Entendimento e movimento no ofício de historiador

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O objecto do trabalho de um historiador é a vida humana e não menos do que tal imensidão, onde num dia se pode atravessar um pomar deleitoso, noutro um insuportável deserto, noutro uma tempestade insuspeitada; mas onde também se pode fazer a travessia da noite mais profunda, das formas inimagináveis do mal, da imperfeição moral mais repugnante da existência humana. Se a imagem do labirinto serve bem pata qualificar a cabeça de uma pessoa, esta matéria real ou pensada, visível ou oculta, verdadeira ou dissimulada, contingente ou desejada que é a vida humana tem uma complexidade incomensurável, densa e obscura. Mas é todavia em direcção à obscuridade o movimento de um historiador. E o passado ainda acontece, mas não é frequente pensar-se nisso; e esse “acontecimento” actual do passado reveste-se de boas e de más razões. A literatura, a filosofia, a arte, devem interessar o historiador em profundidade, porque um escritor, um poeta, um filósofo, um artista, pode conseguir resumir nas suas expressões ideias que um historiador tem ou intui, mas ainda não conseguiu, ou poderá nunca conseguir, materializar na escrita com a mesma acuidade que lhe saiba dar-lhe um artista, um filósofo, um poeta, um escritor. Na verdade, um historiador não deve esquecer que a história já foi, há muito, uma das formas da literatura – e, de facto, guarda ainda resquícios importantes dessa funcionalidade porque é narração. Sendo a existência humana a matéria do seu ofício, um historiador interessa-se por tudo quanto convenha ao aperfeiçoamento do seu método de aproximação à verdade. O que de facto conta, em última instância, transpostas as particularidades, é o método único e intransmissível que um historiador leva uma vida inteira a construir e a arguir. Essa construção é difícil e angustiante, frutuosa e vazia, porque um historiador tem de fazer a aprendizagem da importância e da necessidade de, com mais frequência do que entende, estar contra si próprio. Estar contra si próprio carece de muito tempo – é necessário compreender as razões e alcançar um resultado. A vida de um historiador é também feita de muitos livros que nunca chegará a escrever; é preciso uma certa fortaleza moral para não ceder ao afastamento desta evidência. Um historiador sofrerá com isso, mas não deve capitular. Para tudo isto que agora escrevo existe uma frase intransponível e essa frase foi elaborada por uma escritora: «a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar»: Clarice Lispector, na apresentação de A Paixão segundo G. H., publicado em 1964. É difícil, mas não é uma maldição que o caminho do historiador se faça na direcção da obscuridade, porque estando consciente disso, nas veredas do caminho haverá claridade.

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Fotografia: [rua], Junho de 2017.

A questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância

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Todos os dias um historiador pensa na razão das coisas e no poder, elevado ou miserável, das paixões humanas, e a sua capacidade de decifração e de análise, mas também de crítica, deve incidir com a mesma gravidade sobre o tempo que já se consumou e sobre o tempo que ele próprio sente transcorrer. Estamos sempre em relação com o passado, e isto quer dizer que «sermos membros de qualquer comunidade humana significa situarmo-nos em relação ao seu passado, ainda que assumindo uma atitude de recusa. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, uma componente obrigatória das instituições, valores e outros elementos constitutivos da sociedade humana» [1] e portanto, «paradoxalmente, o passado continua a ser a ferramenta analítica mais útil no que se refere ao confronto com a transformação constante, mas assumindo uma forma nova. O passado transforma-se na descoberta da história como um processo de mudança direccionada, um processo de desenvolvimento ou de evolução. A transformação torna-se assim a sua própria legitimação, mas fundando-se agora num “sentido do passado”, que se transforma também» [2]. A verdade não é um fruto fácil de alcançar nem de saborear – isto é uma realidade, tanto para a vida quotidiana como para a escrita da história. Esse fruto que é a verdade nunca será suficientemente doce nem suficientemente amargo; ou será, por outro lado, demasiado doce ou demasiado amargo. A história é, de alguma maneira, semelhante à morte: uma espécie de «presença ausente» [3]; conhecem-na todos e ninguém. E com efeito: «não existe indicador mais significativo do carácter duma sociedade do que o tipo de história que se escreve ou não se consegue escrever» [4]. A verdade tem uma espessura insuspeita e não se pensa nisso com a devida frequência, mas devíamos: a vida é claridade e sombra, exposição e ocultação – «toda a gente sabe que os seres humanos não actuam sempre, nem mesmo habitualmente, a partir de motivos perfeitamente conscientes ou em função de motivos que estejam dispostos a confessar; e estaremos certamente a funcionar com um olho intencionalmente fechado se excluirmos o estudo dos motivos inconscientes ou inconfessados. Contudo, segundo alguns, é isso o que os historiadores deveriam fazer e este é o centro da questão» [5]. Parece ser fácil, imediato, tudo se poder saber neste tempo triunfal da informação, mas isso é, em certa medida, ilusório – na realidade sabemos pouco (ou sabemos o consentido) e decidimos ainda menos. A velocidade com que a informação se propaga e é tida, quase indubitavelmente, como verdadeira é tão vertiginosa que a sua manipulação é um exercício demasiado fácil e por conseguinte absolutamente tentador; o seu poder é desmedido. Esta realidade deveria fazer-nos pensar nas fronteiras reais da democracia, porque com as suas fronteiras retóricas convivemos todos os dias. A educação é a raiz comum da civilização e da democracia; é a educação, cívica e escolar, que a cada dia constrói e apura o instrumento e o método mais eficazes contra a indiferença em relação à mediocridade, à ignorância e à legitimidade do mal menor que cauciona todas as ditaduras independentemente das suas formais mais ou menos “legais” e das suas densidades repressoras. Esse instrumento é a capacidade informada de opção; os motivos da aceitação, os motivos da recusa.

