O “ser da morte” e o suicídio do Ocidente

para E. S. com gratidão

DSC02066 - Cópia

A questão fundamental da vida é a morte. É no ser da morte que absolutamente decidimos tudo e que esse tudo, um absoluto ignoto, ao mesmo tempo nos decide. E assim o único absoluto da vida – porque a vida contém em si o absoluto, a nós próprios nos enganamos acerca disso, mas contém – é a conquista incessante e sofrida do desconhecido; essa terra ignota que se forma por sedimentação, partícula a partícula, como o processo de assoreamento de um rio, ou de uma lagoa com foz para o mar. Mas não alcançamos isso durante muito tempo, durante uma parte considerável da vida. Creio, então, que se não pode resolver-se a questão fundamental da vida – que é a da morte – é possível, ao menos, diminuir a extensão do equívoco e dar a tempo por essa terra assoreada. Toda a grande arte – da pintura à literatura, do canto à representação – é a natureza e a qualidade desse caminho em direcção à obscuridade e não em direcção à luz; e esse caminho, ou melhor, esse movimento e as suas razões, sendo o ser da morte a razão maior, existe desde a Antiguidade greco-latina. Todos os problemas fundamentais da humanidade enquanto ser da morte foram aí delineados, a sua necessidade e a sua acuidade foram aí enunciadas. A tragédia actual do Ocidente, que começou em Agosto de 1914, não é apenas a impossibilidade de um Renascimento – a Educação e a cultura enquanto valores civilizacionais foram depostos e destruídos, resumidos a acintosos instrumentos úteis do Poder, transformados em coisas de negócio definidas pelo melhor preço – é a constatação hoje centenária de uma dada morte histórica; não dessa morte que é o ser da morte de onde advém toda a vingança da arte, mas a morte anterior e interior que antecede o suicídio, e a deslocação fatal da vingança – da arte para esse suicídio.

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Fotografia: ocaso nos livros, Maio de 2017.

 

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