patologia do acaso, diário, 34: Tudo passa e não passa

DSC02065 - Cópia

2017, Maio, 5. Tudo passa e não passa. Começa tudo pelo ser da morte, mas não o sabemos durante muito tempo, na firmeza das veias a vida cega-nos os significados, achamo-nos sedentos, tudo parece valer a pena mas, na realidade, não conhecemos a pena nem a sua medida, e não alcançámos ainda um vislumbre de conhecimento desse algo a que chamamos alma, mas ao qual melhor apodo seria o de labirinto. A obscuridade afigura-se-nos despicienda, porque o conhecimento-de-si entende a morte pela frente e não ao lado, no mesmo ritmo do movimento. Sentimos ainda a fome e a sede e nessa mesma fraqueza iludida reconhecemos a irracionalidade da esperança; a força, sob qualquer forma viva, da expectativa. A vida, embora saturada de futuro, não é ainda uma radicalidade; riscamos sucessivas fronteiras na terra lavrável pelo desejo com a extremidade de uma haste de árvore. Um ramo partido do tronco risca o incêndio sempre mais adiante. O incêndio é a crença, mas ainda não realizámos a irreversibilidade de nos queimarmos, nem a dor subsequente, nem a pele empolada. Tudo vai passando numa sublimação que se consuma, sem compreendermos que nada passa inteiramente, até que verificamos o assoreamento que foi conquistando um espaço insuspeito no oceano obscuro da consciência. Compreendemos então que matar-nos não podem mais.

A capacidade de decifração da realidade é um dos significados de uma dada idade das idades da vida, do tempo que transcorreu e que sabíamos eternamente efémero desde a conquista que é a consciência da morte. Sabíamos sem o saber; e quando o sabemos realizamos que o fim não coincide com o ocaso sublime do dia num céu a arder; porque a consciência avançou e a descoberta é a obscuridade, o bem sentir da obscuridade. Caminhamos na direcção da obscuridade à medida que apuramos o discernimento e compreendemos quando lançamos o pé naquele momento do caminho em que o nosso tempo já passou, em que a nossa identificação com o tempo presente se vai esmaecendo até se quebrar por completo. O ramo quebrado do tronco que vinha riscando convexas fronteiras à medida da amplitude dos braços é inútil; o tempo extinguiu-se e a morte mudou-se em decisão, porque decidimos por uma poética única e intransmissível, no interior da qual não é mais possível matarem-nos; estar de pé, neste momento único, é tomar na cabeça e nas mãos a decisão de viver e de morrer. Orgânica e materialmente, prosseguimos, porque não podemos fugir a isso, mas existimos poeticamente num tempo que já se consumou e do qual permanecemos o promontório mais ocidental. Tudo continua sendo a morte, mas o nosso ser no tempo está fixado, e esse tempo está acabado para ser a herança possível; começa a vislumbrar-se na escultura geral, pode ser passado com tudo o que nele nunca chegou a passar. Um caderno de apontamentos de há vinte e cinco anos, escrito com uma caneta de aparo comprada num acaso de há mais de trinta anos, e a incidência do ocaso nos livros, ontem. Tudo passa e não passa, e à medida que esse passar se torna mais real e doloroso, todavia mais certo, a sua forma muda cada vez menos.

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Fotografias: Maio de 2017.

 

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