De certa “notícia” e respectivo “rodapé” televisivo que enunciava o «sangue comunista» de um político português, o mais que se pode dizer é que se trata da questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância. É bem verdade que a história não se repete – é uma impossibilidade, teórica e de facto; mas, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm, se destituirmos a história do seu sentido pedagógico, isto é, se considerarmos que a história nada nos ensina, é provável que soframos de algum desajustamento psíquico. Todavia, escreveu o mesmo historiador, «infelizmente, se alguma coisa a experiência histórica ensinou aos historiadores é que, aparentemente, com ela, nunca seja quem for aprende seja o que for. Mas temos o dever de continuar a tentar» [6].

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[1]. Eric Hobsbawm (1917-2012), Escritos sobre a História, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 2010, p. 9. [Edição original: On History, London, Weindenfeld & Nicolson, 1997. A edição portuguesa é uma antologia da edição original inglesa.]

[2]. Ibidem, p. 20.

[3]. Paul-Louis Landsberg (1901-1944), Ensaio sobre a experiência da morte, tradução de Alberto Nunes Sampaio, Lisboa, Hiena Editora, 1994, p. 19. [Essai sur l’expérience de la mort, 1937.]

[4]. Edward Hallet Carr (1892-1982), Que é a História? Palestras proferidas na Universidade de Cambridge Janeiro-Março de 1961, tradução de Ana Maria Prata Dias da Rocha, Lisboa, Publicações Gradiva, s.d. [1982], p. 37. [Edição original: What is History?, London, Curtis Brown, (196_).]

[5]. Ibidem, p. 41.

[6]. Eric Hobsbawm (1917-2012), Escritos sobre a História, p. 44.

um dia bom [3]

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um pouco mais do miolo dos dias, tão passados, um pouco mais para além
da habitual rotina dos dias
: no céu do ocaso um primeiro vislumbre da lua,
nas luzes nocturnas da cidade um perfil novo para as mesmas casas,
no anguloso recorte a escurecer nos prédios iguais
uma sombra menos densa, um pouco mais
no papiro da árvore dos dias, na pele sedenta, na luz do sol, no íntimo calor da noite,
no brilho da água nas folhas verdes

no alcance dos olhos, no diafragma, no movimento, nos gestos

: palavras novas na página antiga da árvore do papel, sobre o livro do lume da redondeza do mundo,
um desejo equinocial que escreva radicalmente a verdade,
mais para além, mais para além da habitual rotina dos dias

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para I.
manhã de 26 de Junho de 2017

em itálico:
mais para além da habitual rotina dos dias: I.
lume da redondeza do mundo: do livro Esmeraldo de situ orbis, de Duarte Pacheco Pereira (ca.1460-1531/33). O Esmeraldo de situ orbis é um roteiro náutico e geográfico, um tratado de cosmografia e que o autor escreveu entre cerca de 1505 e 1508, ano em que interrompeu a sua redacção deixando-o inacabado. Foi publicado pela primeira vez em 1892. radicalmente a verdade pode ler-se na penúltima frase da página aberta, na fotografia.

