patologia do acaso, diário, 43: Fragilidade, Razão e silêncio

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2017, Junho, 19. Fragilidade, Razão e silêncio. A nossa passagem sobre a Terra é efémera, ténue, «frágil» [1] e dependente de arbitrariedades e de contingências que em muitas ocasiões transpõem sem piedade nem benevolência a mais firme das vontades, o mais poderoso dos desejos. Não sendo, com absoluta propriedade, o martirizado Job, também não somos, com a mesma absoluta propriedade, um qualquer deus, incontáveis deuses. Não creio, como escreveu Natália Correia, que seja «grosseiro viver sem deuses», embora lhe compreenda e de natural modo lhe inveje tal crença ou desespero – «I. Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles. E mesmo que, existindo, nos ignorem, não sejamos nós a ignorar a sua autoridade primitiva que, nutrindo de segredos divinos as florestas, os rios e os ventos, faz correr o sangue em nossas veias. Usando este saber, menos dano nos farão os saqueadores do verdor da natureza. Supersticiosos como todos os malfeitores, tolhimento lhes será o terror sagrado de depredarem flores, árvores e fontes em que os deuses são tão reais quanto elas são. Baste-vos esta ciência: onde vos retiver a beleza de um lugar, há um deus que vos indica o caminho do Espírito. II. Acreditemos por conseguinte nos deuses. Quer eles existam ou não. Porque da efémera vida o que colhemos é o exercício da beleza que nos alimenta de sensações divinas. Mas ponhamos todo o cuidado em não privilegiar esta ou aquela divindade por mais simpática que ela seja a um certo sentir da nossa incerta vida. Os deuses ou são todos ou nenhum» [2]. Bastará ferrarmos as unhas na pele para entendermos dela a fragilidade e nesse gesto a fragilidade da nossa existência. Mas a verdade é que não sendo nós Job nem Deus, a pele regenera-se, o corpo sem razão luta pela sua sobrevivência, o labirinto do ser reproduz-se a cada nova compreensão da obscuridade. (Não conquistamos a obscuridade, vamos obtendo dela, sob a condição do entendimento, da resignação ou sob outra qualquer e imaginativa condição, as tréguas sucessivas, necessárias para o pó da estrada amassado na língua.) Considerando, portanto, que a própria evolução da espécie humana demonstra a natural e lógica inexistência de deuses de qualquer natureza, situamo-nos à mercê de uma arbitrariedade primária e universal que em milhares de anos de ser temos vindo a descodificar numa luta sanguinolenta de libertação de sentidos e de intervenções divinas.

Eis uma parte da narração que faz João de Barros (ca.1496-1570), na «Primeira Década» da sua Ásia (1552) do que contenderam Diogo de Azambuja, capitão-mor da armada, com o «rey» local Caramansa para a construção do «castello que agóra chamamos de sam Jorge da Mina» e «do consentimento que deu [Caramansa] a se fazer a fortaleza, com a qual ficou o tracto do Commercio assentádo em páz te oje»: «[…] e que por estas cousas procederem de amor, el rey [D. João II] lhas queria pagar [a Caramansa] com amor que tinha mais vantaje que o seu, que éra amor da saluaçam de sua álma, cousa mais preciósa que os hómeẽs tinham, por ella ser a que lhe dáua vida jntendimento pera conhecer e entender todalas cousas, e per a qual o hómem era diferente dos brutos. E aquelle que a quisesse conhécer, ęra necessário tér primeiro conhecimento do senhor que a fizéra, o qual éra deos que fizéra o çéo, lũa, e tęrra, com todalas cousas que nella há: aquelle que fazia o dia, e noite, chuiuas, trouões, relampagos, e criáua todalas nouidádes de que se os hómeẽs mantinham. Ao qual deos, el rey de Portugal seu senhor e todos os outros príncipes da Christandade (que ęra hũa grande párte da terra do mundo) reconheciam por criador e senhor: e a elle adoráuam e nelle criam como aquelle de quem tinham recebido todalas cousas, e a quem a sua álma auia de jr dár conta depois da mórte do bem e mal que nesta vida fizéra» [3].

