patologia do acaso, diário, 35: Argila e terra

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2017, Maio, 7. Argila e terra. Se o radical do que escrevo é um ser-se irreversível (não necessariamente uma tradução, mas uma destruição e uma prova de fogo sem molde) cuja natureza e movimento existem na condição intransponível do silêncio e da descoincidência com o mundo (vulgo solidão) absolutos, não vinga com suficiência, para estar na rede social, a justificação do desejo de ser lido; porque, na realidade, escrevo para muito poucas pessoas, aquelas sobre as quais não incide a minha suspeita da empatia e do entendimento, sendo que ao princípio escrevo para mim e depois esqueço dado que o domínio sobre o escrito deixa de me pertencer, assim como o conhecimento de quem lê ou de quem ignora. É necessário destruir em mim, na medida do possível, o geral desejo de ser lido e o veneno da expectativa; basta-me saber que duas ou três pessoas procuram o que sou no que penso; que procuram, que abrem este caderno, e não que este caderno se impõe, ainda que por via do acaso e da sua absurda legitimação. Escrevo, mas bebo a taça do esquecimento, porque é o esquecimento o que me espera, com maior ou menor benevolência, mas irremediavelmente o esquecimento na dilatação do tempo. A necessidade de escrever é existir no enquanto de uma fronteira indiscernível e no ser-se da morte, mais nada. O mais, o que fica verdadeiramente, e vence o ser-se da morte, é a memória dos meus braços, quando me abraças, A., e a memória dos teus braços, A., quando eu passar. Porque é por ti, A., e existindo por ti eu consigo existir por mim, compreender que não sou um erro, um acaso perdido no Universo, mas uma partícula da sua poeira que não se perdeu no frio e na escuridão inimagináveis. E a sua luta, E. S., para que eu não ceda. É nesta terra sedimentada mas firme que existo: desde o primeiro momento em que chegaram, nunca me abandonaram – e encontraram em mim, mesmo quando eu respirava o pó do chão porque caíra de rosto em terra, e as lágrimas e o ranho erguiam do pó do caminho a argila do meu sofrimento, a razão bastante que antes de chegarem eu nunca soube.

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