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Fotografias: I., vista urbana nocturna, e JM, um pedaço da entrecasca, semelhante ao papiro, da chamada árvore-do-papel, cujo nome científico é Lasiandra Papyrifera, sobre página da edição mais recente do Esmeraldo de situ orbis (1991).

 

 

 

um dia bom [2]

 

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escrevo o teu nome com a minha voz
e aporta em mim,
à suavidade de respirar quando escreves com a tua voz o meu nome,
um abandono feliz que me chama e desejo seguir,
uma voz de pétalas que me acelera o coração
e ao sangue avermelha de vontade,
uma voz de pétalas de rosa

levarei uma rosa vermelha o saber
não-pensado da seiva deste acaso

para I.

 

 

um dia bom [1]

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é hoje de luminoso azul a tua voz, na explicação do céu – moléculas de ar, água e poeira
que dispersam, como o espelho de um desejo, a película azul que abraça este único momento
da rotação da Terra e tem a sua génese na luz solar que trespassa o prisma das cores
da tua voz que compreende a eternidade do mundo
– que eu reconheço, entendo, e sem o sentido da explicação própria, o seu suave e belo apelo sigo;
uma frequência não já próxima da ressonância dos átomos que o crepúsculo dispersará
mudando o céu em vermelho-fogo – as palavras-cor que o sol a todas as horas aperfeiçoa
sob o humano céu que confirma este enigma de um tão feliz acaso
é hoje a alegoria de um sereno e alvo céu a tua voz, a metáfora de todas as cores
do genesíaco prisma da poeira original do universo que o teu olhar me traz
– um dia bom

para I.

manhã de 24 de Junho de 2017

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Fotografia: I.

a eternidade do mundo

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despojado da procura e da sua expectativa, encontro a eternidade do mundo: sou
o movimento incessante do meu desejo
quando reconheço sem saber o poderoso mistério certo de um acaso

gosto da eternidade do mundo que há na tua voz – reconheço-a
é clara como a rotação da Terra que revela a esperança de um dia novo e bom,
tranquila e regeneradora como a sombra das árvores que aceita nas folhas o reflexo da luz que não teme,
alegre como a feliz liberdade do mar onde durante todo o ano procuramos a razão das explicações,
suave e segura como a areia da praia, que não mistérios mas todos esquecem que é uma rocha,
acolhedora como um céu sem deuses por saber do céu a terrena beleza,
e soa com a benignidade da seda de uma brisa levemente fresca no calor de um dia de Verão

é a eternidade do mundo, que sendo tudo e não sendo nada, não se revela, mas
eu sei que é, ainda que mais nada saiba – e isso é bastante

para I.

23 de Junho de 2017

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Ilustração: O Dia [pormenor], acrílico e pastel seco, papel, Fevereiro de 2017.

Os objectos de um historiador. O espelho: função e conceito no «fazer memória»

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Autor desconhecido, Retrato de Afonso de Albuquerque, governador e vice-rei da Índia, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, ca. 1555-1580 (conforme a ficha de indentificação do Museu), número de Inventário: 2144 Pint.