Penso (eu, que não sou filósofo, nem em tais alturas me arvoro, mas apenas escritor da história «porque a longa velhice dos tempos afasta da memória o proprio conhecimento das cousas passadas, as quaes, se as a escritura não representasse ante nossos olhos, cego seria a cerca disso de todo nosso saber [,] E pois por representação do presente aos que hão-de vir me assento a escrever […]» [4]), sem novidade alguma, que a nossa primeira consciência-evidência enquanto seres existentes é a realidade da morte e que tudo daí decorre, talvez absolutamente tudo do que somos, quando as “coisas” não são apenas o que são, mas sobretudo aquilo em que as mudamos, tornando-as no que somos, sendo que fazemos as “coisas” serem o que somos porque assim o queremos e não que as “coisas” sejam apenas o suficiente que nos dizem que são. Começamos por ser para a morte e precisamos de um sentido que nos minta, que nos iluda a esse respeito. O sermos para a morte disse-o Heidegger (1889-1976) – «L’homme, être des lointains, est un être pour la mort. Il est le seul animal qui sait qu’il va mourir» [5] – e antes dele, Voltaire (1694-1778), no quinto tomo do seu Dictionnaire Philosophique – «De la raison, des mains industrieuses, une tête capable de généraliser des idées, une langue assez souple pour les exprimer; ce sont là les grands bien-faits accordés par l’Étre suprême à l’homme, à l’exclusion des autres animaux. […] On doit remarquer que ce n’est pas le feu de l’imagination, mais la méditation persévérante, et la combinaison des idées, qui ont fait inventer les arts, comme les mécaniques, la poudre à canon, l’imprimerie, l’horlogerie, etc. L’espèce humaine est la seule qui sache qu’elle doit mourir, et elle ne le sait que par l’expérience. Un enfant élevé seul, et transporté dans une île déserte, ne s’en douterait pas plus qu’une plante et un chat. Un homme à singularités a imprimé que le corps humain est un fruit qui est vert jusqu’à la vieillesse, et que le moment de la mort est la maturité. Étrange maturité que la pourriture et la cendre? la tête de ce philosophe n’était pas mûre. Combien la rage de dire / des choses nouvelles a-t-elle fait dire de choses extravagantes!» [6] – mas creio que pensamos, hoje, muito pouco nisso, a não ser quando nos deparamos, para além dos fios e do éter (não existe outra globalização senão essa; nada é global), com os incomensuráveis da nossa expectante fragilidade e da impiedade das leis da Natureza. «Porquê?» é a única palavra da primeira página, hoje, de um jornal (Público). Dotados, como somos, de razão, a pergunta pareceu-me, de imediato, inútil – no dia 15 de Junho de 1752, uma experiência de Benjamin Franklin demonstra que o raio é uma enorme descarga eléctrica e o seu poder destrutivo pode ser parcialmente domado por aquilo que acabara de inventar, o pára-raios. É verdade que a palavra latina spiritus significa sopro, mas alguma “coisa” se pode fazer com esse sopro da vida enquanto o irreversível destino do ser humano não se consuma. «Porquê?» só será uma pergunta inútil se a resposta a ela continuar a ser a impotência dos explorados.

«Limites do espírito humano. Estão por toda a parte, meu pobre doutor. Queres tu saber como o teu braço e o teu pé obedecem á tua vontade e como o teu fígado não obedece? Procuras tu saber como o pensamento se forma no teu débil entendimento e esta criança no útero desta mulher? Dou-te tempo para responderes. O que é a matéria? Os teus semelhantes escreveram dez mil volumes sobre este artigo e encontraram algumas das qualidades desta substância, aquelas mesmas que as crianças conhecem tão bem como tu. Mas esta substância, no fundo o que é? E que é aquilo a que deste o nome de espírito, da palavra latina que significa sopro, sem nada poder fazer de melhor do que dar-lhe o nome, apenas porque não tinhas qualquer ideia? Olha este grão de trigo que lanço à terra e diz-me como ele se reanima para produzir um tubo com uma espiga no topo. Ensina-me como a mesma terra produz uma maçã no alto desta árvore e uma castanha na árvore do vizinho. Eu podia redigir-te um in-folio de perguntas a que não saberias responder por mais do que três palavras: Eu não sei. E todavia foste distinguido com as tuas graduações, e puseram-te uma toga e uma beca, e chamam-te mestre. E esse outro impertinente, que adquiriu um cargo público, convenceu-se também de que tinha adquirido o direito de julgar e condenar aquilo que não compreendia! A divisa de Montaigne era: Eu, o que sei? E a tua é: O que é que eu não sei?» [7]. E de facto: «Aqueles que dizem existirem verdades que devem ser escondidas do povo, não têm motivo para se alarmarem. O povo nada lê, trabalha seis dias por semana, no sétimo vai para a taberna. Numa palavra, as obras do filósofo não são feitas senão para filósofos, e todo o homem honesto deve procurar ser filósofo, sem se envaidecer de o ser» [8]. As tabernas tornaram-se, em Portugal pelo menos, lugares do mais chic que pode haver, com chef e tudo o mais a que o uniforme obriga, algumas, como no interior dos desenhos de uma história de Astérix, trocando o b pelo v. Talvez seja verdade ser «prudente o silêncio de quem só sabe sonhar» [9], mas não estou certo disso; em todo o caso, parece-me, não é prudente, nem respeitoso, o silêncio de quem deseja saber perguntando com a devida razão, não apenas «porquê?», mas ainda «como?», porque não existe apenas o lugar centrípeto do problema mas toda uma série de questões que enxameiam as paredes do vórtice.

