Os objectos de um historiador. O espelho: função e conceito no «fazer memória»

MNAA Abril 001 - Cópia
Autor desconhecido, Retrato de Afonso de Albuquerque, governador e vice-rei da Índia, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, ca. 1555-1580 (conforme a ficha de indentificação do Museu), número de Inventário: 2144 Pint.

Com frequência pensamos, quando nos aventuramos a decifrar os extremos da verdade e da mentira, das qualidades do sentido de facto e da dissimulação, na popular sentença tantas vezes dita: «os olhos são o espelho da alma». E com efeito: também o olhar tem uma gestualidade. O quotidiano da sua própria vida é uma das mais interessantes e importantes fontes de um historiador pois a sua decifração é proporcional ao movimento constante do conhecimento de si mesmo. Ontem como hoje, «a vida, tal como a vivemos, não é um momento de repouso [e] a imagem do pássaro vindo não se sabe donde e ido não se sabe para onde permanece um bom símbolo da inexplicável e curta passagem do homem sobre a Terra», escreveu Marguerite Yourcenar [1]. E por isso a vida, preenchida tanto por este «espaço do invisível» (Vergílio Ferreira), não é um caminho nem certo nem a direito; é um labirinto como as cidades antigas, feito das «rua direitas» ou «ruas novas» mas também de «travessas», «becos» e «azinhagas»; de uma forma se percorre quando é dia e de outra quando é noite. Tal como o historiador leva por diante o seu ofício na ansiedade e na sabedoria, nas conquistas e nos reveses da aproximação à verdade, também cada um pode definir a qualidade da sua aproximação à verdade da vida; da vida pretérita da sua família, da vida presente na rotação da Terra, nas projecções que pretendem abrir veredas de pacificação na inexorabilidade da consciência da morte. A morte é a primeira evidência e tudo são ramificações dessa raiz indestrutível; é pois da maior importância interiorizar a estranheza que sempre tem a morte. De facto, «chegando de uma esfera estranha, a morte como que se vê introduzida de fora na nossa existência. Para qualquer pessoa humana, a apropriação espiritual da morte é uma tarefa decisiva, mas um tal esforço implica esse mesmo carácter da morte que ele tende a transformar. […]. A aceitação da morte transforma a morte; mas aceitá-la implica uma resistência. Na sua própria essência, a pessoa humana não é uma existência perante a morte. Como qualquer outra existência é, a seu modo, dirigida para a realização de si mesma, rumo à eternidade» (Paul-Louis Landsberg) [2]. O caminho de toda uma vida que o historiador faz no sentido da aproximação à verdade é também um caminho contra si próprio, pois faz isso parte do sofrimento e da beleza do movimento de se aproximar. Esse movimento em história não é, segundo o meu entender, o movimento limitado do especialista, e tanto assim é que podemos encontrar na literatura ideias e expressões que conseguir exprimir mais certeiramente e com maior acuidade, ideias e enunciações que qualquer historiador gostaria de ter encontrado por si. Um historiador não deve esquecer que a história já foi sobretudo literatura. Ora, «a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar» (Clarice Lispector) [3]. A certeza pode ser tão diáfana como a desconfiança ou o simulacro do espelho. Vemo-nos, é certo, mas vemos também o que desejamos ver e não apenas o que realmente vemos.
Entre os diversos objectivos a que a escrita da história pode conferir uma forma está o de fixar objectualmente, nas culturas que dominam a escrita, os acontecimentos entendidos como decisivos ou excepcionais que se inscreveram, marcaram a «longa velhice dos tempos» (Zurara) [4]. Quando a história tinha ainda um sentido, esses acontecimentos excepcionais – invulgares por diversas razões que se estendem da sua magnitude aos seus protagonistas – estavam também inseridos num movimento de desejo e de projecção, pois procuravam moldar o futuro dentro de um sistema linear do tempo segundo a omnisciência da divindade que tudo sabia, antevia, e de maneiras tão inúmeras quanto misteriosas ou encriptadas, podia intervir. Para compreender estas categorias mentais, o historiador poderá começar por pensar, com tempo e profundidade, nas propriedades reais, metafóricas e alegóricas de um objecto: o espelho.