Com frequência pensamos, quando nos aventuramos a decifrar os extremos da verdade e da mentira, das qualidades do sentido de facto e da dissimulação, na popular sentença tantas vezes dita: «os olhos são o espelho da alma». E com efeito: também o olhar tem uma gestualidade. O quotidiano da sua própria vida é uma das mais interessantes e importantes fontes de um historiador pois a sua decifração é proporcional ao movimento constante do conhecimento de si mesmo. Ontem como hoje, «a vida, tal como a vivemos, não é um momento de repouso [e] a imagem do pássaro vindo não se sabe donde e ido não se sabe para onde permanece um bom símbolo da inexplicável e curta passagem do homem sobre a Terra», escreveu Marguerite Yourcenar [1]. E por isso a vida, preenchida tanto por este «espaço do invisível» (Vergílio Ferreira), não é um caminho nem certo nem a direito; é um labirinto como as cidades antigas, feito das «rua direitas» ou «ruas novas» mas também de «travessas», «becos» e «azinhagas»; de uma forma se percorre quando é dia e de outra quando é noite. Tal como o historiador leva por diante o seu ofício na ansiedade e na sabedoria, nas conquistas e nos reveses da aproximação à verdade, também cada um pode definir a qualidade da sua aproximação à verdade da vida; da vida pretérita da sua família, da vida presente na rotação da Terra, nas projecções que pretendem abrir veredas de pacificação na inexorabilidade da consciência da morte. A morte é a primeira evidência e tudo são ramificações dessa raiz indestrutível; é pois da maior importância interiorizar a estranheza que sempre tem a morte. De facto, «chegando de uma esfera estranha, a morte como que se vê introduzida de fora na nossa existência. Para qualquer pessoa humana, a apropriação espiritual da morte é uma tarefa decisiva, mas um tal esforço implica esse mesmo carácter da morte que ele tende a transformar. […]. A aceitação da morte transforma a morte; mas aceitá-la implica uma resistência. Na sua própria essência, a pessoa humana não é uma existência perante a morte. Como qualquer outra existência é, a seu modo, dirigida para a realização de si mesma, rumo à eternidade» (Paul-Louis Landsberg) [2]. O caminho de toda uma vida que o historiador faz no sentido da aproximação à verdade é também um caminho contra si próprio, pois faz isso parte do sofrimento e da beleza do movimento de se aproximar. Esse movimento em história não é, segundo o meu entender, o movimento limitado do especialista, e tanto assim é que podemos encontrar na literatura ideias e expressões que conseguir exprimir mais certeiramente e com maior acuidade, ideias e enunciações que qualquer historiador gostaria de ter encontrado por si. Um historiador não deve esquecer que a história já foi sobretudo literatura. Ora, «a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar» (Clarice Lispector) [3]. A certeza pode ser tão diáfana como a desconfiança ou o simulacro do espelho. Vemo-nos, é certo, mas vemos também o que desejamos ver e não apenas o que realmente vemos.
Entre os diversos objectivos a que a escrita da história pode conferir uma forma está o de fixar objectualmente, nas culturas que dominam a escrita, os acontecimentos entendidos como decisivos ou excepcionais que se inscreveram, marcaram a «longa velhice dos tempos» (Zurara) [4]. Quando a história tinha ainda um sentido, esses acontecimentos excepcionais – invulgares por diversas razões que se estendem da sua magnitude aos seus protagonistas – estavam também inseridos num movimento de desejo e de projecção, pois procuravam moldar o futuro dentro de um sistema linear do tempo segundo a omnisciência da divindade que tudo sabia, antevia, e de maneiras tão inúmeras quanto misteriosas ou encriptadas, podia intervir. Para compreender estas categorias mentais, o historiador poderá começar por pensar, com tempo e profundidade, nas propriedades reais, metafóricas e alegóricas de um objecto: o espelho.

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Autor desconhecido, Retrato de Afonso de Albuquerque, governador e vice-rei da Índia, pormenor, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

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[1]. Marguerite Yourcenar (1903-1987), «A propósito de algumas linhas de Beda, o Venerável» (1976), in Idem, O tempo esse grande escultor, tradução de Helena Vaz da Silva, Lisboa, Difel, pp. 13-14. [Le temps, ce grand sculpteur, Paris, Gallimard, 1983.]

[2]. Paul-Louis Landsberg (1901-1944), Ensaio sobre a experiência da morte, tradução de Alberto Nunes Sampaio, Lisboa, Hiena Editora, 1994, pp. 36-37. [Essai sur l’expérience de la mort, 1937.] Itálicos no original.

[3]. Clarice Lispector (1920-1977), A Paixão segundo G. H., (1964), 2.ª edição, Lisboa, Relógio d’Água, 2013, «A possíveis leitores», p. 7.

[4]. Gomes Eanes da Zurara (ca.1410/20-1474), Crónica de Guiné, Introdução, novas anotações e glossário de José de Bragança, s.l. [Porto], Livraria Civilização Editora, 1973, capítulo III: «Em que conta a geração de que descende o Infante D. Henrique», p. 19.

