eroticon VIII: não-sublime

o que sei eu do misterioso coração do mundo, da natural metamorfose das estações, do tempo e da sua pretérita morte,
da filosofia das nuvens, da seiva das árvores, da terra ensopada da chuva e do seu milenar e vagaroso vapor bolorento,
das vulgares metáforas do mar,
do enigma do pó das galáxias e das novas; o que sei eu se me transfiguraste o sangue
e desocultaste, perante a impiedade da luz, o esplendor inútil das ruínas
onde eu vivia convexo entre belas colunas de capitéis refulgentes sob o sol do deserto
e comia a areia do vento sulcando o esmalte dos dentes
o que sei eu, agora, (ainda agora), que respiro a tua falta e desconheço a noite
eu vou da escarpa do sofrimento do olhar dos cães
ao galope desenfreado dos cavalos a verterem sémen dos sexos dilatados

em tanto que morra, vem
depor sobre as minhas pálpebras as duas moedas para o barqueiro,
e de guisa que não viverei depois de ti, (não tão cedo, eu sei), espero-te
na contingência, pelas palavras uno-me a ti,
de boca, sexo, intervalo das pernas, braços, peito, espasmos do quadril;
uno-me a ti na fronteira onírica da pele,
uno-me a ti neste absoluto e universal indizível (separado, ainda)
seremos nus, (escrevo de lâmina arando a carne), e na manhã enfim nos despiremos deste desesperado sublime,
consumiremos o fogo, consumaremos as palavras, subiremos ao telhado
espero-te

 

26 de Junho de 2016

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