patologia do acaso, diário, 32: No labirinto da verdade, primeira divagação

144 - Cópia

 

2017, Maio, 2. No labirinto da verdade. Se é a cabeça de cada pessoa um complexo labirinto, no qual permanece, quando a morte fecha a vida, uma vastidão sem limites conhecidos, maior razão existe para que seja um mais penoso labirinto a própria vida, que é, numa sua parte – cansativa e muitas vezes vã – a tentativa relacional de uma miríade de complexos labirintos. E se é a consciência da morte que inaugura verdadeiramente a vida e as suas realizações, é a transposição de tanto e diverso labirinto – o sofrimento – esse «nó de sofrimento» que por mais ignorado ou tratado por omissão que seja algures nos espera sempre, a razão do conhecimento, o objecto da sabedoria. Tudo é a morte e esta consciência carece, como pão para a fome e água para a sede, da decifração do sofrimento; é essa a diferença entre a humanidade e Job, entre a humanidade com deuses e a humanidade sem deuses. Sim, é bela e quase axiomática a abertura de O Armistício (1985), de Natália Correia: «Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses», mas não é verdadeira, apesar da justificação que lhe é aposta: «Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles. E mesmo que, existindo, nos ignorem, não sejamos nós a ignorar a sua autoridade primitiva que, nutrindo de segredos divinos as florestas, os rios e os ventos, faz correr o sangue em nossas veias» (1). É também insuperável esse Mar Português de Fernando Pessoa, eloquente; mas perante a pergunta, não é verdade que «Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena» (2). Eu sei que a poesia é a verdade, ainda que seja mentira, mas não, nem tudo vale a pena, seja a alma grande ou pequena; é para as almas pequenas que tudo vale a pena. A pena vale consoante o saber; por esta razão foi decepado o valor das fábulas morais na educação actual, que se tornou tão limpa quanto tirânica e portanto ignorante.

Vivemos no lancil da loucura e desafiamos sem temor nem consciência a obscuridade do labirinto que incessante nos chama; a vida é esta sedução da obscuridade.

Se as nossas contas fossem com a verdade, a vida relacional de tantos labirintos seria de uma violência emocional insuportável; as nossas contas são com a mentira, porque dizemos sempre a verdade, mesmo quando mentimos. Todavia, ressalta muito mais a verdade na mentira intencional ou na mentira por omissão. A verdade acaba sempre por vencer porque o seu poder corrosivo é superior à fortaleza da argamassa da mentira – a consciência moral sela os actos ou, pelo contrário, corrói-os.

Os instrumentos teóricos de um historiador são diferentes dos de um jornalista, apesar de ambos estarem sedentos da verdade; mas a verdade é um labirinto complexo e muito vasto, que a distância temporal torna ainda mais complexo e mais vasto. O historiador não é movido pela ingenuidade apressada de tomar a verdade pela letra em que ficou escrita. Ambos são obcecados pela verdade; a diferença está em que o historiador, escrevendo a história a partir de conceitos, sabe que nunca a alcançará e melhora o seu método no sentido da qualidade e da fundamentação da aproximação à verdade. A vida de um historiador é o seu método – a sua apelativa obscuridade.

*

(1). Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, volume II, s.l., Círculo de Leitores, 1993, p. 221.

(2). Fernando Pessoa, Mensagem, 13.ª edição, Lisboa, Edições Ática, 1979, p. 70.

*

Ilustração: dos diários gráficos, colagem e tinta-da-china, 2009.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s