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Imagem: Retrato de Afonso de Albuquerque (1453-1515), governador e vice-rei da Índia, autor não identificado, Goa, ca. 1555-1580, originalmente no Palácio do Governador, Goa,Pangim. Foi D. João de Castro (1500-1548), governador (1545-1548) e vice-rei (1548) da Índia, quem ordenou a constituição de uma galeria de retratos dos governadores anteriores a si e naturalmente incluindo-se a ele próprio. Gaspar Correia, na Quarta Parte das suas Lendas da Índia, dedica um capítulo a esta iniciativa de D. João de Castro intitulando-o «Como o gouernador fes memoria de todolos gouernadores passados, e os mandou pintar per natural em retauolos com seus letereyros, onde elle tambem se pintou». E esse espelho e recriação da história dos Portugueses no Oriente, segundo conta Gaspar Correia, foi realizado com a pretensão da realidade uma vez que o autor dos primeiros debuxos dos retratos foi o próprio Gaspar Correia, e assim ele o conta: «O Gouernador, como era curioso de fazer cousas memoraues que ficassem per sua lembrança, pareceolhe bem fazel alguma memoria dos Gouernadores passados. E chamou a mim Gaspar Correa, por ter entendimento em debuxar, e porque eu lá tinha visto todos os Gouernadores que tinhão governado n’estas partes; e me encomendou que trabalhasse por lhe debuxar per natural todos os Gouernadores per natural. No que me acupey com hum pintor homem da terra, que tinha grande natural, o qual, pola enformação que lhe dey, os pintou de natural de seus rostos, que quem os primeiro vio em vendo sua pintura logo os conhecia». O cronista escreveu que «todos forão pintados em tauoas [tábuas], cada hum apartado» – isso significa, estando correcta a atribuição cronológica que consta da ficha de identificação do Museu Nacional de Arte Antiga, para o retrato de Albuquerque que se reproduz aqui, que este poderá não ser o retrato originalmente pintado. Gaspar Correia terá começado a escrever as Lendas da Índia por 1550 e em 1563 estava ainda a redigi-las (Gaspar Correia, Lendas da Índia, volume quarto, Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida, Porto, Lello & Irmão Editores, 1975, pp. 596-597. Sobre Gaspar Correia, ver a biografia existente no site do C.H.A.M.-Centro de História de Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa). Ainda segundo a informação do Museu, este foi o único retrato da série dos retratos dos governantes do Estado da Índia, começados a pintar por ordem de D. João de Castro, que saíu de Goa antes da anexação pela União Indiana em 1961.

 

Fotografias: Jorge Muchagato, Março de 2014.

eroticon XV: purgatório

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a noite e o seu silêncio transfiguraram-se na antemanhã
(abraço-te)
a distância descoincide, a expectativa ignora a condição do destino, o tempo é uma total antecipação linear que à entrada da noite, no calor incompleto
da cama dá rumo inútil ao punhal do desejo quando

(as tuas mãos)

o suor nos lavará enfim numa pele só e nos resgatará
deste purgatório sem nome onde nos achamos condenados sem gozo, sem proveito, sem culpa

abraço-te            na antecipação da verdade da carne abraço-te

madrugada de 5 de Maio de 2016

*

Fotografia: Vitorino Coragem

eroticon XIV: calor

na languidez quente da tarde               penso-te               e ao sentir o odor íntimo de mim,
esse cheiro próprio mais profundo, o odor vivo do sexo é-me incompleto,
mais profundamente te imagino             o cheiro da tua pele, do teu suor, dos teus cabelos, o meu rosto, a respiração seguindo-te o pescoço, a nuca          na sede tépida da minha boca, na esponja da minha língua, na sofreguidão do olfacto
pelos recantos mais crus e violentos do teu corpo
cresço numa rigidez que vem de dentro, situada algures no interior do quadril, no percurso do sémen contraindo a matéria central dos músculos,
quero tomar-te em todas as formas em que os nossos corpos se encaixem e se contrariem, se aceitem e se debatam
e quero que gemas indefesa submissa e revoltada
numa raiva violenta e extática de prazer e de dor, de mais e mais dor a rebentar de aceitação e de recusa

 

o limite da pele e não da dor,
inundado de sangue, suspendo-me, as contracções dominam-me            a tua imagem de um avassalador poder carnal eclode na minha cabeça e jorra triunfante sobre a loucura do desejo de ti em carne

no calor de uma tarde de Junho de 2016