patologia do acaso, diário, 39: O mesmo “disco”, a mesma “música”

 

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Pio XII sulla sedia gestatoria, nel decennale dell’incoronazione, 12 de Março de 1949, fotografia sem indicação de autoria, Wernen Bergengruen – Romisches Erinnerungsbruch / Roma Sparita, Foto Storiche

2017, Maio, 14. O mesmo disco, a mesma música. As pessoas atribuem hoje aos Papas, consciente ou inconscientemente, o mesmo poder taumaturgo que durante séculos se atribuiu aos reis pela razão principal de serem os representantes directos e inquestionáveis do deus judaico-cristão que criara o Universo e lhe impusera uma ordenação perfeita que transcendia o entendimento humano.

O poder dos reis podia conferir a cura ou a vida – no capítulo XCVIII da Crónica de Dom João II, por Garcia de Resende, intitulado «De hum homem a que el Rey deu a vida sendo julgado á morte», «antes das Festas do sacamento do Principe dom Affonso em Euora foy el Rey a Relação hũa sesta feyra, como sempre fazia, e na mesa grande era julgado hum homem á morte por matar outro, e foy trazido diante del Rey, e por saber que era dado sentença que padecesse, disse: Senhor, quatorze annos há que sam preso, e em quanto tiue fazenda pera peitar sempre me alongarão meu feyto, e agora que já não tenho cousa algũa me julgaram á morte, e se então me matarão eu soo padecera, e á minha molher e filhos ficaralhe fazenda pera se manterem, e agora, senhor, matam todos, pois tudo gastei por alongar a vida, olhe vossa alteza isto com olhos de piedade, e de tam virtuoso Rey como he.» O rei, D. João II, leus os termos do feito, considerou que o homem «dezia verdade» e disse aos desembargadores: «Melhor merecíeis vos outros todos a morte, que este pobre homem, mas quem hade matar tantos: e chamou então o homem, e disse que lhe perdoaua livremente, e que elle mandaria á sua custa por perdam das partes, e assi o fez, e o mandou logo soltar, e disselhe que enquanto não viesse o perdão, que se fosse as obras dos paços, que ahy lhe dariam cada dia dous vinteins, e o homem lhe beijou a mam, e o fez assim.» Dali por três dias, os rei visitou as ditas obras dos paços e «vio la o homem com huma muyto grande barba, que auia quatorze annos que não fizera, e disselhe: Nãos sois vos o a que eu dey a vida [?] Respondeo: Senhor si. Disse el Rey; Pois porque não fazei essa barba. E o homem disse: por não ter dinheyro que dar a quem ma faça. El Rey lhe mandou dar ahy logo dous mil reis, e disselhe: Ora hide logo fazer a barba, e não vos veja eu mais com ella: e o homem se lançou a seus pes pera lhos beijar, chorando com prazer, e rogando a Deus por sua vida, e seu estado. O capítulo seguinte é também sobre o mesmo tema: «De hum moço a que el Rey deu a vida, sendo tambem julgado á morte». «El Rey mouido de piedade, e contente das palavras do moço, disselhe: Pois o tambem fizeste, e assi o sabes dizer, bom homem deles de ser, e eu te perdouou livremente, e o mandou logo perante si soltar, e lhe ouue ainda por dinheyro perdão das partes, e o moço com prazer se lançou aos seus pes, e lhos beijou, e todos folgaram de el Rey lhe dar assi ávida, e lho louuaram muyto» (1). É esta força do herói supra-humano protegido pelos deuses, investido da força purificadora, redentora e, por fim, taumatúrgica, a que encontramos no Bonaparte idealizado que toca os pestíferos de Jafa (1799) (2); idealizado primeiro, algo messiânico mais tarde, em 2 de Dezembro de 1804, quando, na cerimónia da coroação que resultou do plebiscito, avilta o Papa Pio VII retirando-lhe das mãos o símbolo imperial para se sagrar a si próprio.imperador (3). O célebre quadro de Gros fora exposto no Salon de Paris dois meses anos, a 19 de Setembro.

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Antoine-Jean Gros, Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa 11 Mars 1799, 1804, Paris, Musée du Louvre.
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Jacques Louis David, Le Sacre de Napoléon, 1805-1807, Paris, Musée du Louvre

001ha - CópiaA taumaturgia latente dos Papas – a do actual espalhada por revistas que lhe dissecam o quotidiano e os seus objectos, dos sapatos à história da vida; existe até uma revista intitulada O Meu Papa, «cujo objectivo editorial», diz a directora, «é tornar mais fácil aos portugueses o acesso directo às mensagens e aos gestos do Papa», com um padre consultor editorial exultante por existir em Portugal «a primeira revista semanal do mundo dedicada a um Papa», mas «autorizada pelo Vaticano», nem outra coisa se esperava, com os conteúdos recolhidos «nas fontes oficiais da Santa Sé» (do maior interesse, calcula-se) – oculta e faz esquecer a sua terrena realidade muito pouco sacra.

001lÉ absolutamente irrelevante gostar mais ou menos deste Papa ou considerá-lo em acordo com os sinais do tempo. A Igreja católica apostólica romana esteve sempre contra os sinais dos tempos, a começar pela liberdade de consciência e pela independência da Ciência. A suposta simpatia e popularidade deste Papa é absolutamente irrelevante; deste ou de qualquer outro dos Papas anteriores eleitos no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, particularmente depois de Pio XII, que morreu em 1958 – o Vaticano, minúsculo Estado soberano e resquício dos Estados Pontifícios que dividiam a Península Itálico, e que apenas em 1929, com o Tratado de Latrão, assinado por Mussolini e Pio IX, reconheceram o Reino de Itália – continua sendo um Estado teocrático, monárquico e electivo, governado por gerontes detentores de um poder absoluto, que não prestam contas senão à divindade em que acreditam e são os representantes terrenos; o seu modus operandi, ainda que respeitando a soberania e o poder temporal dos Estados laicos por não ter outra alternativa em termos oficiais, é transversal e a sua rede de lealdades funciona exclusivamente em relação à capital deste império religioso e financeiro, Roma, ao seu bispo, o Papa. Esta organização supra-estadual movimenta quantidades inimagináveis de dinheiro e o seu poder de influência, quando não devidamente respeitado e reverenciado, pode ter consequências fatais. Um papa mais simpático significa apenas uma esperança morta, uma expectativa vã de que o regresso da agulha ao sulco inicial do mesmo disco proporcione uma peça musical diferente.

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(1). Garcia de Resende, Crónica de Dom João II e miscelânea, nova edição conforme a de 1758, introdução de Veríssimo Serrão, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1973, pp. 137-138.

(2). Antoine-Jean Gros [1771-1835], Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa 11 Mars 1799, 1804, óleo sobre tela, 5,23 m. x 7,15 m., Paris, Musée du Louvre.

(3). Jacques Louis David [1748-1825], Le Sacre de Napoléon, 1805-1807, óleo sobre tela, 6,67 m. x 9,90 m., Paris, Musée du Louvre.

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