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***

[1]. «É tão frágil o que nos sustém», frase citada no blogue Antologia do Esquecimento, de Henrique Fialho, publicação de 18 de Junho de 2017, originária do blogue Jardim de Luz, publicação do mesmo dia, por Maria.

[2]. Natália Correia (1923-1993), «O Armistício», 1985, in Idem, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, volume II, s.l., Círculo de Leitores, 1993, p. 221.

[3]. João de Barros, Ásia. Dos feitos que os Portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente, Primeira Década, Livro Terceiro, capítulo primeiro: «Como el rey dom Joam socedendo no reyno per falecimento del rey dom Afonso seu pay: mandou lógo hũa grande armada ás pártes de Guiné a fazer o castello que agóra chamamos de sam Jorge da Mina, da qual armáda foy capitã mór Diogo Dazambuja: e como se vio com Carámansa senhor daquelle lugar», fac-símile da quarta edição revista e prefaciada por António Baião conforme a edição princeps (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988, pp. 71-75.

«[…] e que por estas coisas procederem de amor, el-rei [D. João II] lhas queria pagar [a Caramansa] com amor que tinha mais vantagem que o seu, que era amor da salvação de sua alma, coisa mais preciosa que os homens tinham, por ela ser a que lhe dava vida entendimento para conhecer e entender todas as coisas, e pela qual o homem era diferente dos brutos. E aquele que a quisesse conhecer, era necessário ter primeiro conhecimento do senhor que a fizera, o qual era Deus que fizera o céu, lua, e terra, com todas as coisas que nela há: aquele que fazia o dia, e noite, chuvas, trovões, relâmpagos, e criava todas as novidades de que os homens se mantinham. Ao qual Deus, el-rei de Portugal seu senhor e todos os outros príncipes da Cristandade (que era uma grande parte da terra do mundo) reconheciam por criador e senhor: e a Ele adoravam e n’Ele criam como aquele de quem tinham recebido todas as coisas, e a quem a sua alma havia de ir dar conta depois da morte do bem e mal que nesta vida fizera»

[4]. Gomes Eanes da Zurara (1410/1420-1474), Crónica de Guiné, segundo o ms. de Paris, modernizada, Introdução, notas, novas considerações e glossário de José de Bragança, s.l. [Porto], Livraria Civilização Editora, 1973, capítulo III: «Em que conta a geração de que descende o infante D. Henrique», p. 19.

[5]. Martin Heidegger, Qu’est-ce que la métaphysique?, conférence de 1929, Cahier de l’Herne, consacré à Heidegger, traduction de Roger Munier, pp. 47-58, online.

[6]. Voltaire, Dictionnaire Philosophique, avec des notes par M. Beuchot, tome V, Paris, Lequien Fils Librairie, MDCCCXXIX [1829], «Homme», pp. 237-238.

[7]. Voltaire, Dicionário Filosófico, [1764], tradução e posfácio de José Domingos Morais, Lisboa, Sistema Solar, 2014, pp. 289-290.

[8]. Ibidem, «Prefácio», p. 6.

[9]. Fado «Asas Fechadas» (Luís de Macedo / Alain Oulman), por Amália Rodrigues, do disco Amália Rodrigues, 1962.

 

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Fotografias: 18 de Junho de 2017

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