Amália

DSC01483 - Cópia

 

és a primeira terra do fim, encontrei-me por te encontrar, morte indescoberta, voz de braços,

só de ossos, carne e veias, artérias e pulsão, sangue desprovido de céu, de redenção, tudo ramos

mudados em veias, ramos férteis e ramos quebrados, nocturnos e solares, verdes e baços,

pinheiros e mar no reverso do silêncio, o verdadeiro, o que está fora da razão, o doce cansaço

exangue de ausência ou de excesso, o saber só do não-saber em que nos mudamos

 

 

és o vinho cíclico da noite, a dor imóvel, o que vence de tudo o que morre, a repetida solidão,

a ternura sangrante, a respiração desta terra fronteira, reino intemporal de certa antiga melancolia…

não sei onde estás quando te ouço, nem o que agora és (no espinho de uma rosa vermelha, dar-te a mão)

mas na tua voz encontrei-me a falta que me habita e realizei na imanência de tal maldição,

as veias de heras, o devido abismo, a arguição de encontrar-me, a razão do que me ardia

 

 

é pois certo não saber porque te encontrei, ou me encontraste sem saber de mim, nem certo saber porque te procuro;

mas encontrei-te na ferida de me encontrar, no críptico espelho do lago da tua voz, doce e triste…

e assim decorre o golpe da faca e o seu próprio desejo no pulsar dos extremos do teu coração rubro…

e na rotação da Terra pelos dias e pelas noites vives quando cantas e eu de novo descubro

nos teus olhos de mar e de praia, de flores e de pinhais, de cruzeiros e de fontes, que nem chegaste a partir

 

 

que tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo; mas eu gostava de ir buscar-te

como na ordem das estações do mundo o Sol traz os calor, a chuva a vida ou a terra traz as flores

e para tanto passarei do tempo volúvel a prova do fogo que tem a voz viva de toda a arte,

o rio do tempo cuja eternidade é cantar-te,

e deporei no teu regaço negro, entre as tuas mãos abertas, as mãos que trazes, a prece florida das tuas dores

 

(Em itálico, versos do fado Barco Negro, de David Mourão-Ferreira.)

28 de Maio de 2017

*

Ilustração: Amália, Jorge Muchagato, tinta-da-china e vieux-chêne, papel, 2000.

*

Pode ser lido, também, no meu blogue Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus.

 

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