o primeiro gesto de um corpo nosso

DSC01802 - Cópia (2)

 

venho beijar as tuas involuntárias feridas

(venho ainda, todas as noites, com os lábios húmidos do vinho – o sal ardente – que entorpece em mim a nossa falta nunca resolvida – e a vida passa uma só vez)

venho ainda beijar as tuas involuntárias feridas,

beijá-las, não curá-las, porque tu és as tuas feridas antigas

e eu quero-te com o teu próprio dano

 

venho ainda, todas as antemanhãs, trazer-me inteiro às tuas mãos para que pouses a cabeça,

te deites em mim e finques os teus dedos na minha carne,

com toda a força do teu desespero e me sulques o corpo

 

espero-te, a minha espera por ti nunca cessou

(a minha espera por ti nunca desabará)

pois tu és o que eu sou e eu sou o que tu és

 

venho beijar as tuas involuntárias feridas, resguardar-te do frio com o meu calor,

cuidar das asas da ave parada em que te dizes;

esse cuidado é os meus braços pelo teu voo

 

vem

 

os braços – o primeiro gesto de um corpo nosso, quando chegares

 

21 de Abril de 2016 e 11 de Junho de 2017

 

*

Fotografia: 2017.

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