“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 1

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Caldas da Rainha, 26 de Maio de 2017

1.

A depressão é uma dor psíquica constante, positiva e negativa, negativa e positiva, à semelhança dos extremos do processo fotográfico – um processo também do eu; apercebo-me, em certos momentos, a realizar em mim uma arguição da sua verosimilhança, a tactear, a aferir se o meu eu coincide comigo, se a minha cabeça está comigo, ou se eu estou fora da minha cabeça e me vejo pelos meus próprios olhos. É também semelhante à fome – um processo de conclusão adivinhável; sempre um processo, mas houve um ponto ou uma fronteira (a palavra limite é a mais adequada mas não serve, nem o conceito nem as imagens possíveis) em que o processo parou, estancou, para poder continuar. O processo é invisível e invencível e a fronteira corresponde à consciência de se ter saído de uma dada realidade a que os Antigos chamavam «o mundo habitado» e que era em simultâneo um conceito. No movimento, mas fora do mundo habitado. E assim como se deixa de sentir a fome, o corpo adquire uma densidade e um peso quase insuportável onde predomina o som da própria respiração – já não se sente a dor, mas está-se no seu útero e na sua cabeça; “útero” e “cabeça” num organismo informe onde os “olhos” confirmam o excesso absoluto de uma acuidade intelectual impressionante, desconhecida até darmos conta dela, precisamente pelo processo que ela é. Talvez por este processo conhecer momentos em que se transforma num vórtice indomável, o álcool se dilua tão perfeitamente na depressão e faça sangrar de uma maneira única – mas não sucede ao álcool o que sucede à medicação: a necessidade de estancar, porque o álcool pode diluir-se – não: a melhor palavra não é diluir, mas contaminar; porque o álcool pode contaminar também um outro processo, aliado e inimigo da depressão, o processo criativo. Realizei, como escrevi em um outro diário, que talvez seja possível transformar a depressão em pensamento; mudar a depressão num processo cognoscente, amassá-la até se transformar em pão – em escrita. «Você não pode lutar contra a depressão; você tem que aprender a viver com a depressão». Esta evidência, que eu nunca poderia ter alcançado sozinho, leva já treze ou catorze anos no meu pensamento; a começar por aqui: a escrever agora, a escrever sobre o que já foi escrito, desenhado ou pintado; a desenhar, se tempo houver para isso; a fixar imagens com a máquina fotográfica. Porque preciso; para ficar de mim próprio conhecido. Gosto dos versos quinhentistas de Bernardim Ribeiro – que Amália transfigurou em canto com música de Alain Oulman no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977 – para escrever sobre a depressão quando estiver de maré: «e eu mal aventurado morro-me andando assim entre cuidado e cuidado», que são da Écloga Quarta «chamada Jano».

Para E.S.

26 de Maio de 2017

 

307

 

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Mudei terra mudei vida
mudei paixam em paixam
vi a alma de mim partida
nunca de meu coraçam
vi minha door despedida:
Antre tamanhas mudanças
de hum cabo minha sospeita
e de outro desconfianças
leixanme em grande estreita
e leuanme as esperanças

 

310 - Cópia

Nesta triste companhia
ando eu que tam triste ando
jaa nam sam quem ser soía
os dias viuo chorando
as noutes mal as dormia:
Temo descanço tornado
mal que por meu mal ho vi
e eu mal auenturado
mourome andando assi
antre cuidado e cuidado

 

Por me nada nam ficar
que nam me fosse tentado
prouei darme a trabalhar
mas nunca me achei cançado
para poder descançar:
Quando mais cançado estaua
alli meu mal entam
a meu mal se apresentaua
e o corpo e o coraçam
ambos cançados leuaua

 

Sketchbook 072
Diários gráficos, tinta-da-china, 1998

 

Nam sabendo onde me hiria
que ma mim laa nam leuasse
roguei a Deus nam soo hum dia
que da vida me tirasse
pois me dala nam queria:
Mas com cuidados maiores
cree que Deus se nam cura
ca dos pobres pastores
como que elles por ventura
nam sentem laa suas dores

 

DSC02066 - Cópia - Cópia

 

O quam bem auenturado
fora jaa se me matara
minha door ou meu cuidado
eu morrera e acabara
e meu mal fora acabado:
Nam vira tal perdiçam
de mim e de tanta cousa
perdido tudo em vam
porque hua paixam nam repousa
em outra maior paixam

 

Bernardim Ribeiro, «Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. cix v.º [109 verso] – cx v.º [110 verso].

DSC02168 - Cópia (2) - Cópia

 

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