pouco mais do que a circunstância, o único reverso da solidão. Sentamo-nos, não me lembro de quantos éramos, agora. Sobre a noite dos tristes sem lugar, o silêncio e a distância abatem como um véu amortalhado sobre as expressões, os gestos, os primeiros ruídos dos talheres, os primeiros monossílabos, os primeiros risos que não carecem do vinho. Quase tudo me parece falso; o excesso dos cumprimentos e das conversas, a alegria adequada que se combinou e o vinho tornará tão falsa que parecerá verdadeira; uma falsidade visível até ao ridículo. Sacos repletos de garrafas de champanhe, papelinhos coloridos ainda embalados, esperam como despojos do que não existe, e talvez nem se espere que exista, apenas a certeza feérica de bailarem pela sala. Fotografias. Esta não é uma vulgaridade pura; parecemos tão pobres: um lugar por falta de outro, gente por não haver outra. Não eu, quanto a isto. À minha frente, alguém agarra a comida com as mãos, o azeite e o vinagre escorrem-lhe pelas beiças. Uma ansiedade selvagem que é o verso, esvazia as travessas ordinárias de comida. Ninguém transparece a vontade sincera de estar sentado naquela mesa longa, um intervalo verídico de náufragos antes da falsidade por omissão. É um ritual; cumpri-lo é uma clareira, o pacto aceite. A noite dissolverá tudo, cada pormenor de tudo, e reporá o deserto. Nada mais nos resta. [Guardo algures as fotografias; no acaso inexplicável de papéis velhos encontro-as, às vezes, no barracão da casa que ficou. Um resto, da próxima vez que as encontrar, rasgo-as.]

*

Ilustração: [sem título, que nunca teve, nem qualquer que agora lhe encontre], tinta-da-china, papel, plástico, ca. 2001.

aorta

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na liberdade do gume incerto da taça quebrada, que não se discorre,

reconheço a sombra, o patíbulo do dia que contamina a cidade;

um falso atavio do tempo, um céu vertical do mundo que morre,

a míngua do pão, a catarse do vento, a omissão vestida da verdade;

um gesto firme da taça quebrada, e não haveria nos ladrilhos diferença.

*

Fotografia: 25 de Maio de 2017.

o sangue

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está desde o sangue na cama daquela casa no rossio da aldeia, exarado o veredicto;

belo e selvagem como as veias das heras na esperança velha das paredes em pedra viva,

desenhada a condenação na perfeita letra do auto; mas os espelhos o que são é a dor ou é a culpa;

não conta ao jogo a omissão da acalmia do vento nem da perspectiva limpa do mar – ilusão

das profundezas sufocadas de sargaço, pois tem outro nome o veredicto e outro sangue a condenação;

não é vida nem é morte; bastava partir no vértice da mesa o copo e abandonar ao gume do vidro o patíbulo da razão;

e esperar a omissa verdade do espelho – não a dor, mas a culpa; não existe dor mas o nó indestrutível da culpa

porque a vida, ainda que na densa escuridão do sanguíneo arguir, é a garupa

 

29 de Maio de 2017

*

Ilustração: dos diários gráficos, tinta-da-china, papel, 2000.

Amália

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és a primeira terra do fim, encontrei-me por te encontrar, morte indescoberta, voz de braços,

só de ossos, carne e veias, artérias e pulsão, sangue desprovido de céu, de redenção, tudo ramos

mudados em veias, ramos férteis e ramos quebrados, nocturnos e solares, verdes e baços,

pinheiros e mar no reverso do silêncio, o verdadeiro, o que está fora da razão, o doce cansaço

exangue de ausência ou de excesso, o saber só do não-saber em que nos mudamos

 

 

és o vinho cíclico da noite, a dor imóvel, o que vence de tudo o que morre, a repetida solidão,

a ternura sangrante, a respiração desta terra fronteira, reino intemporal de certa antiga melancolia…

não sei onde estás quando te ouço, nem o que agora és (no espinho de uma rosa vermelha, dar-te a mão)

mas na tua voz encontrei-me a falta que me habita e realizei na imanência de tal maldição,

as veias de heras, o devido abismo, a arguição de encontrar-me, a razão do que me ardia

 

 

é pois certo não saber porque te encontrei, ou me encontraste sem saber de mim, nem certo saber porque te procuro;

mas encontrei-te na ferida de me encontrar, no críptico espelho do lago da tua voz, doce e triste…

e assim decorre o golpe da faca e o seu próprio desejo no pulsar dos extremos do teu coração rubro…

e na rotação da Terra pelos dias e pelas noites vives quando cantas e eu de novo descubro

nos teus olhos de mar e de praia, de flores e de pinhais, de cruzeiros e de fontes, que nem chegaste a partir

 

 

que tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo; mas eu gostava de ir buscar-te

como na ordem das estações do mundo o Sol traz os calor, a chuva a vida ou a terra traz as flores

e para tanto passarei do tempo volúvel a prova do fogo que tem a voz viva de toda a arte,

o rio do tempo cuja eternidade é cantar-te,

e deporei no teu regaço negro, entre as tuas mãos abertas, as mãos que trazes, a prece florida das tuas dores

 

(Em itálico, versos do fado Barco Negro, de David Mourão-Ferreira.)