MNAA Abril 002 - Cópia
Autor desconhecido, Retrato de Afonso de Albuquerque, governador e vice-rei da Índia, pormenor, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

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[1]. Marguerite Yourcenar (1903-1987), «A propósito de algumas linhas de Beda, o Venerável» (1976), in Idem, O tempo esse grande escultor, tradução de Helena Vaz da Silva, Lisboa, Difel, pp. 13-14. [Le temps, ce grand sculpteur, Paris, Gallimard, 1983.]

[2]. Paul-Louis Landsberg (1901-1944), Ensaio sobre a experiência da morte, tradução de Alberto Nunes Sampaio, Lisboa, Hiena Editora, 1994, pp. 36-37. [Essai sur l’expérience de la mort, 1937.] Itálicos no original.

[3]. Clarice Lispector (1920-1977), A Paixão segundo G. H., (1964), 2.ª edição, Lisboa, Relógio d’Água, 2013, «A possíveis leitores», p. 7.

[4]. Gomes Eanes da Zurara (ca.1410/20-1474), Crónica de Guiné, Introdução, novas anotações e glossário de José de Bragança, s.l. [Porto], Livraria Civilização Editora, 1973, capítulo III: «Em que conta a geração de que descende o Infante D. Henrique», p. 19.

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Imagem: Retrato de Afonso de Albuquerque (1453-1515), governador e vice-rei da Índia, autor não identificado, Goa, ca. 1555-1580, originalmente no Palácio do Governador, Goa,Pangim. Foi D. João de Castro (1500-1548), governador (1545-1548) e vice-rei (1548) da Índia, quem ordenou a constituição de uma galeria de retratos dos governadores anteriores a si e naturalmente incluindo-se a ele próprio. Gaspar Correia, na Quarta Parte das suas Lendas da Índia, dedica um capítulo a esta iniciativa de D. João de Castro intitulando-o «Como o gouernador fes memoria de todolos gouernadores passados, e os mandou pintar per natural em retauolos com seus letereyros, onde elle tambem se pintou». E esse espelho e recriação da história dos Portugueses no Oriente, segundo conta Gaspar Correia, foi realizado com a pretensão da realidade uma vez que o autor dos primeiros debuxos dos retratos foi o próprio Gaspar Correia, e assim ele o conta: «O Gouernador, como era curioso de fazer cousas memoraues que ficassem per sua lembrança, pareceolhe bem fazel alguma memoria dos Gouernadores passados. E chamou a mim Gaspar Correa, por ter entendimento em debuxar, e porque eu lá tinha visto todos os Gouernadores que tinhão governado n’estas partes; e me encomendou que trabalhasse por lhe debuxar per natural todos os Gouernadores per natural. No que me acupey com hum pintor homem da terra, que tinha grande natural, o qual, pola enformação que lhe dey, os pintou de natural de seus rostos, que quem os primeiro vio em vendo sua pintura logo os conhecia». O cronista escreveu que «todos forão pintados em tauoas [tábuas], cada hum apartado» – isso significa, estando correcta a atribuição cronológica que consta da ficha de identificação do Museu Nacional de Arte Antiga, para o retrato de Albuquerque que se reproduz aqui, que este poderá não ser o retrato originalmente pintado. Gaspar Correia terá começado a escrever as Lendas da Índia por 1550 e em 1563 estava ainda a redigi-las (Gaspar Correia, Lendas da Índia, volume quarto, Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida, Porto, Lello & Irmão Editores, 1975, pp. 596-597. Sobre Gaspar Correia, ver a biografia existente no site do C.H.A.M.-Centro de História de Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa). Ainda segundo a informação do Museu, este foi o único retrato da série dos retratos dos governantes do Estado da Índia, começados a pintar por ordem de D. João de Castro, que saíu de Goa antes da anexação pela União Indiana em 1961.

 

Fotografias: Jorge Muchagato, Março de 2014.

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