patologia do acaso, diário, 38: Realidade, intervalo e regresso

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2017, Maio, 14. Realidade, intervalo e regresso. Os intervalos da realidade servem apenas para tornar mais doloroso o inevitável regresso à realidade, e a felicidade concedida nesse interregno corresponde a uma piedosa esmola: a natureza da felicidade significa a mudança da realidade. Sucede que a felicidade não é concedida, conquista-se e não é um símbolo – respira-se, chora-se, come-se, canta-se, ri-se e pressupõe reciprocidade. Aceita a felicidade concedida, como se fosse uma carta de alforria, quem entende que a morte está à sua frente quando na realidade está ao seu lado. Estes três júbilos ditos colectivos não movem a realidade da vida comum portuguesa um décimo de milímetro; de facto, tornam-na ainda mais inamovível. O chamado Velho do Restelo, que é apenas um «velho de aspecto venerando, Que ficava nas praias, entre a gente […] Com um saber só de experiências feito», não está n’Os Lusíadas para ser menosprezado nem ridicularizado, nem simbolicamente morto, como sempre foi e ainda hoje é. É necessário saber, mas nisso ninguém pensa, porque não sabe ou porque não quer, que Os Lusíadas foram publicados em 1572 e que a primeira armada capitaneada por Vasco da Gama saiu de Lisboa para a Índia em 1497. Entre o acontecimento histórico e a publicação do poema estão de permeio setenta e cinco anos e mais de um século e meio desde o começo da expansão marítima e dos seus descobrimentos e conquistas. De 1415, o ano da conquista de Ceuta, até 1572, a realidade política e ideológica, cultural, social, religiosa e militar portuguesa alterou-se; não se mudou em termos irreconhecíveis, mas alterou-se; a realidade portuguesa e a realidade europeia. Muito «saber só de experiências feito» tinha já decorrido em 1572. Os Portugueses não gostam de Velhos do Restelo, mas não sabem que não é de Velhos do Restelo que eles não gostam: é da filosofia e da história; dos gritos dentro das suas consciências. Porque, de facto, os ditos Velhos do Restelo não impedem ninguém, não são uma «força de bloqueio» como dizia o outro cuja moral precisava dos mal dos outros, esperam até a naturalidade de se estar contra eles – mas esperam também a qualidade da fundamentação desse estar contra eles, porque os tempos consumam-se e com eles a razão humana, a crítica, o pensamento e a ciência. Os Velhos do Restelo existem para que pensemos, sem a experiência devida, antes de tomarmos decisões que carecem dessa experiência; mas enche muito mais o peito e o ego o idealismo adolescente que ultrapassou a idade plausível. Porque a verdade, de novo a escrevo, é esta: o povo aprecia e glorifica aqueles que o distraem e menospreza e insulta aqueles que o educam ou esclarecem; é muito mais fácil chegar a amigo do carcereiro do que merecer a amizade do libertador. Portanto, o resultado do orgulho nacional com os feitos da Bola, do Festival e da Religião, não vai ser outro senão este: o salário mínimo, a exploração de trabalhadores desprotegidos, os preços exorbitantes dos serviços essenciais, os contorcionismos interpretativos a que se obriga a Lei, os malabarismos pseudo-ideológicos que instrumentalizam a Educação e os seus profissionais, a legislação laboral, a saúde mental no sistema público, étecétera, não se moverão um décimo de milímetro.

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Imagens: Luís de Camões [1524-1580], Os Lusíadas, Lisboa, em casa de Antonio Gõçalues, 1572, pp. 77 v.º – 79. Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional Digital, Lisboa, de onde foram reproduzidas.

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