28 de Maio de 2017

*

Ilustração: Amália, Jorge Muchagato, tinta-da-china e vieux-chêne, papel, 2000.

*

Pode ser lido, também, no meu blogue Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus.

 

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 1

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Caldas da Rainha, 26 de Maio de 2017

1.

A depressão é uma dor psíquica constante, positiva e negativa, negativa e positiva, à semelhança dos extremos do processo fotográfico – um processo também do eu; apercebo-me, em certos momentos, a realizar em mim uma arguição da sua verosimilhança, a tactear, a aferir se o meu eu coincide comigo, se a minha cabeça está comigo, ou se eu estou fora da minha cabeça e me vejo pelos meus próprios olhos. É também semelhante à fome – um processo de conclusão adivinhável; sempre um processo, mas houve um ponto ou uma fronteira (a palavra limite é a mais adequada mas não serve, nem o conceito nem as imagens possíveis) em que o processo parou, estancou, para poder continuar. O processo é invisível e invencível e a fronteira corresponde à consciência de se ter saído de uma dada realidade a que os Antigos chamavam «o mundo habitado» e que era em simultâneo um conceito. No movimento, mas fora do mundo habitado. E assim como se deixa de sentir a fome, o corpo adquire uma densidade e um peso quase insuportável onde predomina o som da própria respiração – já não se sente a dor, mas está-se no seu útero e na sua cabeça; “útero” e “cabeça” num organismo informe onde os “olhos” confirmam o excesso absoluto de uma acuidade intelectual impressionante, desconhecida até darmos conta dela, precisamente pelo processo que ela é. Talvez por este processo conhecer momentos em que se transforma num vórtice indomável, o álcool se dilua tão perfeitamente na depressão e faça sangrar de uma maneira única – mas não sucede ao álcool o que sucede à medicação: a necessidade de estancar, porque o álcool pode diluir-se – não: a melhor palavra não é diluir, mas contaminar; porque o álcool pode contaminar também um outro processo, aliado e inimigo da depressão, o processo criativo. Realizei, como escrevi em um outro diário, que talvez seja possível transformar a depressão em pensamento; mudar a depressão num processo cognoscente, amassá-la até se transformar em pão – em escrita. «Você não pode lutar contra a depressão; você tem que aprender a viver com a depressão». Esta evidência, que eu nunca poderia ter alcançado sozinho, leva já treze ou catorze anos no meu pensamento; a começar por aqui: a escrever agora, a escrever sobre o que já foi escrito, desenhado ou pintado; a desenhar, se tempo houver para isso; a fixar imagens com a máquina fotográfica. Porque preciso; para ficar de mim próprio conhecido. Gosto dos versos quinhentistas de Bernardim Ribeiro – que Amália transfigurou em canto com música de Alain Oulman no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977 – para escrever sobre a depressão quando estiver de maré: «e eu mal aventurado morro-me andando assim entre cuidado e cuidado», que são da Écloga Quarta «chamada Jano».

Para E.S.

26 de Maio de 2017

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Mudei terra mudei vida

mudei paixam em paixam

vi a alma de mim partida

nunca de meu coraçam

vi minha door despedida:

Antre tamanhas mudanças

de hum cabo minha sospeita

e de outro desconfianças

leixanme em grande estreita

e leuanme as esperanças

 

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Nesta triste companhia

ando eu que tam triste ando

jaa nam sam quem ser soía

os dias viuo chorando

as noutes mal as dormia:

Temo descanço tornado

mal que por meu mal ho vi

e eu mal auenturado

mourome andando assi

antre cuidado e cuidado

 

Por me nada nam ficar

que nam me fosse tentado

prouei darme a trabalhar

mas nunca me achei cançado

para poder descançar:

Quando mais cançado estaua

alli meu mal entam

a meu mal se apresentaua

e o corpo e o coraçam

ambos cançados leuaua

 

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Diários gráficos, tinta-da-china, 1998

Nam sabendo onde me hiria

que ma mim laa nam leuasse

roguei a Deus nam soo hum dia

que da vida me tirasse

pois me dala nam queria:

Mas com cuidados maiores

cree que Deus se nam cura

ca dos pobres pastores

como que elles por ventura

nam sentem laa suas dores

 

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O quam bem auenturado

fora jaa se me matara

minha door ou meu cuidado

eu morrera e acabara

e meu mal fora acabado:

Nam vira tal perdiçam

de mim e de tanta cousa

perdido tudo em vam

porque hua paixam nam repousa

em outra maior paixam

 

Bernardim Ribeiro, «Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. cix v.º [109 verso] – cx v.º [110 verso].

