{ Abril }

001a

 

não me mate ainda que não me faça viver
nem venha depor aos meus pés esplendorosas aves mortas

saiba que tenho o desejo de morrer na manhã de olhos abertos à luz

além do espasmo fervente das veias do sexo e da semente derramada,
depois da fogueira das bocas e da odorífera cegueira da língua
– o desejo incandescente que transpira da pele, a líquida pele-suor

não me mate para que eu possa morrer na perfeição pura da sua face,
na regra-acaso de ouro que desenhou a proporção que existe entre os olhos e as sobrancelhas
e os lábios férteis,

na luz que doura os seus cabelos, sem a figura de estilo do fogo, só o ouro
dessa noite na minha face, sob os seus cabelos, respirando
a pele do seu pescoço ao toque da minha boca

é quase manhã

2016

*

Imagem: Albrecht Dürer [1471-1528], Pássaro morto, 1512, Viena, Graphische Sammlung Albertina.

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