“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 2

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2.

Tomei um calmante para adormecer um pouco na minha cabeça os gritos de desespero, ou de algo parecido com o desespero, mas que eu não sei o que é; uma desordem ensurdecedora, um caos mortal, e conseguir escrever; não quero escrever, mas preciso de escrever: é o único caminho que encontro para interiorizar, com todas as forças que julgo permanecerem ainda, que estou absolutamente só e que ninguém virá para me salvar. O sono deixou há muito de ser tranquilo e regenerador e acordo durante a noite; consigo, com esforço, voltar a adormecer, mas desperto cedo. Não é cansaço o que sinto quando acordo, mas um peso monstruoso do corpo. Tomo o pequeno-almoço porque sinto alguma fome, o café, fumo o primeiro cigarro sentado à mesa de trabalho, mas o corpo pesa-me demasiado, uma densidade absolutamente saturada que me puxa para o chão. Deito-me de novo, penso em tomar dois ou três tranquilizantes, mas não posso, com o grave trabalho que tenho, passar mais um dia num sono induzido. Os lençóis são quentes e confortáveis, de flanela, mas sinto frio. Fecho os olhos, sei que não conseguirei dormir, talvez procure um lastro de força ou algum convencimento psíquico que me faça vencer o peso e a densidade do corpo, mas é uma noite profunda, sem nada, a escuridão completa. Ensaio a posição fetal debaixo dos lençóis, é a escuridão mesmo de olhos aberto, mas a própria respiração ameaça sufocar-me. Afasto a roupa da cama, sento-me, quero levantar-me, tenho que dar razão ao dia ainda que não a encontre. Mas o corpo tomba com a cabeça para o lado dos pés. Depois de vários reveses consigo levantar-me, não quero, não sei se conseguirei, mas preciso de escrever para interiorizar que estou absolutamente sozinho, rodeado de silêncio, que esta escrita é «as mãos que trago»* e que se recusam a largar a cimalha para uma queda final no absoluto; que esta escrita é os meus sapatos desfeitos, os meus sapatos-verdade. Começo a sentir o apaziguamento induzido pelo tranquilizante; diminui um pouco o desespero, a desordem, o vórtice do caos onde pressinto o agravamento da doença; pressinto mas não sei, não tenho uma noção precisa da gravidade do meu estado psíquico para além da usual pulsão de morte que estes estados acentuam até à surdez. Levantei-me para a rocha de silêncio de mais um dia, mas levantei-me, quatro horas depois de ter acordado; não quero propriamente salvar-me de mim, isso seria condenar-me a não escrever, desenhar ou pintar. Não quero salvar-me de mim nem busco um sentido para o arbítrio do acaso de estar vivo, nada posso contra isso. Começamos a pensar em anos, depois em meses, por fim em semanas, e à beira do precipício, em dias, em horas. Agora, é necessário continuar a assentar bem as pedras de estar absolutamente só e de saber que ninguém pode salvar-me. [Entretanto, você telefonou-me, veja se conseguimos “tirar” esta morte de dentro de mim; é provável que não consigamos porque ela é a própria consciência de mim, mas que seja, pelo menos, uma vulgar pulsão que consiga esquecer sob o calor do sol, na sombra das árvores, no vento no rosto, na água do rio nas mãos em concha.]

 

16 de Junho de 2017

 

* Cecília Meirelles, do poema Canção a caminho do céu, que Amália cantou com o título As mãos que trago, no disco Com Que Voz, 1970.

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Fotografia: Silos, Caldas da Rainha, 23 de Março de 2017.

 

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“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro (ca. 1490?-ca. 1552?), Écloga Quarta «chamada Jano», in Idem, História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. Cantado por Amália, com adaptação e música de Alain Oulman, no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977.

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Idealização de Bernardim Ribeiro, por António Augusto da Costa Mota (1862-1930), bronze, 1907, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, e de onde provém a fotografia [alterada].

 

 

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