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Eroticon, II: o dia da fertilidade dos frutos da terra

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em um outro dia, que há um ano foi de hoje o mesmo dia, choveu

e era hoje, o dia da fertilidade dos frutos da Terra, quando as pedras se mudam em pão;

e eu estava certo de ser nosso o pão das espigas do desejo para o comermos;

dos malmequeres da Fortuna para nos coroarmos, nus

frementes de tesão, de selvático ímpeto, atiçados na pele e na dor pela deslocação do ar sob as árvores;

da rama da oliveira, o azeite que é a terna seiva do pavio da candeia,

a luz do que arde nas nossas palavras sequiosas e desentende o fim;

da papoila rubra do sangue que sob a pele se expande e nos embriaga, sentidos e intelecto,

no movimento ancestral e violento dos corpos que húmidos se devoram;

do alecrim – uniremos o seu terroso perfume aos odores

segregados nos pormenores secretos do labirinto dos nossos corpos;

e da videira beberemos o vinho deste epidérmico e venoso pacto

onde abrimos os pulsos e os juntamos sob as nossas bocas ligadas,

no sangue uno do mesmo tempo dos fluídos dos sexos

5 de Maio de 2016 e madrugada de 26 de Maio de 2017, dia da fertilidade dos frutos da terra ou Dia da Espiga

*

Ilustração [pormenor]: Jorge Muchagato, tinta-da-china, aparo quebrado, papel, ca. 1995.

quem na minha cama

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quem acordará dos seus gestos, depois da travessia, na minha cama;

quem lançará com tempo o fogo nos meus ombros despidos do sono:

quem terá morrido sem me ter beijado no peito o valor da derrama;

quem deitará água sobre o barro cru da carne restante do meu trono

 

à fome se iguala esta ilha maldita que dia e noite pensando se inflama;

este chão vazio e seco, esta terra, anterior à pele em que me desmorono;

esta densa noite fora da faca do desejo que sorrindo me golpeia e clama

essa dor depois da fome que já dor não é e onde me equaciono

 

quem espargirá sobre mim o secreto e final incenso da chama,

o áulico pó da luz visível do diamante, a sombra do cristal do carbono;

quem acordará da sua noite e dos seus gestos na minha cama,

quem profanará o eremitério do meu negro e exangue abandono

 

*

Fotografia: 2016.

a origem verosímil da poesia e da história, sob a noite

para S.

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venceram vinte anos : rosas vermelhas – o meu sangue tão violento de vida – uma caixa breve de chocolates, os teus cabelos de deusa Antiga, a tua voz, o odor exótico da tua pele cheia do sol dos trópicos; os teus cabelos de deusa Antiga que ficaram para sempre em mim como a imagem mais verosímil da origem da Poesia e da História, do ser preciso de ser escrito, dado o excesso : sentados naquelas traves de madeira e entretanto fez-se noite : ficaste uma razão para eu não querer saber de uma qualquer vida depois desta, nem me importar com tal temor ou consolo : todos os dias e todas as noites que passo por esta estrada, longa ao lado do caminho-de-ferro, ali nos encontro sentados, naqueles barrotes dos carris de ignotas viagens, sob a noite, sob a noite

*

Fotografia: Caldas da Rainha, 25 de Maio de 2017.

Eroticon, I : manhã, orago

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marca moedas na minha pele mas beija-lhes primeiro o reverso, morde-me os ombros,

finca-lhes os dentes até ao alvor do sangue enquanto me segredas a língua no pescoço;

despreza moedas sobre o meu corpo nu como se as deitasses a uma fonte ou a um lago,

à semelhança do desejo de dedos numa pia de água benta; rasga-me o dorso

asperge-lhe a dor e cauteriza-o com a tua boca, abre-me o peito dos escombros,

come dentro de ti as veias latejantes; marca agora na tua pele as moedas que deitaste sobre a minha,

no movimento da manhã que consuma o princípio das mortes que devemos ao orago

madrugada de 25 de Maio de 2017

*

Fotografia: Robert Mapplethorpe [1946-1989], Orchid, 1985, The Robert Mapplethorpe Foundation, New York, mapplethorp.org